“Mr. Robot” é, sem dúvida, uma das raras séries de TV que realmente entendem a cultura hacker. Mais do que isso, a obra entende de tecnologia, colocando seus personagens diante de situações e aplicações reais de computadores, servidores, prompts de comando, códigos, hardware e software. Bem diferente das alucinações de séries como “CSI”, que replicam mitos como se fossem verdade.

Por isso, a estreia da segunda temporada atraiu a redação do Olhar Digital. O primeiro episódio, dividido em duas partes de 40 minutos cada, foi exibido na madrugada desta quarta-feira, 14, pelo canal por assinatura Space. A transmissão foi feita simultaneamente com os EUA, onde a série é exibida pelo USA Network. Confira nossa análise, mas cuidado com spoilers.

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Boot no sistema

O último episódio da primeira temporada acaba com Elliot abrindo a porta do seu apartamento para um misterioso visitante, enquanto lida com a consciência de sua dupla personalidade e as consequências do grande atentado hacker que ajudou a organizar. Aquele imenso cliffhanger, porém, não é solucionado por esse primeiro capítulo da segunda temporada.

A história recomeça bem longe dali, após dias, semanas ou meses – o tempo decorrido não é especificado. Elliot agora vive na casa onde morou na infância, apenas com sua mãe, totalmente desconectado da internet e da tecnologia em geral, repetindo padrões de comportamento em um looping sem fim. Seu objetivo é permanecer o mais longe possível da principal arma do seu alter ego, Mr. Robot, que continua a provocá-lo na sua mente.

Como na primeira temporada, Elliot continua conversando com seu amigo imaginário – nós, a audiência – e estabelecendo padrões entre seu momento na vida com o mundo da tecnologia. Não é à toa que esse primeiro episódio só tem uma cena de hacking, e que não envolve o protagonista. A série recomeça totalmente desplugada, em um ritmo mais analógico, como o do seu personagem principal.

Por isso a maior preocupação do episódio em duas partes é restabelecer os status dos personagens. Vemos o que aconteceu com cada um dos heróis e vilões da primeira temporada enquanto somos reapresentados ao mundo pós-9 de maio (dia em que o grupo fsociety criptografou todos os dados da E Corp – ou seria Evil Corp?).

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Velhos mistérios

Enquanto o ataque aos servidores da Evil Corp foi o grande motor da narrativa da primeira temporada, o que move Elliot no começo desta segunda etapa é desvendar o desaparecimento de Tyrell Wellick – amigo ou inimigo?

Como já se suspeitava, o episódio confirma que ele não morreu, o que era bem óbvio desde o começo. Afinal, se a série quisesse se livrar do personagem, bastava matá-lo e mostrar o corpo. Guardar segredo significa que ele ainda é uma peça importante para a trama e que iria retornar.

Outra relação que retorna repaginada é o embate entre Elliot e Mr. Robot. Agora que sabemos que o último é uma persona inventada pela mente insana do protagonista, ver os dois em cena gera muita tensão e dá espaço para diálogos bem interessantes. “Quem eles veem quando você se aproxima?”, pergunta Mr. Robot em certo momento.

A pergunta, na verdade, é: quem é a alucinação de quem? Esse tipo de divagação filosófica acontece várias vezes durante o episódio, saindo dos mais diversos personagens. Isso acaba dando tempo para o episódio se esticar em duas partes, e também dá uma nova perspectiva sobre as certezas que os personagens tinham na primeira temporada, que agora são dúvidas.

Será que o atentado de 9 de maio foi mesmo benéfico para a sociedade? Quem está no controle? Existe controle? Esse tema principal, “controle”, também é recorrente ao longo do episódio, lembrando em momentos como o filme “Matrix Reloaded” trouxe uma segunda camada de questionamentos aos que haviam sido feitos no primeiro “Matrix”.

Referências, aliás, é o que não faltam nesse episódio, especialmente à sua principal fonte de inspiração: o livro e filme “Clube da Luta”. Ver Elliot e Mr. Robot juntos soa quase como reassistir ao clássico de David Fincher sabendo que Tyler Durden (Brad Pitt) e o Narrador (Edward Norton) são a mesma pessoa. Há até cenas de insônia e de grupos de apoio psiquiátrico.

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Novos personagens – e horizontes

Nem tudo nesse primeiro episódio gira em torno do passado, porém. A série também começa a estabelecer algumas das peças que entrarão em jogo ao longo da temporada, com a adição de novos personagens: Ray (Craig Robinson), um novo vizinho de Elliot, e DiPierro (Grace Gummer), uma investigadora do FBI tentando descobrir quem está por trás do fsociety.

Esta última, porém, tem apenas duas cenas na segunda parte do episódio e não fica claro o que ela tem para trazer ao drama. Já o primeiro troca alguns diálogos interessantes com Elliot, também na segunda parte do capítulo, deixando em aberto sua participação no restante da temporada.

Enquanto isso, os outros coadjuvantes já conhecidos apenas dão prosseguimento aos seus próprios arcos. Angela, a amiga de infância de Elliot, que agora trabalha como relações públicas da Evil Corp, é a que mais mudou entre uma temporada e outra. Sua transformação em potencial vilã, fria e robótica como nunca, porém, traz à tona o principal defeito da série.

“Mr. Robot” é uma série panfletista. O discurso “anti-sistema”, contra o capitalismo e a divisão de classes, denunciando desigualdade social e colocando o mundo corporativo como os grandes responsáveis pelas mazelas do mundo, parece ingênuo e pouco substancial na primeira temporada, algo que é reforçado nesse começo da segunda.

O grupo fsociety não é um grupo de ideologia de esquerda, mas sim um coletivo de anarquistas. Eles querem salvar o mundo apenas acabando com a atual ordem das coisas, mas sem sugerir uma nova ordem substituta. Essa perspectiva um tanto rasa da realidade poderia ser melhor desenvolvida, talvez com algum personagem mostrando o ponto de vista dos vilões.

Angela poderia ser esse personagem. Ela é uma vítima do corporativismo que acaba “mudando de lado”, indo trabalhar para a Evil Corp. Essa era a chance de “Mr. Robot” mostrar o que está por trás das negociatas e decisões frias de executivos, mas o que a série faz é transformá-la em mais uma vilã sem muita motivação. Nada muito além da “maldade pura”, o que é um erro.

Isso, porém, não tira os méritos de “Mr. Robot”. A fotografia continua estilizada e original, assim como a trilha sonora, cheia de ironia e tensão. O elenco principal continua competente, com destaque para a performance impecável de Rami Malek como Elliot. A série, sem dúvida, volta para a sua segunda temporada com muito fôlego para manter o público interessado.

“Mr. Robot” é exibido no Brasil pelo canal Space, toda quinta-feira, às 23h20.