‘Returnal’ é, sem sombra de dúvidas, o primeiro jogo exclusivo para PlayStation 5 (PS5) que pode ser chamado “de grande”. O título desenvolvido pela Housemarque – mesmo estúdio de ‘Resogun’ e ‘Nex Machina’ – inicia a nova geração com gameplay intenso, terror psicológico em uma aventura de ficção científica frenética e um sistema de loop temporal que te lembra o tempo todo que o game é um roguelike pronto para testar a paciência do jogador diante dos desafios.

E justamente por se tratar de um roguelike – gênero conhecido por ser mais desafiador que o normal e voltar à estaca zero em caso de morte – que o jogo chama a atenção desde que foi anunciado, em junho do ano passado. Tal qual ‘Infamous: Second Son’, que iniciou a era do PlayStation 4 (PS4) com suas opções de decisões e finais alternativos, a Sony também decide inovar com ‘Returnal’ e seu permadeath bem encaixado no roteiro. E a única forma de chegar ao fim do game, goste ou não, é continuar tentando… e sobreviver, claro.

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O loop temporal é uma das principais características de ‘Returnal’. Imagem: Housemarque/Reprodução

‘Returnal’ tem premissa simples, mas gameplay intrigante

Diferente dos exclusivos comuns da Sony e PlayStation Studios, ‘Returnal’ não coloca o enredo à frente do gameplay, o que contribui para que o ritmo seja constante e a história – em determinado ponto – seja de fato compreendida e se desenvolva.

Sem muitos spoilers e da forma mais resumida possível, a trama do jogo foca em Selene, uma astronauta que sofre um acidente com sua nave e vai parar em um planeta totalmente desconhecido chamado Atropos, habitado por criaturas não muito amistosas e receptivas.

E logo no começo, o jogador é apresentado aos dois pontos fundamentais do título: o permadeath (morte permanente) e o loop temporal. Ouso dizer que demorei a morrer pela primeira vez, mas fui surpreendido quando ocorreu. E não há nem tempo de pensar muito: morreu, voltou ao começo do game na nave caída de Selene e com a perda de todo o progresso não permanente – incluindo armas, itens etc.

E aceite: você vai morrer muito. Mas essa é, literalmente, a proposta que o jogo quer que você e todo mundo experimente. Não há níveis de dificuldade, nem drama complexo ou excesso de cutscenes. Em ‘Returnal’, a premissa é simples de entender: sobreviva – algo você só consegue fazer jogando.

Review de 'Returnal'. Imagem: Housemarque/Reprodução
Sem save, jogador pode perder armas e itens que conquistou com Selene ao longo do jogo. Imagem: Housemarque/Reprodução

Mas calma, há esperança com um resquício de continuidade no título. Quando Selene morre, ela revive o acidente e é obrigada a explorar uma nova versão de Atropos. Ou seja, existem dezenas de variações para uma mesma área, então o que o jogo se propõe a fazer é embaralhá-las e deixar o jogador mais confuso. E para complicar ainda mais, o mapa fica maior de acordo com o progresso (e as diversas mortes) da personagem.

Como se o caos causado pelo loop temporal não bastasse, Selene também precisa lidar com misteriosas visões de seu passado, que junto aos registros de som largados pelo caminho (há um bom motivo para isso) fazem com que o jogador compreenda melhor a história da protagonista e conecte os pontos. Apesar de não chegarem a assustar, algumas cenas são perturbadoras e motivam você a continuar a busca por mais pistas a respeito do que realmente está acontecendo naquele planeta.

E sim, a personagem tem como inimigos várias criaturas alienígenas bizarras. De forma mais prática, recomendo que siga o caminho direto ao ponto, sem muitas apreciações de paisagens e passeios, visto que os seres de outro mundo não são muito práticos de derrotar. Ao todo, ‘Returnal’ possui seis biomas, cada um com um chefão (EXTREMAMENTE INSUPORTÁVEL) a ser vencido. E por favor: lembre-se de dar upgrades, pegar armas e outros itens, porque eles serão necessários para progredir no jogo.

Review de 'Returnal'. Imagem: Housemarque/Reprodução
Gráficos são magníficos em ‘Returnal’. Imagem: Housemarque/Reprodução

E falando em upgrades, o que você pode fazer ao longo do game é acumular “éter”, recurso que fica armazenado no inventário mesmo após morrer. Esse item é capaz de desbloquear funcionalidades de armas e outros acessórios permanentes, como o arpéu e a espada, para que Selene possa descobrir pontos até então inacessíveis, mesmo em áreas já visitadas – algo parecido com ‘Sonic Unleashed’ ou ‘Metroid Prime’. Mas lembre-se: ‘Returnal’ quase sempre é sacana com o jogador, então não ache que melhorar o arsenal lhe ajudará logo de cara… pense a longo prazo.

E todo o jogo, em seus diferentes cenários e biomas, fica muito atrativo no PS5. No aspecto gráfico, a nova produção da Housemarque tem todos os requisitos de chamar a atenção e ser elogiada. Seja em frente à TV ou ao monitor, os gráficos 4K dinâmicos, 60fps e ray tracing impressionam demais por exaltar a iluminação natural de forma realista, também realçando os efeitos de partículas e projéteis com luzes neon – marca registrada do estúdio.

E ‘Returnal’ usa e abusa muito do PS5 e de todas as suas funcionalidades – afinal, estamos falando do primeiro grande exclusivo do console. Assim como a imersão natural dentro do título, o feedback tátil e os gatilhos adaptáveis do controle DualSense melhoram a experiência sensorial como um todo: seja na queda da nave de Selene “tremendo” nas suas mãos ou nos barulhos exóticos de Atropos…

De pântanos ETs a florestas sombrias. ‘Returnal’ aposta em variedade de cenários. Imagem: Housemarque/Reprodução

Nos seis biomas distintos apresentados, das florestas pantanosas às ruínas de uma cidade antiga, o jogador sempre terá algo inédito para ver. O fator surpresa combinado ao loop temporal estimula o senso de descoberta e deixa todos que jogam com um gostinho de “quero mais” ou “só mais uma partida”.

E mesmo sendo extremamente complexo à primeira vista, garanto que ‘Returnal’ se descomplica a cada rodada. Conforme o gameplay é apresentado e à medida em que o jogador aprende os controles básicos (as “manhas” do jogo), o título começa a parecer mais fácil, de maneira gradual, e dá a chance ao jogador de, finalmente, continuar.

Todavia, não se esqueça de que o jogo é permadeath. E isso afeta até nos pontos de salvamento (save points), que não existem em ‘Returnal’. Inclusive, o próprio game recomenda desde o início que você coloque o PS5 em modo de repouso para que possa continuar do ponto onde parou. Caso contrário, o progresso de um mesmo ciclo será perdido e você retorna à cena da queda da nave de Selene.

E sem choro se a luz acabar ou o console desligar de alguma forma, a verdade é que não tem jeito; o que permanece mesmo são os atalhos e alguns itens que não são afetados por essa premissa. Mas sendo sincero: o objetivo aqui é uma experiência desafiadora, então por que isso seria um problema para quem quiser comprar e aproveitar o jogo?

Review de 'Returnal'. Imagem: Housemarque/Reprodução
“Chefes” de ‘Returnal’ são bem complicados. Imagem: Housemarque/Reprodução

Por conta da variedade de itens e armas encontradas ao longo do game, não é raro que haja confusão entre os equipamentos e upgrades a serem utilizados em determinados momentos. E é essa diversidade de opções que traz à tona o maior problema de ‘Returnal’: é preciso parar para ler com atenção as descrições de cada artefato antes de coletá-los, sob o risco de cometer erros que podem custar sua vida de novo e de novo…

E são muitas informações para ler sobre cada item adquirido, sem contar a fonte de texto minúscula utilizada pela Housemarque dentro do jogo (e olha que não tenho nenhum problema de visão). Em um game com ritmo menos frenético, isso não seria um problema a se expor, mas em ‘Returnal’ isso se torna um estorvo, visto que certas batalhas longas e chefões extremamente difíceis incentivam o jogador a trocar de arma e coletar itens em meio à ação. Identidades visuais e descrições mais objetivas para os artefatos com certeza seriam algo a melhorar em uma possível atualização, então fica a dica.

E atenção: certos baús e contêineres contém itens “amaldiçoados” disponíveis que, quando ativados, causam algum tipo de revés no equipamento de Selene – seja distorções no mapa ou algum problema na resistência física da personagem. Para neutralizar os efeitos negativos e voltar ao estado normal, a protagonista precisa cumprir missões específicas, algo que pode deixar o jogo um pouco maçante.

Muitas informações na tela e fonte minúscula atrapalham ‘Returnal’. Imagem: Housemarque/Reprodução

Em sua essência de gameplay, ‘Returnal’ bebe da mesma fonte que os títulos anteriores do estúdio, como ‘Resogun’ e ‘Nex Machina’, mas reúne o que há de melhor entre eles. Apesar de ser em terceira pessoa, o shooter ambientado no espaço promove uma visão ampla e privilegiada do que está ocorrendo em sua volta, mesmo dentro dos cenários mais escuros.

Mas, mesmo com a imersão total dentro do exclusivo para PS5, é sensato informar ao jogador que a sequência “pula, dash, recua” (o que significa pressionar os botões “X” e “Bolinha” várias vezes) precisará ser constantemente usada. Isso ocorre porque os habitantes de Atropos são (muito) resistentes e causam danos à Selene com facilidade, mesmo os mais básicos em fases iniciais.

O jogador não só pode como deve utilizar rochas e outros obstáculos no cenário para se proteger dos inimigos e das “tempestade de tiros”, mas a verdade é que é preciso conseguir lidar com a pressão para vencer em ‘Returnal’. Em resumo? Vai para cima! Desvie das ameaças uma por uma ao mesmo tempo que contra-ataca e abuse do DualSense. Não há segredo.

Vá para cima! Se dá bem em ‘Returnal’ quem, literalmente, se joga para cima do perigo. Imagem: Housemarque/Reprodução

Veredito: vale a pena?

Para ser sincero com vocês, não me vem à cabeça nenhum outro título à mente (exclusivo da Sony) que tenha tido tamanha ousadia. Talvez ‘Detroit’ e seu perfeito enredo e várias linhas temporais se assemelhe um pouco, mas ‘Returnal’ abrilhanta mais pelo foco maior em jogabilidade.

Porém, o grande trunfo do game pode vir a ser, também, o grande problema: o loop temporal. Claro, o fator repetitivo chama atenção e é um bom chamariz para o público tanto em narrativa quanto em gameplay, mas ao mesmo tempo as constantes decepções ao perder um grande tempo e começar tudo de novo pode chatear (e enjoar) os jogadores, fazendo com que deixem o título de lado.

Review de 'Returnal'. Imagem: Housemarque/Reprodução
‘Returnal’ conta com mais de um final. Imagem: Housemarque/Reprodução

Cabe a você definir se a experiência desafiadora proposta em ‘Returnal’ é um pró ou um contra. Seja como for, quem suportar e almejar o fim do jogo será recompensado com um gameplay fantástico e uma história cativante, combinados a todos os recursos que o PS5 pode oferecer. Combates com chefões dinâmicos e cenas de perder o fôlego são uma garantia também.

Mas é aquilo: repetição é o ponto principal do jogo. Frustrante ou inovador, a ideia contempla o primeiro grande exclusivo para PS5 e faz com que ‘Returnal’ se torne um marco duplo: da Housemarque como estúdio e de toda uma nova geração de consoles.

Disponível desde o dia 30 de abril, ‘Returnal’ está inteiro em português do Brasil, incluindo a dublagem. Confira o trailer do jogo abaixo:

* Para a realização desta análise, a Sony Interactive Entertainment concedeu uma cópia do jogo ao Olhar Digital.

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