Reprodução

Em 2009, no auge da crise econômica, o diretor de RH de uma empresa de serviços se viu em sérios apuros. Com o discurso de que precisavam economizar, decidiram fazer a reunião prévia de gerentes para o planejamento estratégico no restaurante da empresa. Entretanto, pouco mais de um mês depois, a reunião dos diretores foi definida em um resort no litoral baiano. A revolta foi geral.

publicidade

A tecnologia e as novas gerações impuseram mudanças culturais que podem ser sentidas em nosso cotidiano político, mas que também afetam o destino dos administradores das empresas.

Um gestor pode se manter distante dos níveis hierárquicos mais baixos, mas, quando essa distância é muito grande, ele corre o risco de perder a noção da realidade. E, assim como Lula, quando começa a se dar direitos que não possui, pode criar situações que colocam em risco não apenas seu cargo, mas também o destino da companhia. Isso é motivo de desorientação, estresse, muita frustração e clima organizacional extremamente negativo.

Geert Hendrik Hofstede, um dos pioneiros em pesquisas sobre cultura em grupos e organizações, criou a teoria das dimensões culturais. Nela, é possível identificar um índice que mede a distância do poder (IDP). Ou seja, as diferenças de direitos que são aceitos por aqueles que estão nos níveis mais baixos da hierarquia para aqueles que são seus superiores.

Países como China e Brasil estão entre os que possuem os maiores IDPs. Uma das consequências nefastas disso é que os níveis de baixo aceitam prerrogativas inexistentes para aqueles que estão nas posições superiores. É quando vemos gerentes da empresa criarem direitos para si que, a rigor, os cargos não lhes conferem.

Nos casos mais graves, cometem pequenos delitos, como se fossem normais para suas posições. Quando o gestor não acompanha as mudanças culturais, torna-se anacrônico inconscientemente.

Assim como a população brasileira, que já não aceita mais certos comportamentos dos políticos e protesta contra eles, os gestores de empresas devem saber que os privilégios e, principalmente, os direitos inexistentes não são mais tolerados nas empresas. Não é apenas uma questão de hierarquia, mas a distância do poder diminuiu. E os comportamentos hoje se alteram de maneira exponencial, ou seja, são mudanças imperceptíveis em um primeiro momento, até se tornarem uma avalanche.

Portanto, não são apenas as regras de governança que devem ser observadas para o bem da companhia. Mas também a discrição e a proximidade com os níveis mais baixos, para saber das mudanças e acompanhá-las por meio dos feedbacks que chegam de todos os níveis.

As transformações culturais exigem adaptações constantes dos líderes. Saibamos percebê-las.

Vamos em frente!