Por Marcelo Zurita*

Se você já ouviu falar em “tempestade perfeita”, sabe que não é muito legal estar no meio de uma. Mas o que aconteceria se a Terra fosse atingida em cheio por uma tempestade solar perfeita?

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Um novo estudo, publicado na revista científica Space Weather, tenta responder essa questão simulando um caso extremo de ejeção de massa coronal vindo exatamente na direção da Terra.

As ejeções de Massa Coronal (EMC) são gigantescas erupções de gás ionizado a altas temperaturas, provenientes da coroa solar. Esse gás ejetado forma o vento solar que, quando atinge o campo magnético terrestre, produz as tempestades geomagnéticas, que além de gerar belas auroras, podem também prejudicar os sistemas de comunicações e estações elétricas.

Há um século e meio, a grande tempestade solar de 1859 provocou pane em quase todos os sistemas elétricos existentes na época. Além disso, gerou auroras polares, que puderam ser vistas de todo o planeta, inclusive em regiões tropicais. Foi uma das mais intensas tempestades geomagnéticas já registradas.

“Aurora Borealis”, pintura de Frederic Edwin Church provavelmente inspirada na Grande Tempestade Solar de 1859

Os efeitos de uma EMC

Em 2014, os pesquisadores Bruce Tsurutani, da Nasa, e Gurbax Lakhina, do Instituto Indiano de Geomagnetismo, introduziram o conceito de “EMC perfeita“. Uma ejeção de massa coronal, deixando o Sol a cerca de 3.000 quilômetros por segundo, e vindo diretamente na direção da Terra. Ela seria precedida de outra EMC, que limparia o caminho à sua frente, permitindo que os ventos da segunda ejeção atingissem a Terra com força máxima. Seria uma tempestade solar perfeita, e os efeitos não seriam muito agradáveis.

Tsurutani e Lakhina calcularam que uma EMC perfeita atingiria a Terra em apenas 12 horas, o que nos daria pouco tempo para nos prepararmos. Ela geraria uma tempestade geomagnética duas vezes mais intensa que em 1859, que poderia afetar nossos sistemas de comunicação, rede elétrica, GPS e praticamente tudo que depende da eletricidade. Parece ruim, não é? Mas piora.

No ano passado, uma equipe liderada pelo físico Dan Welling, da Universidade do Texas, utilizou os modelos mais avançados de clima espacial para revisar os efeitos de uma EMC perfeita. A equipe concluiu que os distúrbios geomagnéticos podem ser até 10 vezes mais intensos que Tsurutani e Lakhina haviam calculado.

Uma EMC perfeita comprimiria o campo magnético da Terra, deixando vários dos nossos satélites de comunicação expostos às partículas energéticas que poderiam causar danos permanentes. As perturbações atmosféricas poderiam, inclusive, acelerar a reentrada de satélites de órbita baixa.

Gráfico mostrando a possível distorção e compressão do Campo Magnético da Terra quando atingido por uma EMC perfeita. Imagem: Welling et al, 2020

Agora, imagine um mundo sem internet e sem energia elétrica, com as noites iluminadas por auroras e equipamentos elétricos dando choque mesmo desligados da tomada. Rádios não funcionam, TVs e celulares também não. Esses seriam alguns efeitos práticos que poderiam ocorrer se a Terra fosse atingida por uma tempestade solar desta magnitude.

E é importante destacar que a “EMC perfeita” não tem nada de fantasia nem de sensacionalismo. Já houveram observações anteriores de EMCs lançadas a 3.000 quilômetros por segundo, e há muitos casos documentados de uma EMC abrindo caminho para outra. De toda forma, é bom estarmos preparados para quando uma dessas vier em nossa direção.

*Marcelo Zurita é presidente da Associação Paraibana de Astronomia – APA; membro da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Bramon – Rede Brasileira de Observação de Meteoros – e coordenador regional (Nordeste) do Asteroid Day Brasil.