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Parecia uma descoberta revolucionária. Era 2018 quando Leo Kouwenhoven, físico da Microsoft, afirmou ter observado um férmion de Majorana – uma partícula que é sua própria antipartícula. A Microsoft investia na busca por esse elemento porque queria usá-lo para criar um computador quântico.

Era a chance da empresa de alcançar concorrentes como IBM e Google, que já tinham seus protótipos, feito com tecnologia convencional. Julie Love, diretora de desenvolvimento de negócios de computação quântica da Microsoft, chegou a dizer à BBC que a companhia teria um computador quântico comercial em cinco anos.

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Três anos se passaram e Kouwenhoven concluiu que não encontrou o férmion de Majorana. A publicação feita em 2018 na revista Nature vai, inclusive, ser retirada em razão de erros técnicos. Especialistas que analisaram os resultados do experimento avaliam que foram excluídos itens que comprometeram o anúncio.

Kouwenhoven foi contratado pela Microsoft em 2016 para o trabalho específico de encontrar partículas Majorana. Ele ganhou notoriedade no segmento depois de conduzir um estudo a respeito delas na Universidade Técnica de Delft, na Holanda, em 2012, com financiamento da Microsoft. Os resultados foram ambíguos, mas garantiram destaque ao pesquisador.

Segundo Sergey Frolov, professor da Universidade de Pittsburgh, a equipe de Kouwenhoven ignorou dados que contradizem diretamente o que eles alegam ter descoberto. “Quando se olham os dados completos, fica claro que não há Majorana.”

Os documentos atualizados reconhecem que quando se tenta validar uma teoria experimentalmente existe a chance de “chegar a uma confirmação e obter evidências falsas”. A grande chance de os pesquisadores terem cometido erros, mas é improvável que tenham tido a intenção de enganar.

A Microsoft passou a se interessar por Majoranas depois que pesquisadores da empresa disseram para Craig Mundie, responsável por estratégia tecnológica, que poderiam resolver uma das dificuldades dos computadores quânticos. Especialistas dizem que essa tecnologia vai definir o futuro ao permitir novos avanços em ciência e engenharia.

Segundo os cientistas, era possível criar qubits (os bits quânticos, que são capazes de fazer a superposição de 1s e 0s) mais confiáveis, os qubits topológicos. Esses elementos são feitos com partículas incomuns, como as Majoranas – que podem surgir em maciços de elétrons em alguns materiais a temperaturas muito baixas.

Desafio quântico

O maior desafio dos computadores quânticos é o ruído térmico ou eletromagnético. Então, teoricamente, as Majoranas seriam a solução para essa dificuldade. Todo esse cenário de não haver efetivamente encontrado as partículas é um grande obstáculo para as ambições da Microsoft de competir em computação quântica.

A Microsoft apostou nas Majoranas porque, segundo ela, a tecnologia ajudaria a obter qubits mais escaláveis, o que permitiria ir um passo além. Hoje, após cerca de uma década de trabalho, a companhia não tem um único qubit ainda.

Fonte: Wired