Com a aprovação do uso emergencial da Coronavac (Sinovac/Instituto Butantan) e da Covishield (Fundação Oswaldo Cruz/AstraZeneca) pela Anvisa neste domingo (17), os brasileiros finalmente terão acesso a vacinas contra a Covid-19. Mas a falta de insumos para a produção de doses no país poderá condenar uma campanha de vacinação antes mesmo que ela comece em grande escala.

Segundo a Folha de São Paulo, tanto o Instituto Butantan quanto a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) correm risco de ficar sem o que é chamado de IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), que é a matéria-prima para produção de uma vacina.

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O Butantan tem em mãos 6 milhões de doses prontas da Coronavac, mais 1,5 milhão de doses a rotular e insumos para a produção de mais 4,8 milhões de doses até 31 de janeiro. Mas a última remessa de IFA chegou ao Brasil na virada do ano, e sem reposição a produção terá de ser suspensa.

CoronaVac
Falta de ingrediente pode prejudicar produção nacional da Coronavac. Foto: Governo do Estado de São Paulo/Divulgação

Por contrato com a Sinovac, mais 11 mil litros do IFA deveriam ser entregues ao Brasil neste mês, suficiente para 18,3 milhões de doses da vacina. Mas a carga está parada no Aeroporto de Pequim, ainda sem explicação clara para o atraso na liberação.

Já no caso da vacina de Oxford, o Governo Federal firmou um contrato de R$ 1,9 bilhão com a AstraZeneca para aquisição de 100,4 milhões de doses prontas da Covishield, além da transferência da tecnologia de produção do IFA para a Fiocruz.

Pelo contrato, metade das doses deveria chegar ao Brasil até abril, com o restante até julho. A primeira carga, com 1 milhão de doses, deveria chegar ao Brasil em dezembro. Depois, a chegada foi adiada para 12 de janeiro, o que ainda não aconteceu.

Vacinação contra a Covid-19 pode estar em risco

O Governo Brasileiro chegou a adesivar um avião da Azul Linhas Aéreas para enviá-lo a Mumbai, na Índia, para buscar 2 milhões de doses da Covishield que estariam disponíveis. Mas o voo nem sequer saiu de solo brasileiro: o governo indiano vetou a exportação da vacina, alegando que é necessária para a recém-iniciada campanha de vacinação no país.

Avião da Azul Linhas Aéreas chegou a ser adesivado pelo Governo Federal para buscar vacinas na Índia, mas nem sequer saiu do país. Imagem: Azul Linhas Aéreas

Em 3 de janeiro o CEO do Serum Institute, Adar Poonawalla, disse em entrevista à Associated Press que o governo indiano havia vetado a exportação de doses da vacina de Oxford, para garantir a imunização de todos os indianos que integram o grupo de risco. O Serum Institute é um laboratório indiano que está produzindo a Covishield sob licença da AstraZeneca. 

Dois dias depois, Poonawalla veio a público esclarecer sua declaração e afirmou que as vacinas poderão ser exportadas, mas apenas após o Serum Institute entregar ao governo indiano 100 milhões de doses, o que levaria dois meses.

Uma falta de vacinas poderia não só adiar a imunização de grande parte da população, como prejudicar a conclusão da vacinação naqueles que pertencem aos grupos prioritários. Isso porque tanto a Coronavac quanto a Covishield devem ser administradas em duas doses, idealmente com intervalo de 15 dias.

O Governo Britânico já declarou que permitirá a mistura de duas vacinas diferentes, caso no momento da segunda dose a vacina usada na primeira não esteja disponível. A Fiocruz estuda um intervalo maior entre as doses, com três meses entre a primeira aplicação e a segunda, visando aumentar a cobertura vacinal mais rapidamente enquanto o volume de doses for escasso.

A fundação também estuda a utilização de uma dose única em vez de dupla, caso seja considerado necessário, para maximizar o número de pessoas atingidas. Segundo a fundação, a vacina tem uma eficácia de 73% após a primeira dose, o que seria um patamar aceitável, especialmente considerando que um regime de dose única permitiria o dobro de vacinados.

Fonte: Folha de São Paulo