Fontes hidrotermais no fundo do mar, o topo do Monte Everest e até mesmo o casco da Estação Espacial Internacional: estes são exemplos de ambientes adversos nos quais foram encontradas células microbianas. Contudo, segundo um estudo feito pelo ecologista microbiano Noah Fierer e publicado no June Journal of Geophysical Research: Biogeosciences, não foram encontrados micróbios nas 204 amostras de solo coletadas em um local próximo da geleira Shackleton, na Antártida.

De acordo com Fierer, esta é a primeira vez que cientistas encontram solos que parecem não suportar qualquer tipo de vida microbiana. Sendo que, na geleira Shackleton, o ar é extremamente frio e árido.

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A questão levantada após a divulgação da pesquisa é: como resultados científicos devem ser interpretados, especialmente na busca por vida em outros planetas, como é a tarefa do rover Perseverance em Marte? “O desafio volta a esse tipo de [questão] filosófica. Como você prova uma negativa?”, indagou o ecologista microbiano.

Local perto da geleira Shakelton, na Antártida, onde foram coletadas as amostras
Local perto da geleira Shackleton, na Antártida, onde foram coletadas as amostras. Créditos: Noah Fierer

O resultado do estudo foi questionado pelo microbiologista polar Jeff Bowman. “Certamente, havia coisas lá. Esta é a Terra. Este é um ambiente maciçamente contaminado com vida”, afirmou ele, que trabalha no Scripps Institution of Oceanography, em La Jolla, na Califórnia, Estados Unidos.

Noah Fierer, que é professor titular do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade do Colorado em Boulder, esperou anos de experimentos baseados em vários métodos independentes para, junto com seu colaborador Nick Dragone, publicar a pesquisa que aponta que condições extremamente frias e áridas podem colocar um limite rígido na habitabilidade microbiana.

“Não podemos dizer que os solos são estéreis. Ninguém pode dizer isso. Essa é uma busca sem fim. Sempre há outro método ou uma variante de um método que você pode tentar”, ressaltou Noah Fierer.

Noah Fierer
Noah Fierer na geleira Shackleton. Créditos: Noah Fierer

“Mesmo que houvesse alguns micróbios não detectados no solo, isso não prejudicaria as evidências de que o frio e a aridez representam um sério desafio à vida. É a combinação de várias condições ambientais muito desafiadoras que restringem a vida mais do que apenas uma agindo por si mesma. É um tipo de restrição muito diferente do que, digamos, apenas alta temperatura”, explicou Dragone, que é um ecologista microbiano especializado no uso de técnicas de sequenciamento genético para estudar a ecologia das comunidades microbianas.

“O que estamos tentando fazer em Marte é o oposto do que tentamos fazer na Terra. No nosso planeta, dizer que um ambiente não tem vida é uma afirmação científica difícil. Em Marte, será o contrário”, pontuou o microbiologista polar Lyle Whyte, da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá.

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A busca de vida nos mundos oceânicos do Sistema Solar

Amanda Gonçalves Bendia, graduada em Ciências Biológicas pela Universidade do Vale do Itajaí, Mestre em Biofísica pela UFRJ, Doutora em Microbiologia pela USP e pós-doutoranda no Instituto Oceanográfico da USP, publicou um artigo no Olhar Digital explicando a busca de vida nos mundos oceânicos do Sistema Solar.

Em cavernas profundas de Minas Gerais, nas profundezas do Oceano Atlântico, nas geleiras da Antártida e na caldeira de um vulcão ativo na Península Antártica, ela procura por micro-organismos capazes de se adaptar aos ambientes extremos do nosso planeta. Estudando a vida nestes ambientes aqui na Terra, Amanda reúne as pistas para o tipo de vida que podemos encontrar nos Mundos Oceânicos do Sistema Solar.

Leia o artigo da microbióloga na íntegra. Assista também ao programa Olhar Espacial que contou com a presença de Amanda Gonçalves Bendia.

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