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Um programa criado pela Agência Central de Inteligência (CIA, Central Intelligence Agency) dos EUA para espionar a União Soviética está ajudando cientistas a compreender melhor o impacto que exercemos sobre nosso planeta. Durante 13 anos, entre 1959 e 1972, mais de 140 satélites Corona foram usados para fotografar pontos de interesse atrás da “cortina de ferro”, ajudando a evitar que a Guerra Fria “esquentasse”.

Cada satélite carregava câmeras panorâmicas capazes de diferenciar objetos com apenas 1 metro de comprimento, e gerar imagens estereoscópicas em preto-e-branco (que tinham resolução maior que as coloridas) registradas em quase 5 km de um filme especial produzido pela Kodak.

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Após ser exposto, o filme era transferido para uma cápsula que era disparada em direção ao nosso planeta, onde pousava com a ajuda de para-quedas. Após recuperar a cápsula, oficiais da CIA levavam o filme para ser revelado em uma instalação da Kodak próxima à sede da empresa em Rochester, NY.

Lançamento de um satélite Corona a partir da Base Aérea de Vandenberg, nos EUA. Imagem: National Reconnaissance Office

No total mais de 850 mil imagens, que foram mantidas em segredo até a década de 90, foram feitas. E é justamente a idade e quantidade das imagens que interessam aos cientistas que estudam as mudanças em nosso planeta, já que elas são muito mais antigas, e tem melhor qualidade, que as primeiras imagens de satélites comerciais, que começaram a surgir na década de 80.

Combinadas a técnicas modernas de computação, as imagens do programa Corona estão ajudando arqueólogos a identificar construções antigas, ou recontar como a Segunda Guerra Mundial mudou as florestas na Europa. Elas incluem até mesmo sinais da vida no planeta, como colônias de pinguins na Antártica, cupinzeiros na África ou trilhas deixadas pelo gado em pastagens.

“É como um Google Earth em preto-e-branco”, diz Catalina Munteanu, biogeógrafa da Universidade Humboldt em Berlim, que usou as imagens do Corona para mostrar que marmotas no Cazaquistão retornam às mesmas tocas ao longo dos anos, apesar de décadas de práticas agriculturais destrutivas.

Imagens do passado podem até mesmo ser usadas para prever o futuro. Em 2019 um grupo de cientistas usou fotos produzidas pelos satélites Corona para acompanhar as mudanças no contorno do lago Phewa, no Nepal, ao longo do tempo.

De posse desta informação eles conseguiram estimar que o lago, que vem encolhendo nas últimas décadas, poderá perder até 80% de seu volume de água nos próximos 110 anos. Isso devastaria a capacidade de produção hidroelétrica de região, além de projetos de irrigação para a agricultura e atividades turísticas.

Imagens do programa Corona (à esquerda), combinadas a imagens modernas (à direita) podem nos ajudar a entender mudanças no meio ambiente. O exemplo acima mostra o desmatamento de uma região na Armênia. Fotos: SILVIS Lab/University of Wisconsin-Madison

“Podemos usar as imagens do passado para aprender sobre o futuro”, disse C. Scott Watson, um geocientista da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e co-autor do estudo sobre o lago Phewa.

As imagens do programa Corona deixaram de ser secretas em 1995. A motivação foi exatamente o valor que elas poderiam ter para os cientistas ambientais. “Estes tipos de fotos são o que torna o evento de hoje tão empolgante para os que estudam o processo de mudança em nosso planeta”, disse Al Gore, na época vice-presidente dos EUA.

Apesar de seu valor, apenas 5% de todas as imagens produzidas pelo projeto Corona foram digitalizadas até hoje. Um dos motivos é o custo, de cerca de US$ 30 (R$ 160) por imagem. Mas com mudanças climáticas e transformação global em nossos ecossistemas, nunca foi tão importante gravar e analisar eventos a longo prazo. “Tudo o que fazemos deixa um rastro. Esse impacto pode só ser visível décadas depois”, diz a Dr. Muntenau.

Fonte: Wired