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O aumento desenfreado da disseminação do novo coronavírus no Brasil tem deixado cientistas brasileiros e estrangeiros preocupados. Isso porque ele pode levar ao surgimento de ainda mais variantes. O temor é de que o país se torne um celeiro de novas mutações, o que pode agravar ainda mais a crise sanitária por aqui.

Enquanto países como Uruguai, China e Israel conseguiram controlar os casos de Covid-19, o Brasil enfrenta o pior momento desde o início da pandemia: recorde de óbitos por Covid-19 em 24 horas, 42 dias seguidos com média móvel de mortes acima de 1 mil e mais de 259 mil mortes registradas ao todo.

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Conforme o tempo de circulação do novo coronavírus no país se estende e menos controle se tem sobre sua propagação, o risco de ele se replicar nos pacientes e causar novas mutações aumenta. Isso porque o microrganismo tende a buscar adaptações para sobreviver por mais tempo.

E o Brasil já observou o surgimento de duas variantes — P.1, do Amazonas, e P.2, do Rio de Janeiro —, mais contagiosas e mais resistentes que o novo coronavírus original. O medo é que o crescimento de casos de Covid-19 possibilite o surgimento de ainda mais cepas.

Ilustração de variante do coronavírus
Quanto maior o tempo de circulação de um vírus, maior a possibilidade de mutações e do surgimento de novas variantes. Foto: Lightspring/Shutterstock

Mauricio Nogueira, virologista e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, diz que a cada X multiplicações, há mutação. “Ou seja, quanto mais o vírus se multiplica, mais variantes surgem. Agora, o Brasil é onde ele mais se multiplica, é onde já há o maior número de novos casos por dia. Se a cepa tem a oportunidade de ser transmitida quando a pessoa pega um avião lotado, vai ao cinema, a um restaurante… aí estamos nos tornando um celeiro de variantes e distribuindo-as à vontade pelo país.”

A possibilidade de o Brasil se tornar um criadouro de variantes é confirmada pela pesquisadora Akiko Iwasaki, da Universidade de Yale, nos EUA. Segundo ela, quando a transmissão é intensa, novas mutações podem surgir e se espalhar. “É como colocar lenha na fogueira”, afirma.

Evolução do novo coronavírus

Ainda não está claro se o surgimento das novas variantes brasileiras é responsável pelo aumento dos casos de Covid-19 no país. Embora a mutação P.1 seja mais transmissível, houve aceleração global da evolução do vírus nos últimos meses.

Felipe Naveca, virologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia lembra que todos os grupos de pesquisa mostram isso. “O surgimento de linhagens no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil — com mutações em comum relacionadas ao escape de anticorpos e à maior transmissão — mostram que o vírus deu um salto de evolução”, avalia.

Renderização de variante do coronavírus
Mutações do novo coronavírus observadas no mundo todo preocupam especialistas. Foto: joshimerbin/Shutterstock

Apesar disso, o surgimento de variantes e mutações do novo coronavírus não pode ser usado como desculpa para justificar o cenário de caos vivido no Brasil. “É muito conveniente para a sociedade, os políticos e as autoridades afirmarem que a culpa é da variante mais transmissível. Como se tivessem feito tudo para conter o problema, mas a variante tomou conta da cidade”, aponta Nogueira.

Agora, o governo deve procurar frear a disseminação do novo coronavírus o mais rápido possível. Para isso, podem ser adotadas desde medidas básicas como o incentivo do uso de máscaras e do distanciamento social até ações mais restritivas como a implementação de lockdown. Se forem implantadas por aqui, podem ajudar a evitar um cenário ainda mais turbulento — e caótico — no Brasil.

Fonte: Estadão