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A cada ano, o número de mulheres dentro do universo da tecnologia cresce. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), a participação feminina na área aumentou entre 2015 e 2019, saltando de 27,9 mil no primeiro ano da análise para 44,5 mil.

Esse crescimento de quase 60% é um grande avanço em um setor que sempre foi majoritariamente ocupado por homens. Ainda assim, a diferença entre gêneros é grande e ter uma cultura com foco em diminuir essa lacuna é apenas uma das facetas da luta dentro da TI, que é marcada principalmente pelo preconceito: no ano passado, 81% das mulheres do setor afirmaram ter passado por algum tipo de discriminação de gênero.

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Isso é o que aponta o estudo “Mulheres em TI”, realizado pela consultoria em recrutamento e seleção Yoctoo. Ainda de acordo com o levantamento, 63% das respondentes afirmam que no ambiente de trabalho é onde o preconceito mais acontece.

tecnologia
Discriminação contra mulheres ainda é grande no setor de tecnologia.
Crédito: Shutterstock

Para 82% dessas entrevistadas, o maior impasse é ter de provar, a todo momento, a própria competência técnica. Esse número é 40% acima do registrado em 2019, quando 42% das respondentes acreditavam que este era o maior desafio enfrentado no ambiente de trabalho.

Serem respeitadas por pares, sejam superiores ou subordinados do gênero masculino, também aparece no ranking de principais reclamações, ocupando a segunda posição (51%).

É preciso, cada dia mais, “trabalhar para mudar essa realidade, afinal, existe uma grande demanda reprimida por profissionais dessa área”, diz o diretor da Yoctoo, Paulo Exel.

Diferença começa na educação

O mercado de trabalho na TI pode ser inóspito para mulheres, mas a discriminação começa em etapas anteriores a essa. Mais de 40% delas afirmam sofrer preconceito de gênero já nas universidades, mostra o estudo da Yoctoo. Isso se deve também à maioria dos cursos relacionados ser composta por homens.

E, depois desse período, os entraves não diminuem. Mesmo já inseridas dentro do universo da TI, muitas mulheres chegam a abandonar a carreira.

A principal motivação para 37% delas é a cultura corporativa, segundo o levantamento “Resetting Tech Culture”, divulgada em 2020 pela Accenture em parceria com a Girls Who Code, uma organização internacional sem fins lucrativos que trabalha em prol da equidade de gênero na TI.

A mesma pesquisa mostra que se as empresas desenvolvessem uma cultura mais inclusiva nesse sentido, a taxa anual de turnover de mulheres na TI cairia em 70%.

Mulher negra na TI
Quando a diversidade é maior, as desistências diminuem proporcionalmente.
Crédito: Shutterstock

Falha na representatividade

Toda essa escassez feminina no mercado da TI reflete em outro ciclo nocivo: a falta de representatividade. Sem isso, menos mulheres enxergam que aquele lugar pode ser ocupado por elas e, assim, o círculo vicioso de falta de incentivo se perpetua. Essa, aliás, foi uma das principais preocupações apontadas por 48% das entrevistadas pela Yoctoo: não ter em quem se inspirar.

Agregado a isso, a falta de oportunidade em processos seletivos é outra falha apontada por 39% das entrevistadas.

Corrobora com esse dado outro número mostrado na pesquisa da Accenture com a Girls Who Code, onde 45% dos líderes de Recursos Humanos acreditam que está mais fácil para as mulheres se darem bem no ramo da tecnologia, mas apenas 21% das mulheres entrevistadas concordam com isso. Quando o recorte é racial, o número é ainda menor: apenas 8% das mulheres negras, por exemplo, acreditam no mesmo.

Vale citar que o estudo da Accenture foi realizado com uma base de entrevistados dos Estados Unidos. No Brasil, há poucos dados de mulheres na TI que endereçam detalhamento com outros recortes. 

O levantamento “#QUEMCODABR” de 2019, realizado pela PretaLab em parceria com a ThoughtWorks, trouxe luz a alguns números sobre diversidade de profissionais no setor de tecnologia no País.

Em 95,9% dos casos analisados pela pesquisa, não há qualquer pessoa indígena nas equipes de TI; e em 32,7% dos casos, não há qualquer pessoa negra.

Se considerando que, em 64,9% dos casos, as mulheres compõem no máximo 20% das equipes de trabalho, dá para se ter uma ideia do tamanho da questão quando a análise é minuciosa.

Profissionais de RH, portanto, possuem papel crucial para fazer esse universo mais diverso e equilibrado.

“É nosso papel proporcionar processos seletivos mais justos, inclusivos e, principalmente, sem nenhum tipo de viés”, afirma Exel. Para ele, iniciativas como a de incentivar os responsáveis pelas seleções de profissionais, para promover um processo neutro e focado em habilidades, possibilitam reverter esse cenário.

mulheres em reunião
Quanto mais diversidade, menor a taxa de turnover de mulheres em tecnologia.
Crédito: Shutterstock

Resolução e benefícios

Para 52% das entrevistadas, o incentivo dos pais desde a infância é imperativo quando o assunto é a inserção de mulheres dentro da TI. Equiparação salarial também entra no ranking, com 48% das entrevistadas afirmando acreditar que esse é fator essencial para mudar o cenário de preconceitos.

Para 31% das entrevistadas pela Yoctoo, criar políticas empresariais mais claras em relação ao incentivo à diversidade também aparecem no ranking de iniciativas que devem ser feitas para ter mais mulheres seguindo carreiras na TI.

Vale ressaltar que diminuir essa lacuna não é apenas interessante do ponto de vista da diversidade em locais de trabalho, mas também da perspectiva técnica. Até 2024, o segmento de tecnologia terá de lidar com uma defasagem de mais de 370 mil profissionais.

Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), o mercado irá demandar cerca de 420 mil profissionais de TI especializados para preencher vagas disponíveis em empresas anualmente, enquanto que apenas 46 mil deles sairão de cursos superiores com formação na área.

Atualmente, existem 580 mil profissionais de TI no País e apenas 20% deles são mulheres, segundo números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ou seja, espaço há. Falta incentivos à mudança.

Veja abaixo mais detalhes sobre o estudo feito pela Yoctoo.

infográfico Yoctoo mulheres na TI
Infográfico detalha preconceitos sofridos por mulheres na TI.
Crédito: Yoctoo/Luiz Gustavo Gementi Gaspar

A pesquisa da Yoctoo entrevistou mais de 125 mulheres, dos mais variados cargos: de especialista em TI a líderes de equipe técnica, executivas C-Level, empreendedoras, freelancers e estudantes. Os questionários foram aplicados entre 22 e 28 de fevereiro de 2021.