Se existe uma realidade que o brasileiro conhece bem é a da “jornada do empregado”. Acordar cedo, “trampar”, comer “o pão que o diabo amassou”, voltar ao trabalho, ter certo resquício de vida social – como um relacionamento, por exemplo -, fazer um bico ali e acolá para “garantir um extra” e, enfim, chegar ao lar para descansar, seja sozinho ou acompanhado. Em pleno “Mês do Orgulho LGBTQIA+“, o Amazon Prime Video estreia a primeira temporada de ‘Manhãs de Setembro‘ e, apesar da trama abordar e ter como destaque uma mulher transexual, a série tem como foco explorar duas coisas que todo residente do País tem em comum: o “corre” do dia a dia e a luta por um espaço na sociedade.

A produção de Andrea Barata Ribeiro Bel Berlinck da O2 Filmes, empresa fundada por Fernando Meirelles (‘Cidade de Deus’, ‘Dois Papas’) traz um enredo repleto de cenas duras que mostram a axioma cotidiana de uma grande maioria dos brasileiros. Seja os bicos, a falta de emprego, as longas filas para conseguir um trampo, ou mesmo a realização de ver que o filho tirou boas notas na escola e estar no lugar que chama de “lar”, a proposta dos diretores Luis Pinheiro e Dainara Toffoli é clara: fazer com que quem esteja assistindo se identifique com o que é retratado, utilizando a paisagem do centro paulistano para cinco episódios muito bem interligados e coesos – tendo começo, meio, fim e ponta para continuação bem definidos e propostos.

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Crítica: 'Manhãs de Setembro' acerta ao abordar desigualdade no Brasil e solidão da mulher trans. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação
Cantora, Liniker estreia em frente às câmeras no papel de Cassandra. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Com a cidade de São Paulo como palco e a realidade rotineira já conhecida como forma de representar a praticamente todos, ‘Manhãs de Setembro’ ainda acrescenta na premissa o quão difícil seria viver na pele de uma mulher trans. Baseada na ideia original do jornalista Miguel de Almeida, do O Globo, a trama conta a trajetória de Cassandra, que precisou abandonar a cidade natal para ir em busca do sonho de cantar. Aos poucos, a sua vida parece entrar nos eixos. Ela consegue alugar um apartamento próprio pela primeira vez, tem um namorado que a ama, Ivaldo (Thomás Aquino), um trabalho como motogirl e também está conseguindo realizar seu sonho de ser uma artista cover de Vanusa, famosa cantora dos anos 70. De repente, um rumo inesperado: Leide (Karine Teles), com quem teve um envolvimento no passado, aparece com Gersinho (Gustavo Coelho), que ela afirma ser filho da personagem interpretada por Liniker.

Aliás, a cantora e compositora faz sua estreia em frente às câmeras justamente em uma superprodução nacional de streaming. E apesar de pecar ao se segurar demais quando o momento pede raiva, angústia ou alguma “explosão de sentimentos”, Liniker atua bem e passa verdade no que fala. É notável o quão a artista parece ter se inspirado na própria história de vida para moldar Cassandra na série, tanto para disfarçar e “engolir” os comentários alheios travestidos de preconceito ou mesmo em situações rotineiras que se tornam ainda mais difíceis para alguém com gênero diferente daquele que lhe foi atribuído em consonância com o sexo biológico.

E mesmo que Cassandra passe a série toda almejando objetivos comuns, como trabalhar, namorar, ter uma vida social e – algo importante para toda a trama – chegar em sua quitinete, o roteiro não tem medo de abordar as dificuldades em torno da solidão social da mulher trans. Afinal, a protagonista estrela os cinco episódios mostrando ao espectador que, de fato, as coisas mais básicas são mais complicadas para ela – desde levar o filho à escola ou até ter um relacionamento sério. Mostrar que a personagem tem os mesmos problemas que todos, mas – de uma forma natural – acrescidos do preconceito por ser travesti, preta e pobre choca positivamente em ‘Manhãs de Setembro’ e exibe uma desigualdade específica no Brasil que ocorre, inclusive, entre os menos afortunados.

Crítica: 'Manhãs de Setembro' acerta ao abordar desigualdade no Brasil e solidão da mulher trans. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação
Gustavo Coelho como Gersinho rouba a cena sempre que pode em ‘Manhãs de Setembro’. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Já Gustavo Coelho como Gersinho é simplesmente a alma e o chamariz da série. O personagem, que é apresentado como filho da protagonista, rouba a cena sempre que pode e sabe passar emoção quando necessário, ainda mais por mostrar aquele “brilho nos olhos” de uma criança que quer apenas conhecer o pai, mas não entende a real situação. O ator mirim alterna entre um carisma tímido e fofo, mas tem como destaque a inocência: ele não vê problema em ter Cassandra como pai e só quer poder ter alguém para atribuir o título.

O desenvolvimento de Gersinho, aliás, é bem construído pela direção ao longo dos cinco episódios. Ele e “o pai” tem um relacionamento misto que varia entre o cômico e o dramático, algo bem similar mostrado por Bruce Willis e Spencer Breslin em ‘Duas Vidas’ (2000), de Jon Turteltaub. Em nenhum momento Gersinho mostra qualquer tipo de preconceito e apenas quer entender o porquê de Cassandra não querer fazer parte da família, fator que faz com que Gustavo e Liniker protagonizem as cenas mais impactantes de ‘Manhãs de Setembro’. Afinal, que mãe não tem o coração quebrantado ao ouvir dos filhos que é “bonita”?

Relacionamento entre Ivaldo e Cassandra é bem retratado aí estilo “do céu ao inferno”. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Outro relacionamento de destaque é o da protagonista com Ivaldo (Thomás Aquino), seu namorado. É praticamente impossível abordar o fator sem dar spoilers sobre a trama da série, mas vale a pena elogiar o pernambucano no papel coadjuvante. Tal qual como Pacote em ‘Bacurau’ (2019), de Kleber Mendonça Filho, o ator de 35 anos não tem medo de arriscar expor certos sentimentos em cenas mais ousadas e é responsável por ser o personagem que leva Cassandra “do céu ao inferno” – ou seja, dos momentos mais felizes ao retorno para a árdua realidade preconceituosa por ser mulher trans.

Também vinda diretamente do elenco de ‘Bacurau’, há Karine Teles. Diferente do personagem de Aquino, ela faz justamente o contrário na série. Desde o primeiro episódio, a mãe biológica de Gersinho se mostra alguém repulsiva, que faria de tudo para se livrar das situações do infeliz cotidiano para tentar se dar bem, de alguma forma. No entanto, tal qual como praticamente todos os personagens, há um acerto no desenvolvimento da personagem – ouso dizer, inclusive, que foi até a melhor no quesito. Leide ama o filho, mas não sabe como ser uma boa mãe e sair da realidade que está inserida e, como qualquer outro ser humano, erra. O excelente trabalho da atriz com a personagem tem como ápice o último episódio, em uma cena carregada de emoção em que pede desculpas e justifica o que fez tanto a Gersinho quanto ao público.

Crítica: 'Manhãs de Setembro' acerta ao abordar desigualdade no Brasil e solidão da mulher trans. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação
Karina Teles, Gustavo Coelho e Liniker em cena. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Mais como participações especiais do que atores coadjuvantes, Gero Camilo e o ex-vocalista dos Titãs Paulo Miklos são “as cerejas do bolo” que complementam a série repleta de atuações fortes e presentes. Ao fazerem um adorável casal que ajuda Cassandra como pode, eles são responsáveis por ajudarem na desconstrução de Gersinho, quebrando um estereótipo que a criança nunca mostra, mas que possivelmente poderia criar.

Outra cameo (aparição pequena) é a de Linn da Quebrada. A cantora aparece brevemente como amiga da protagonista e, junto à atriz Clodd Dias, faz parte de uma representatividade pouco vistas em filmes ou séries: a de transexuais em destaque. Reitero que a produção não faz isso de modo que possa ser considerado forçado pelos espectadores, mas sim de forma natural, com o objetivo de mostrar o dia a dia dessas mulheres.

E junto à bela fotografia de São Paulo (com mixagem de som e cortes precisos na edição, diga-se de passagem) e boas atuações, ‘Manhãs de Setembro’ também traz uma trilha sonora com canções icônicas de ninguém menos que Vanusa – que referência um dos maiores no nome da produção. A cantora, que mescla na discografia MPB com rock psicodélico e veio a falecem no fim de 2020, conversa com Cassandra durante toda a série por pensamento, a encorajando em ser mais independente e a seguir em frente em meio a todos os problemas. Músicas como ‘Paralelas’ e ‘Como Vai Você’ encaixam bem na história de cada episódio e serve mais como homenagem à artista do que uma tentativa de deixar o público nostálgico. De qualquer forma, fãs vão gostar…

‘Manhãs de Setembro” tem hits de Vanusa como trilha sonora. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

‘Manhãs de Setembro’ é uma série que vale a pena assistir

Mais do que uma obra audiovisual para o “Mês do Orgulho LGBTQIA+”, ‘Manhãs de Setembro’ é uma história necessária para, bem, todos. Com boas atuações endossadas por fotografia e trilha sonora chamativas, a trama protagonizada por Cassandra e seu filho Gersinho merece ser vista por todos, não somente pela premissa que chama a atenção logo de cara, porém por ser uma superprodução nacional de streaming – tal qual ‘DOM‘ – que visam mostrar de forma não superficial realidades que pouco chegam (ou pouco são buscadas) pelo público brasileiro.

A produção conta com ritmo tranquilo e, ao fim, deixa uma ponta coesa e clara para uma vindoura segunda temporada – que espero que aconteça. Por esse fator, os cinco episódio de aproximadamente 30 minutos cada talvez fossem melhor adaptados em um filme de 2h30 do que em uma série, mas isso não afeta em nada o bom trabalho realizado pelo Amazon Prime que traz uma história inclusiva e didática sobre o dia a dia do brasileiro.

Crítica: 'Manhãs de Setembro' acerta ao abordar desigualdade no Brasil e solidão da mulher trans. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação
Mais que uma história para o mês do Orgulho, ‘Manhãs de Setembro’ é uma lição a todos os brasileiros. Imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Quer assistir a série? Produção do estúdio O2 Filmes, e dirigida por Luis Pinheiro e Dainara Toffoli, os cinco episódios de ‘Manhãs de Setembro’ chegam ao Brasil e em mais de 200 países pelo Amazon Prime Video no dia 25 de junho. Confira, abaixo, o trailer e mais detalhes com a sinopse oficial:

A sinopse oficial revelada pela Amazon diz: Manhãs de Setembro conta a trajetória de Cassandra, que começa a ver as coisas finalmente dando certo em sua vida, ela consegue alugar um apartamento próprio pela primeira vez, tem um namorado que a ama, Ivaldo (Thomás Aquino), além de um trabalho como motogirl no centro de São Paulo. Ela também está conseguindo realizar seu sonho de ser uma artista cover de Vanusa, famosa cantora dos anos 70, quando sua vida toma um rumo inesperado: Leide (Karine Teles), com quem ela teve um envolvimento no passado, aparece com Gersinho (Gustavo Coelho), que ela afirma ser filho de Cassandra”.

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