Mais uma vez, fornecedores da Apple e outras empresas de tecnologia estão sob acusação de utilizarem trabalho forçado na confecção de componentes para seus clientes. A informação vem por meio de reportagem do The Information, que entrevistou diretores de organizações de combate ao trabalho escravo.

Segundo as entidades, empresas como a Advanced-Connectek se valem de programas sociais do governo chinês para criar condições subumanas de trabalho para a população uigur, uma minoria turcomena que habita a região autônoma de Xinjiang, no noroeste do país – e que tem uma boa parcela de seus representantes como seguidores da religião muçulmana.

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Imagem mostra dois idosos da etnia uigure, uma minoria do noroeste chinês predominantemente muçulmana e alvo de inúmeros preconceitos na sociedade. Fornecedores da Apple vêm usando o grupo para trabalho forçado
Dois idosos uigures, representantes de uma minoria chinesa de origem turcomena e que constantemente é alvo de preconceito dentro do país asiático. Imagem: Sirio Carnevalino/Shutterstock

Pelo trecho publicado no The Information, a Advanced-Connectek vem trabalhando na criação de componentes para a Apple nos últimos 20 anos, mas atendendo também, neste meio tempo, empresas como Amazon, Google, Microsoft e Facebook. Uma de suas fábricas funciona nos arredores da linha do deserto de Xinjiang, com uma estrutura rodeada por muros altos e cercas, da qual se tem apenas uma via de entrada e de saída.

Ao lado dessa estrutura, segundo imagens de satélite, foi identificado uma espécie de “centro de detenção” onde os operários uigures dormem. Segundo o pesquisador social Nathan Ruser, “praticamente nenhuma outra fábrica em Xinjiang” tem essa características, salvo por complexos onde a força de trabalho é constituída de detentos.

“Essas novas evidências demonstram com mais profundidade como a cadeia de fornecimento da Apple é diretamente implicada no constante abuso de direitos humanos contra minorias étnicas como os uigures de Xinjiang”, disse Katie Paul, diretora do projeto Tech Transparency, que incentiva a transparência de informações vindas de empresas de tecnologia.

As evidências mencionadas vêm de imagens divulgadas pelo próprio governo chinês, liberadas ao público no intuito de, ironicamente, tentar criar uma imagem populista de auxílio aos mais necessitados. De acordo com as autoridades, tudo é apenas uma tentativa de criar novas opções de trabalho para cidadãos em áreas mais pobres, mas estudiosos não fazem eco a esta percepção. Segundo eles, não há direito de escolha para os trabalhadores: 

“Todo programa de recrutamento de trabalho patrocinado pelo Estado [chinês] deve ser entendido como uma tarefa obrigatória já que nenhuma minoria tem o poder de recusar participação neles”, disse Laura Murphy, professora de direitos humanos e escravidão contemporâneana Universidade de Sheffield Halam. A especialista explica que uigures e outras minorias que recusarem suas participações são imediatamente presos.

A Apple comentou o caso, dizendo que constantemente busca por evidências de más práticas entre seus fornecedores, mas que não encontrou nada até hoje. Segundo diversos grupos de direitos humanos, isso acontece porque a empresa de Cupertino depende demais de entrevistas com os funcionários, que não podem falar livremente nem conceder depoimentos sem supervisão. Normalmente, quando a Apple descobre – ou é implicada – em algum caso do tipo, ela prefere não comentar nada publicamente, silenciosamente cortando laços com as empresas mencionadas.

Vale lembrar que, em dezembro de 2020, a Apple passou por outra situação simular de trabalho forçado, quando viu a Lens Technology, que fornece os displays sensíveis ao toque dos iPhones e iPads, também colocar os mesmos uigures em condições insalubres. Na época, não só a minoria era a mesma, mas a mesma Katie Paul mencionada acima também foi entrevistada pela mídia.

“A nossa pesquisa mostra que o uso de trabalho escravo pela Apple em sua cadeia de fornecedores vai muito além do que a empresa reconhece”, disse Paul na ocasião. “A Apple diz tomar medidas extraordinárias para monitorar seus fornecedores para tais problemas, mas as evidências que encontramos estavam amplamente disponíveis na internet”.

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