Desde que o coronavírus surgiu e a Covid-19 começou a se espalhar pelo mundo, a doença tem sido comparada com a gripe. Faz algum sentido, considerando que alguns dos sintomas são bem parecidos, e a causa em ambos os casos é um vírus respiratório. No entanto, quanto mais o tempo passa, mais fica evidente que as duas coisas são bem diferentes.

Neste sábado, 11 de abril, o Brasil oficialmente superou a marca simbólica dos 1.100 óbitos em decorrência da Covid-19. Para esse número chegar ao patamar em que está, foi necessário menos de dois meses entre o primeiro caso confirmado, datado do dia 26 de fevereiro, e menos de quatro semanas em relação à primeira morte, revelada em 17 de março.

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Os números mostram que a doença está acelerando no país, e que o pico dos efeitos da pandemia no Brasil ainda não está no horizonte. Esses números também mostram que a Covid-19 é profundamente mais grave do que a gripe comum.

O Brasil registrou ao longo de todo o ano de 2019 um total de 796 mortes por H1N1, o mesmo vírus que causou um surto global em 2009. No total, as mortes por influenza (a família de vírus que causa gripe e que incluem o H1N1, influenza A não subtipado, influenza B e influenza A H3N2) chegaram a pelo menos 1.109 até o início de dezembro. Enquanto isso, o novo coronavírus já superou as 1.100 mortes em menos de dois meses após sua primeira detecção em solo nacional.

Segundo o boletim epidemiológico de dezembro de 2019 do Ministério da Saúde, as 1.109 mortes computadas até o início daquele mês eram apenas 22,5% dos casos letais de Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG) registrados no ano. No total, foram 4.939 mortes entre 39.190 casos notificados ao longo do ano passado, o que equivaleria a aproximadamente 12,6% de letalidade.

Quando se olha a situação das SRAGs no Brasil em 2020, é fácil perceber o tamanho do problema que o sistema de saúde brasileiro está enfrentando e enfrentará pelas próximas semanas ou meses. O gráfico abaixo mostra a evolução das hospitalizações por SRAGs em 2019 e 2020 até a 14ª semana epidemiológica de cada ano.

 
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Não é difícil perceber como o número de hospitalizações por SRAGs disparou em comparação entre 2019 e 2020. Até o início do ano, as duas barras caminhavam quase juntas, mas a partir da semana 10 (entre 1 e 7 de março, poucos dias após o primeiro contágio confirmado) a diferença entre os dois fica mais evidente. Durante a semana 13, o número de internações disparou em cerca de 9 vezes na comparação entre anos.

A tendência é de aceleração

Como os testes para detecção do coronavírus ainda estão em escassez no Brasil (e no mundo inteiro), a subnotificação tende a ser altíssima e há casos de pessoas que chegam a morrer antes mesmo de serem formalmente diagnosticadas com Covid-19, olhar as hospitalizações por SRAGs ajuda a entender a dimensão do problema. Segundo o ministério da Saúde, até a quinta-feira (9) eram 127 mil brasileiros suspeitos de portarem o coronavírus esperando para serem testados, e 320 mil testes foram distribuídos, então é possível que a partir da próxima semana o número de casos confirmados se aproxime dos casos positivos, mas desconhecidos.

Atualmente, o Brasil realiza cerca de 0,3 testes para cada mil habitantes, o que é um número baixíssimo em comparação ao que é feito em outros países. O gráfico abaixo mostra que há várias nações chegando ou superando a marca de 10 testes para cada mil habitantes.

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Não é à toa que autoridades de saúde reforçam que o problema da Covid-19 não é apenas a doença e sua letalidade, mas o impacto que ela tem sobre o sistema de saúde de um país. Sim, ainda vai morrer muita gente contaminado pelo coronavírus no Brasil, mas as outras doenças também tendem a ter maior letalidade. Afinal de contas, com leitos hospitalares abarrotados com pacientes com Covid-19, não haverá mais espaço para cuidar adequadamente de vítimas de dengue, zika, chicungunha que já são doenças que já ocupam os hospitais em anos normais e não deverão parar de infectar brasileiros só porque o coronavírus está circulando. Da mesma forma, as pessoas continuarão tendo infartos e AVCs e podem não ter o atendimento adequado por causa do impacto da Covid-19 nos hospitais.

Esse impacto já está sendo amplamente reportado em algumas regiões. O Amazonas só tinha seis leitos em UTIs desocupados até quinta-feira (9). Na cidade São Paulo, os números também começam a preocupar. Segundo publicação da CBN, a prefeitura confirma que 94% dos leitos clínicos já é ocupado por pacientes com Covid-19. Entre as UTIs, há um pouco mais de folga: 65% delas estão preenchidas.