A partir desta quarta-feira (20), Donald Trump é ex-presidente dos Estados Unidos. Com isso, Joe Biden, vencedor da eleição realizada no ano passado, passa a ocupar o cargo. Mas quais são as condições atuais do país deixada por Trump para o novo chefe do executivo em relação à tecnologia?

Os quatro anos de Trump no poder foram marcados por uma série de discussões importantes no mercado de tecnologia, em alguns momentos rivalizando com os grandes nomes do setor, e e em outros os beneficiando.

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Veja como o agora ex-presidente lidou com a tecnologia ao longo de seus quatro anos de mandato:

Trump e o Big Tech americano

Não há o que discutir: a eleição de Trump em 2016 foi uma derrota para o Vale do Silício. O estado de Califórnia, onde se concentram praticamente todas as grandes companhias do setor, é um reduto do partido democrata desde sempre. Não faltaram grandes executivos criticando o agora ex-presidente em sua primeira campanha, atacando seus discursos ou até mesmo tentando alavancar outros candidatos no partido republicano que pudessem evitar a formalização da candidatura trumpista.

Um dos pontos que criaram essa discordância estava na política imigratória que marcou a era Trump. O Vale do Silício se beneficiava muito do visto H1-B, que facilitava a contratação de mão de obra imigrante altamente qualificada para integrar suas forças de trabalho, e foi algo que Trump cerceou durante seus anos no poder. O ex-presidente tentou limitar o uso desse mecanismo para tentar acelerar a contratação de americanos. Não é difícil perceber como as duas ideias se colidem, especialmente quando os CEOs de Microsoft e Google, por exemplo, são imigrantes indianos.

A situação se agravou durante 2020, já no fim da era Trump, quando o discurso de Trump passou a conflitar diretamente com o que as empresas julgavam aceitável em suas plataformas. A partir de maio, quando o Twitter começou a incluir alertas de que o então presidente divulgava informações enganosas sobre as eleições e advogava pelo uso de violência contra manifestantes do movimento Black Lives Matter em Minnesota, Trump iniciou uma ofensiva contra as redes sociais, pedindo a regulamentação das plataformas e a revogação de benefícios legais (a seção 230 do Ato de Decência das Comunicações) que isentavam as empresas de responsabilidade sobre o conteúdo, além de permitir todas as formas de moderação do conteúdo. Isso culminou no fim do ano, após a eleição, quando o executivo foi expelido de todas as redes sociais “mainstream” e viu as alternativas, como o Parler, adotada por seus apoiadores serem excluídas da internet pela promoção de discurso violento.

Twitter de Donald Trump
Redes sociais passaram a agir de forma agressiva contra Trump no fim de seu mandato

Apesar de múltiplos entreveros, Trump trouxe benefícios diretos para o setor na forma de redução de impostos, que inclusive permitiram à Apple repatriar bilhões de dólares que estavam guardados no exterior. A questão tributária deve ser um tema importante da nova administração, inclusive, com a campanha democrata prometendo restaurar os impostos reduzidos por Trump.

Também não há como dizer que as empresas de tecnologia perderam dinheiro ao longo da era Trump. Ao longo de seus quatro anos no poder, o mercado viu as primeiras empresas do setor alcançarem uma capitalização de mercado na casa do trilhão de dólares. Uma parte desses recordes de lucratividade, inclusive, foram alcançados durante a pandemia de Covid-19, com a maior demanda por produtos tecnológicos para mediar as relações à distância.

Trump contra a China

Não é possível falar da “era Trump” na tecnologia sem falar da China. Agora ex-presidente, ele se elegeu com um discurso nacionalista que sempre defendeu a repatriação de empregos “perdidos para a China”, o que criou uma richa entre os dois países no setor durante seus quatro anos no poder.

Talvez o que ilustre a forma como o ex-presidente lidou com a China de forma mais óbvia é a forma como ele acabou banindo empresas e as proibindo de manter relações com companhias americanas. A Huawei foi o primeiro grande exemplo; a gigante chinesa, uma das cinco maiores fabricantes de celulares do planeta e nome dominante no mercado de telecomunicações e 5G, foi acusada de usar sua tecnologia para espionar países ocidentais para o governo chinês. O resultado: até hoje, países, incluindo o Brasil, têm receio de adotar a tecnologia de 5G da companhia, que também não consegue mais vender seus celulares com Android pelo mundo e precisou desenvolver um sistema próprio.

Acelerar vídeos no TikTok
TikTok conseguiu se safar após ser ameaçado por Donald Trump. Foto: Anatoliy Sizov/iStock

A questão de preocupação com espionagem acabou por direcionar a atenção do Trump a outras empresas que começaram a ganhar tração no ocidente. O TikTok foi o principal alvo da administração durante o ano de 2020, chegando ao ponto de a ByteDance ser obrigada a vender o app para uma empresa americana para continuar operando. Apesar da pressão, no entanto, o negócio não foi adiante: o app continua permitido e continua operado por uma companhia chinesa.

A guerra comercial iniciada com a China também acabou afetando de forma indireta companhias americanas, que mantém uma relação muito próxima com fornecedores na região. A Apple, inclusive, foi muito vocal contra essa richa entre os dois países, justamente porque boa parte de sua produção acontecia na China, forçando o pagamento de tarifas que antes eram inexistentes para permitir a circulação de seus produtos.

Trump também teve a mão pesada em relação a aquisições de empresas americanas por outras chinesas. O maior exemplo foi uma fusão da Qualcomm com a Broadcom, que criaria uma megapotência na produção de chips. A preocupação era de que a Broadcom teria muitas relações com organizações da China, causando preocupação com segurança nacional.