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Se você já usou qualquer site ou aplicativo de mapas para encontrar seu caminho pela cidade, conferir o estado do trânsito ou ver onde está o seu ônibus, você já se beneficiou de um mapa digital. Essa tecnologia é usada por milhões de pessoas a cada dia, praticamente no mundo inteiro.

Normalmente, quando se pensa no processo por meio do qual esses mapas são construídos, a primeira imagem que vem à mente é a do carro do Google Street View. Além dele, no entanto, outras tecnologias – e outras empresas –  também criam mapas digitais.

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Uma delas é a Here, uma empresa que já foi da Nokia e atualmente pertence a um conjunto de montadoras alemãs de automóveis. A Here oferece um serviço de mapas semelhante ao mais popular Google Maps. No entanto, os mapas da empresa têm uma série de informações adicionais que a companhia vende a clientes que precisam de mais dados e precisão em seus negócios.

Dentre esses clientes estão a Microsoft, a Amazon e o Facebook. A Microsoft usa os mapas da Here em seu Bing Maps, o serviço concorrente do Google Maps; o Facebook, por sua vez, integra os mapas da Here à rede social (se você já consultou o local de um evento no Facebook, por exemplo, você já usou um mapa da Here). Finalmente, a Amazon acessa os mapas da empresa em seu sistema de entregas. Todos esses mapas, contudo, têm uma origem comum.

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Carro cartógrafo

A Here também tem um carro semelhante ao do Google Street View. Ele se chama True Car, e é equipado com uma série de sistemas de captura de imagem. O Olhar Digital teve a oportunidade de dar uma volta nele e conhecer de perto esses sistemas. O principal deles é um conjunto de quatro câmeras de 16MP com lentes grande-angulares que ficam orientadas para frente, para trás e para os lados do carro, capturando fotografias em 360 graus do carro.

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Além deles, o carro também é equipado com um LiDAR – uma espécie de “radar de luz”. O LiDAR emite um feixe de luz em volta do carro para capturar pontos ao redor. Ele é capaz de capturar 700 mil pontos por segundo, de acordo com a empresa. Esses pontos permitem acrescentar profundidade às imagens planas capturadas pelas câmeras, o que permite criar simulações realmente tridimensionais dos espaços.

Acima desses equipamentos fica o mais importante: um sensor de GPS que transmite a posição do carro a cada instante. Além dele, o carro ainda tem um sensor inercial que consegue captar a posição e velocidade do carro. Segundo Melanie Ribeiro, analista de comunidades da HERE, isso permite traçar com precisão o caminho feito pelo veículo mesmo que o sinal de GPS seja momentaneamente perdido.

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Todos esses equipamentos ficam no teto do veículo. Eles são ligados por cabos a uma central de controle que fica no chão, na frente do banco de passageiros do carro. Essa central possui um HD de 1TB que armazena todos os dados captados pelo equipamento, e se liga a um tablet que o motorista pode controlar com o braço direito para iniciar e pausar a gravação, ver as imagens da câmera e etc.

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Vale notar, no entanto, que esse não é o único método por meio do qual a empresa coleta seus dados de rua. Imagens de satélite e edições feitas pela internet também são utilizadas na construção da base de dados. Os dados são todos enviados para uma central de produção nos Estados Unidos, onde são organizados em uma forma mais semelhante – mas ainda não idêntica – aos mapas que utilizamos.

Dados

Em seu nível mais simples, os mapas são uma coleção de linhas (as ruas) e espaços (os quarteirões). É evidente, contudo, que a realidade possui muito mais dados, e fazer um mapa melhor implica colocar mais desses dados nele. Por isso, esses mapas possuem uma quantidade muito maior de informações do que vemos num primeiro momento.

Além do traçado das ruas, outros dados que são inseridos no mapa são o nome das ruas, sua numeração, sua velocidade máxima, o número de faixas que elas têm, se alguma dessas faixas é reservda (para ônibus, por exemplo), a mão das ruas, e uma série de outras informações.

Cada ponto de mapeamento, de acordo com a empresa, pode ter até 779 atributos diferentes. De acordo com Vinícius Ferreira, gerente sênior de produtos para América Latina da HERE, “O volume de dados gerado por cada coleta é da ordem de petabytes”.

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Por meio de uma plataforma online, qualqer usuário pode sugerir edições aos mapas da HERE. Se uma rua muda de mão ou se um restaurante fecha, por exemplo, os usuários podem acessar essa plataforma e marcar a alteração. Ela passará então por um processo de revisão, para garantir que está correta, e então será incorporada aos mapas da empresa.

Quando os dados coletados pelos carros e outros métodos são organizados pela HERE, todos eles aparecem de maneira semelhante à da imagem acima. Trata-se de um layout meio feio, mas ele é voltado para desenvolvedores, e não para o usuário final. No software mostrado acima, todos os dados são revisados, organizados e polidos para que a informação contida neles possa ser vendida para outras empresas. Elas, por sua vez, poderão dar a esses dados a aparência que preferirem.

Serviços

Naturalmente, esse volume imenso de dados pode ser usado para uma série de serviços diferentes. A HERE divide esses serviços em três ramos: Consumer, Enterprise (empresas) e Automotive.

Consumer

O primeiro deles é aquele a que estamos mais habituados: serviços como os mapas do Bing Maps ou do Facebook. São mapas que têm por objetivo principal ajudar seu usuário a chegar do ponto A ao ponto B da maneira que ele preferir.

Em cima desses mapas, porém, a empresa oferece outra série de serviços. Por exemplo, é possível usar um recurso de locais por meio do qual o mapa mostra estabelecimentos e pontos de interesse ao usuário. Informações de trânsito, transporte público e estrutura ciclociária também podem ser oferecidas “em cima” desses mapas para consumidores.

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Automotive

Montadoras de automóveis são extremamente interessadas na tecnologia de mapas, já que elas podem ser utilizadas nos sistemas de GPS e navegação embarcados nos carros que elas fabricam. Isso, contudo, exige uma informação um pouco mais qualificada do que aquela que é necessária para se criar mapas para consumidores.

Por exemplo, é preciso que o número de faixas, a mão e a numeração de cada rua estejam absolutamente corretos. Isso porque o sistema do carro precisará orientar o motorista sobre qual caminho fazer enquanto ele está dirigindo – ou seja, de maneira instantânea.

Ele precisa ser capaz de avisar ao motorista que é necessário se manter na faixa da direita para realizar uma curva em breve, ou saber que a faixa da esquerda de uma avenida é reservada para ônibus naquele horário. Ainda é possível inserir nele as informações de velocidade máxima da via, de radares de trânsito ou mesmo de rodízio, para que o carro avise seu motorista caso ele tente rodar com ele em um horário restrito.

Além dessas preocupações de conveniência, há também preocupações de segurança. Se o sistema de navegação mandar o motorista entrar em uma rua que não dá mão, ele pode colocar a vida do motorista – bem como a de outros motoristas e pedestres – em risco. É necessário, portanto, que esses dados estejam absolutamente atualizados.

Enterprise

Finalmente, há casos em que uma empresa precisa de mapas precisos não apenas para um carro, mas para gerenciar toda uma frota de veículos diferentes. Nesse caso, a quantidade e a qualidade das informações exigidas dos mapas é maior ainda.

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Os mapas precisam saber, por exemplo, qual via é adequada para cada tipo de veículo – nem todas as ruas suportam o trânsito de caminhões ou ônibus, por exemplo. No caso de caminhões, além disso, é preciso também que o mapa contenha informações sobre restrições de peso da via, ou restrições de altura (caso uma ponte ou viaduto atravesse a via), para evitar acidentes.

Em alguns casos, é preciso ainda que todos os veículos da frota “conversem” entre si ou com uma central para realizar melhor suas respectivas tarefas. O Uber (embora não seja cliente da HERE) é um exemplo disso: para que o serviço funcione da melhor maneira possível, é preciso que a posição de cada carro seja conhecido. Assim, quando um usuário pede uma corrida, o aplicativo consegue detectar o motorista mais próximo dele.

Nesse nível, a empresa também oferece um serviço chamado ADAS (Advanced Driver Assistance System, ou sistema avançado de auxílio ao motorista). O sistema consegue, por exemplo, perceber a inclinação das ruas para sugerir ao motorista que reduza a velocidade em determinadas curvas, reduzindo o desgaste dos pneus, ou que ele acelere antes de uma subida para aproveitar mais a inércia, reduzindo o consumo de gasolina. Pode parecer pouco mas quando essas medidas são estendidas a toda uma frota, elas podem gerar uma economia considerável.

Futuro

Se a quantidade de informações movimentadas por esses serviços assombra, no futuro ela só deve aumentar. O principal motivo disso é o mercado de carros autônomos, que promete revolucionar o transporte daqui a apenas alguns anos – contanto que as informações necessárias para o seu funcionamento estejam disponíveis. De acordo com Melanie Ribeiro, a HERE já tem parceria com 10 montadoras de carros para desenvolver veículos desse tipo.

Em teros de dados, um carro autônomo precisa saber, a cada instante, não apenas sua posição e seu destino, mas a posição e velocidade de todos os carros próximos. É com base em todas essas informações que ele toma suas decisões, o que significa que ele precisa de uma série de sensores potentes – e de uma central de processamento capaz de unir os dados de todos esses sensores em frações de segundo. Não à toa, a Nvidia está investindo em supercomputadores para esse ramo.

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Não é só isso: se um carro autônomo se deparar com um acidente na estrada (ou se envolver em um), ele precisa compartilhar essa informação com todos os outros. Isso tanto para evitar que eles também se envolvam, quanto para que eles possam desviar para um caminho menos congestionado. É fácil perceber, portanto, que a capacidade de transmissão e ingestão de dados que esses veículos precisarão ter também é enorme.

Atualmente, os dados que a HERE utiliza em seus mapas são capturados pelos True Cars, gravados em um HD e depois enviados para a nuvem. É possível, num futuro próximo, que esse processo seja mais rápido, e que os dados, em vez de serem gravados no HD e depois enviados, sejam diretamente subidos para a nuvem a partir do próprio carro. Vinícius Ferreira, o gerente de produtos da HERE, afirma que a empresa tem planos para tecnologia nesse sentido, mas ainda não pode revelá-los.