Em boa parte dos filmes de Howard Hawks, e de certo modo, por vezes indireto, em todo e qualquer filme dirigido por ele, há a ideia de profissionalismo exacerbado, geralmente resumida numa fala do protagonista, que em dado momento responde a algum aviso de que sua ação é perigosa: “sou pago para isso”. 

O carcereiro Adriano, personagem de Rodrigo Lombardi em Carcereiros – O Filme, tem essa mesma consciência quando diz, sem pestanejar, que tal ação faz parte do seu trabalho. Isso dá força à trama do filme, cabendo ao diretor, José Eduardo Belmonte, fortalecê-la.

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Ele precisa evitar uma guerra entre as duas facções que lutam pelo comando do presídio, a Falange e o 4º Comando, como também proteger um terrorista internacional deixado ali pela Polícia Federal por uma única noite. Ao mesmo tempo, tem de lidar com as aflições de sua filha adolescente, que deseja que ele volte à profissão de professor de história.

O problema é que Belmonte adota uma direção típica dos filmes de ação atuais, ou seja, muita coisa acontece e só vamos entender o que por meio dos diálogos. Por vontade de impor um dinamismo e uma ideia de fluxo que infelizmente vingou no cinema contemporâneo, coloca-se a câmera no interior das ações  para que a confusão dos personagens seja fichinha perto da nossa confusão.

Isso pode funcionar numa série, porque a trama, com mais tempo de desenvolvimento, termina por se sobrepor às deficiências dessa escolha. Não por acaso, a série Carcereiros, disponível no Globo Play, já está em sua segunda temporada. 

Num longa, mesmo que seja derivado da série, a coisa complica bastante, principalmente quando a ação esquenta. Em muitos momentos não precisamos nem olhar para a tela enquanto os barulhos de tiros continuarem. Sabemos que não vamos entender muito do que se passa, então melhor descansar os olhos para quando a trama arrefece e o drama renasce.

A trama continua forte e bem escrita, o que garante nosso interesse até o fim. Os atores estão todos muito bem, principalmente Lombardi, sempre convincente em seu papel, seu amigo Tony Tornado, sempre um coadjuvante carismático, mas também os prisioneiros Rômulo Braga e Dan Stulbach, além da aparição curiosa de Jackson Antunes, outrora conhecido como o Charles Bronson brasileiro. 

Até a direção irregular consegue seus momentos de força: é muito belo o plano do homem que pensa ouvir a voz de Deus descobrindo uma luz celestial numa ala do presídio, enquanto um homem está morto do lado esquerdo do quadro.