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Um aumento de hospitalizações e mortes relacionadas à Covid-19 nas últimas semanas levou o governo da Suécia a abandonar sua estratégia de combater a pandemia por meio de medidas voluntárias. Assim como seus vizinhos europeus, o país irá impor restrições que vão desde a proibição de grandes reuniões a restrições à venda de álcool e fechamento de escolas.

A agência sueca de saúde anunciou na última quinta-feira (3) que o país tinha registrado 6.485 novas infecções e 33 mortes. No mesmo dia, o primeiro-ministro Stefan Löfven disse que as escolas de ensino médio mudariam para ensino à distância a partir desta segunda-feira (7) até o final do semestre.

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O país tem 278.912 casos confirmados e 7.067 mortes. Os vizinhos Dinamarca, Finlândia e Noruega, todos países de tamanho semelhante, registraram desde o início da pandemia 878, 415 e 354 mortes, respectivamente. Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, os vizinhos da Suécia fecharam suas fronteiras com o país. “Não gostamos de dizer que a Suécia foi a ovelha negra, mas foram as ovelhas diferentes”, disse Vivikka Richt, porta-voz do ministério da saúde finlandês.

Histórico de casos na Suécia desde o início da pandemia de Covid-19. Imagem: OMS/Reprodução

“Isso está sendo feito para causar um efeito retardado na disseminação da doença”, disse Löfven, acrescentando que a medida “não é uma pausa prolongada” e que as ações do país nos próximos dias determinarão “como podemos celebrar o Natal”. O objetivo, como em outros países (inclusive a nível estadual no Brasil), é evitar que o sistema de saúde seja inundado por pacientes e limitar o número de mortes per capita na Suécia – um dos maiores no mundo.

Segunda onda levou a novo rumo

Durante muito tempo, a estratégia sueca foi elogiada por defensores de medidas menos intervencionistas para combate da pandemia. O país era tido como modelo de respeito pelas liberdades individuais em benefício da economia. Com sua mudança, a Suécia agora adota ações mais próximas aos que defendem pelo menos algumas restrições obrigatórias.

Quando o Sars-Cov-2 se espalhou pela Europa em março, a Suécia divergiu de grande parte do continente e optou por não impor o uso de máscaras, além de manter abertos bares e boates. A ideia era deixar para os cidadãos a escolha de tomar suas próprias precauções. Nesse tempo, os suecos participaram de eventos culturais e esportivos.

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Uma praia em Estocolmo em junho, cheia de pessoas apesar da pandemia de Covid-19. Imagem: Emelie Lundman/Shutterstock

Com o ressurgimento de infecções na Europa, as mortes relacionadas à Covid-19 atingiram quase 700 por milhão de habitantes, as infecções cresceram exponencialmente, com as enfermarias dos hospitais se enchendo. Uma pesquisa feita pelo Statistics Sweden mostrou que o apoio ao governo caiu quase cinco pontos percentuais desde maio, com os suecos cada vez menos convencidos da estratégia do país.

Uma pesquisa feita na semana passada pela Ipsos revelou que confiança da população na capacidade das autoridades de controlar a crise caiu de 55% em outubro para 42%. Mais de 80% dos entrevistados disseram que estavam “um pouco” ou “muito preocupados” que o serviço de saúde da Suécia não fosse capaz de lidar com o desafio.

“É bastante claro que o aumento da taxa de infecção, combinado com as medidas que as autoridades tomaram, levaram a um aumento acentuado da preocupação”, disse Nicklas Källebring, da Ipsos, ao jornal Dagens Nyheter.

Comércio aberto em Malmö, na Suécia, no dia 7 de junho de 2020. Imagem: Dan Manila/Shutterstock

Em um discurso televisionado em 22 de novembro, o primeiro-ministro implorou aos suecos que cancelassem todas as reuniões não essenciais e anunciou a proibição de encontros de mais de oito pessoas. O anúncio desencadeou o fechamento de cinemas e outros locais de entretenimento.

Impacto na saúde e na economia

“As autoridades escolheram uma estratégia totalmente diferente do resto da Europa e, por causa disso, o país sofreu muito com a primeira onda”, disse Piotr Nowak, um médico que trabalhava com pacientes Covid-19 no Hospital Universitário Karolinska, em Estocolmo, ao Wall Street Journal. “Não temos ideia de como eles falharam em prevenir uma segunda onda”, completa.

O médico conta que nunca compartilhou do otimismo da agência de saúde pública do país sobre a chamada “imunidade de rebanho” e advertiu repetidamente que o vírus não pode ser controlado apenas com medidas voluntárias.

“É evidente que temos uma grande disseminação da infecção, que não parou e que todos precisamos ajudar a controlar”, disse Anders Tegnell, epidemiologista chefe da Suécia. Em entrevistas anteriores, Tegnell disse que os bloqueios eram insustentáveis ​​e desnecessários, mas reconheceu no final de novembro que o novo surto de infecções mostrou que não havia “nenhum sinal” de imunidade coletiva no país.

Em dezembro, uma placa exposta em uma loja da cidade de Linköping, na Suécia, agradece aos clientes por manter a distância. Imagem: Per Wilhelmsson/Shutterstock

Enquanto isso, a estratégia sueca também falhou em proporcionar os benefícios econômicos prometidos. Na primeira metade do ano, o produto interno bruto do país caiu 8,5% e o desemprego deve aumentar para quase 10% no início de 2021, de acordo com o banco central. Sem estímulos por parte do governo, restaurantes, hotéis e lojas de varejo estão enfrentando uma onda de fechamentos.

“Isso é pior do que um bloqueio e tem sido um ano catastrófico para todos. Eles não nos fecharam, então não nos dão nenhum apoio substancial, mas dizem às pessoas ‘não vão a restaurantes'”, afirma Jonas Hamlund, que foi forçado a fechar um de seus dois restaurantes na cidade costeira de Sundsvall, demitindo 30 pessoas.

Via: Wall Street Journal/The Guardian