Uma nova pesquisa mostrou que o YouTube pode ter, como diz a expressão, “trocado seis por meia dúzia”. Nos últimos anos, a rede tem lutado para reduzir ou mesmo eliminar canais e conteúdos extremistas de sua plataforma, com sucesso. Entretanto, ao reduzir o alcance de um lado, o YouTube inadvertidamente ampliou o alcance de outro: o de emissoras partidárias no cenário político norte-americano.

“O canal mais recomendado em 2016, de acordo com nossos dados, foi o de Alex Jones”, disse Guillaume Chaslot, ex-engenheiro do Google que ajudou a criar o algoritmo de recomendações do Youtube e, agora, lidera o estudo. Ele se refere ao notório conspiracionista que se encontra atualmente banido da plataforma. “Hoje, é a Fox News”, acrescenta.

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Desde que Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, a emissora Fox News é reconhecida como uma das maiores apoiadores empresário e político. Notoriamente conservadora, foi por meio dela que diversas notícias do cenário político norte-americano ganharam análises e interpretações favoráveis ao Partido Republicano, do qual faz parte o agora ex-presidente dos EUA.

O vídeo acima, que mostra o apresentador da Fox News, Tucker Carlson, acusando o Google de “subverter a democracia” em uma tentativa de “aprimorar seu mecanismo de busca” foi recomendado a usuários mais vezes que qualquer outro segmento jornalístico nas últimas semanas. É o que  revelou pesquisa feito por Chaslot e Marc Faddoul, da Universidade da Califórnia.

O tom do vídeo não é inteiramente sem base. No fim de outubro, os CEOs do Google, Twitter e Facebook testemunharam diante do Senado dos EUA, defendendo-se de acusações do Partido Republicano, que afirma que as empresas de tecnologia estariam propositalmente reduzindo o alcance de postagens conservadoras a fim de favorecer o Partido Democrata. Estes, por sua vez, acusaram os republicanos de atacarem as empresas por ordem de Donald Trump, à época, ainda o presidente do país.

Mas a situação não para por aí. A pesquisa revelou, ainda, que o algoritmo pareceu ter preferência pelos programas e segmentos de maior apoio a Trump – o próprio programa de Tucker Carlson é constantemente alvo de críticas por veicular informações sem a devida checagem e colaborar com a disseminação de fake news, segundo seus acusadores.

Quebrando em números

A pesquisa de Chaslot e Faddoul avaliou cerca de 300 mil recomendações de vídeos postadas pelos 800 canais noticiosos mais populares do YouTube, entre 6 e 27 de outubro. Nas conclusões, a Fox News apareceu em mais de 3% destas recomendações, versus 1% da CNN e MSNBC. Quando a análise se restringiu apenas a vídeos relacionados às eleições presidenciais do último dia 3, 10% dos vídeos recomendados pertenciam à Fox News – quase três vezes o percentual da MSNBC.

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Tucker Carlson, apresentador da Fox News: emissora teve o maior crescimento de audiência no YouTube nos EUA, segundo estudo. Foto: Richard Drew/AP

“Desde 2018, nós estamos nos concentrando em assegurar que, quando as pessoas vierem ao YouTube buscando por informações, elas as obtenham de fontes que são autoridades, o que aumentou o volume de audiência para esse conteúdo”, disse Ivy Choi, porta-voz do YouTube. “Na verdade, a audiência anual de grandes canais de notícias no YouTube, como ABC News, CBS News, CNN, Fox News, NBC News e MSNBC, teve crescimento maior que 141%”.

O aumento não veio à toa: o algoritmo do YouTube tem parte de seu funcionamento mantido em segredo, mas do que se sabe dele, é que canais operados por emissoras de notícia são classificados pelo Google como “autoridades” de um determinado assunto. Com esse rótulo, o algoritmo costuma dar preferência a eles na hora de recomendar um vídeo para o usuário.

Neste ponto, a Fox News soube como jogar: segundo um porta-voz da emissora, que falou à Forbes em condição de anonimato, no último ano e meio foram criadas equipes de gestão da marca em redes sociais, com profissionais postando vídeos que eles sabidamente reconhecem como ímãs de audiência no YouTube. Não por menos, de todas as emissoras citadas acima, a audiência online da Fox News mais que dobrou.

Fonte: New York Times / Forbes