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A cultura de jogos “blockbuster” da Sony está fomentando um ambiente hostil para desenvolvedores pequenos dentro da empresa, de acordo com matéria veiculada pela agência de notícias Bloomberg. Pelo texto, um pequeno grupo de desenvolvedores tentou criar uma espécie de “estúdio menor” a serviço da companhia, mas como a Sony nunca nem mesmo reconheceu a existência do grupo, boa parte dessas pessoas já até se demitiu.

Explicando: a Sony tem uma subsidiária chamada Visual Arts Service Group, cujo trabalho é, basicamente, fazer a arte final de jogos produzidos por outros estúdios, tendo participado no polimento de títulos como ‘Marvel’s Spider-Man’ e ‘Uncharted‘. O ex-diretor do grupo, Michael Mumbauer, havia recrutado cerca de 30 desenvolvedores no intuito de pedir à Sony por mais controle criativo e autonomia, a fim de expandir franquias já conhecidas da empresa: a nova unidade chegou até a começar o desenvolvimento de um remake do ‘The Last of Us’, de 2013.

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A Sony está supostamente promovendo um ambiente hostil de trabalho para pequenos desenvolvedores a serviço da empresa.

Imagem: o console PlayStation 5, posicionado sobre uma mesa
O PlayStation 5 seria a plataforma de escolha para divisão menor da Sony criar remakes de grandes jogos, mas gestão da empresa acabou causando descontentamento. Imagem: Kerde Severin/Pexels

Entretanto, o fato da Sony nunca reconhecer a nova unidade de desenvolvimento (o que implica em ela não ter nem nome próprio, nem fundos para trabalhar) e o suposto remake do jogo sendo repassado ao estúdio original — Naughty Dog — acabaram por criar um ambiente hostil de descontentamento entre os envolvidos. De acordo com Jason Schreier, autor da matéria da Bloomberg, entrevistas com fontes envolvidas no caso revelaram que a situação fez com que Mumbauer, que dirigia a Visual Arts Service Group desde 2007, pedisse demissão da Sony — ele próprio não comentou o caso e pediu que seu nome não fosse mencionado em discussões privadas.

A matéria detalha também a estratégia da Sony de contar apenas com alguns estúdios, responsáveis pelos seus maiores sucessos, ainda que seja, ela própria, dona de aproximadamente uma dúzia de empresas de desenvolvimento espalhadas pelo mundo. Nomes como “Sony Santa Monica” (‘God of War‘), a já mencionada Naughty Dog (‘Uncharted’ e ‘The Last of Us’) e Guerrilla Games (‘Horizon Zero Dawn‘) costumeiramente recebem a maior parte do orçamento direcionado à criação da Sony. A rival Microsoft, por exemplo, faz o contrário, disponibilizando um serviço de assinatura mensal de baixo custo para seus usuários — o Game Pass –, ao passo em que aposta na aquisição de estúdios menores, mas com jogos que estrearam com sucesso, vide a compra da Ninja Theory (‘Hellblade: Senua’s Sacrifice’), por exemplo.

Na imagem: cena do jogo "The Last of Us", mostrando os protagonistas Joel e Elle se escondendo atrás de uma porta enquanto um homem com uma espingarda procura por eles ao fundo
Um remake de “The Last of Us” seria o tipo de notícia que deixaria a comunidade gamer alegre, mas acabou servindo como o pivô central de problemas de gestão na Sony. Imagem: Naughty Dog/Divulgação

“O foco da Sony em blockbusters exclusivos lhe custou estúdios e equipes de nicho dentro da organização ‘PlayStation’, levando a um turnover mais alto e menos poder de escolha para os jogadores”, diz trecho da matéria, referindo-se ao termo usado no meio corporativo para referir-se a uma alta taxa de pedidos de demissão. “Na última semana, a Sony reorganizou um estúdio de desenvolvimento no Japão, resultando na partida de pessoas que trabalharam em produções menos conhecidas, mas muito bem-sucedidas, como ‘Gravity Rush’ e ‘Everybody’s Golf’. A empresa informou os desenvolvedores que não mais buscaria produzir jogos menores que só vendem no Japão”.

A situação acabou trazendo infelicidade em divisões de maior reconhecimento: a Sony Bend, que assina a produção de ‘Days Gone‘, chegou a sugerir a criação de uma sequência para o jogo de 2019. Embora o título tenha dado lucro à Sony, a sua recepção no lançamento foi mediana, com críticos especializados ressaltando seus diversos bugs — a Sony acabou descartando a ideia, preferindo, ao invés disso, designar uma equipe da Sony Bend para auxiliar a Naughty Dog em um projeto multijogador ainda não revelado, enquanto um segundo grupo da divisão ficaria responsável por um novo jogo da série ‘Uncharted’ sob supervisão da mesma Naughty Dog,

Isso não caiu bem para algumas pessoas, que temiam que a Bend acabasse absorvida pelo estúdio maior e pediram pela remoção do time deste projeto. O desejo foi concedido na última semana, e agora a Bend está trabalhando em um projeto próprio, ainda não anunciado.

Captura mostrando a logomarca do jogo/engine gráfica "Dreams", para PlayStation 4
“Dreams” é o tipo de jogo com engine própria de construção que poderia trazer bilhões à Sony, mas empresa preferiu se concentrar apenas em lançamentos consagrados. Imagem: Sony/Divulgação

“A ênfase em grandes sucessos também pode ser contraproducente pois, em alguns casos, jogos que começam pequenos podem se tornar sucessos massivos”, aponta a matéria da Bloomberg. “Em 2020, a Sony não se esforçou no marketing de ‘Dreams’, uma ferramenta de criação de jogos da Media Molecule [‘LittleBigPlanet’]. Como resultado, o PlayStation pode ter perdido a chance de ter a sua própria versão do ‘Roblox’, uma ferramenta similar. A dona, Roblox Corp., abriu capital no começo deste ano e agora tem valoração de mercado na casa dos US$ 45 bilhões [R$ 254,18 bilhões, na conversão direta]”.

Neste ponto, o time reunido por Mumbauer pensou em criar uma divisão especializada em algo que a Sony pudesse aprovar com facilidade: remakes de jogos antigos para o PlayStation 5, por serem mais baratos de criar em comparação a uma propriedade intelectual totalmente nova. Inicialmente, o grupo queria refazer o primeiro ‘Uncharted’, de 2007, mas sendo ele um dos primeiros jogos do PlayStation 3, mesmo para um remake, o trabalho artístico adicional tornaria o produto muito caro, então o time mudou a estratégia para o ‘Last of Us’ original — mais ou menos na mesma época em que a própria Naughty Dog desenvolvia ‘The Last of Us 2’. O plano era oferecer ambos os títulos como um pacote.

A operação pareceu arriscada para a Sony, então a empresa teria permitido a criação do remake em uma espécie de “estado probatório”, mantendo a existência da divisão de Mumbauer em segredo dos outros times, não lhes oferecendo orçamento para mais contratações. Em 2019, apesar de tudo, a equipe completou uma parte do remake para apresentá-la à chefia — especificamente, Hermen Hulst, ex-Guerilla Games e atual líder da PlayStation Worldwide Studios — que afirmou que o projeto todo era caro demais, segundo a Bloomberg, questionando o motivo do custo ser consideravelmente maior que outros remakes. Mesmo após Mumbauer lhe explicar que o remake de “The Last of Us” seria para o PlayStation 5 — ou seja, uma engine gráfica diferente e mais avançada e, consequentemente, com mais pessoas necessárias para se trabalhar –, Hulst não se convenceu.

Imagem mostra o lider da PlayStation Worldwide Studios, Hermen Hulst, com os braços cruzados e olhando para a câmera, à frente de um fundo cinza-escuro. Matéria na Bloomberg indica que executivo da Sony contribuiu para a criação de um ambiente hostil a desenvolvedores menores dentro da empresa
Hermen Hulst, líder da PlayStation Worldwide Studios, questionou o custo de desenvolvimento de remake de “The Last of Us”, que seria repassado à Naughty Dog. Imagem: Sony/Divulgação

Eventualmente, o desenvolvimento de “The Last of Us 2” atrasou e a Naughty Dog recrutou a Visual Arts Service Group para polir o produto, atrasando o projeto do remake. Posterior ao lançamento, a Sony posicionou pessoas que trabalharam nos dois “The Last of Us”, dando-lhes controle criativo maior (e um ambiente mais hostil aos desenvolvedores “menores”), além de mover o remake para o orçamento interno da Naughty Dog. A autonomia do grupo de Mumbauer, assim, acabava de ser removida. Para a Sony, fazia todo o sentido: a Naughty Dog é o que o mercado chama de “needle mover” — um termo técnico aplicado a empresas ou pessoas cuja mera presença em um projeto lhe assegura sucesso.

Mas para um grupo de desenvolvedores que queria afirmar sua capacidade sem interferência e, quem sabe, passar a fazer criações próprias, a medida da Sony foi um golpe: ao final de 2020, a maior parte do grupo direcionado ao remake de “The Last of Us” deixou o projeto e a Sony — incluindo Mumbauer e o diretor do projeto, David Hall. Hoje, o remake segue em desenvolvimento pela Naughty Dog, com apoio da Visual Arts Service Group.

Fonte: Bloomberg