Quando falamos de filmes de terror, é comum associarmos as produções a determinadas décadas. Os anos 30, por exemplo, foram marcados por clássicos da Universal, como ‘Drácula‘ (1931), ‘Frankenstein’ (1931) ou ‘O Homem Invisível’ (1933). A década de 60, por outro lado, tem preciosidades como ‘A Noite dos Mortos-Vivos’ (1968) e ‘O Bebê de Rosemary‘ (1968). Mas quando pensamos no terror dos anos 90, a tarefa de selecionar clássicos do gênero pode ser mais complicada.

Claro que existem ótimas produções no período e que certamente merecem lugar de destaque na história do cinema. Como não citar ‘Fome Animal‘ (1992), ‘Pânico‘ (1996) ou ‘A Bruxa de Blair‘ (1999)? Porém, esses e outros bons títulos podem se enquadrar mais como exceções do que a regra nessa década.

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Imagem em preto e branco mostra idosa segurando livro contra o peito.
Falso documentário custou cerca de US$ 60 mil e faturou US$ 248 milhões. Crédito: Artisan Entertainment /Divulgação

Talvez o que faça a régua pender para baixo nos anos 1990 seja justamente a boa safra do horror oitentista, com ‘Sexta-feira 13‘ (1981), ‘A Hora do Pesadelo‘ (1984), ‘A Mosca‘ (1986) ou ‘Evil Dead‘ (1981), para citar alguns poucos.

É possível dizer que havia certa saturação do gênero, dada a intensa produção da década anterior e sua permanência nos anos seguintes em continuações de baixa qualidade (alguém lembra de ‘Sexta-feira 13: parte 9’?).

Mais psicológico, menos visceral

Um outro fator pode ter contribuído para o arrefecimento do gênero: o crescimento da popularidade do chamado horror psicológico. Este filão esteve em alta enquanto o terror propriamente dito ficou em segundo plano. ‘O Silêncio dos Inocentes‘ (1991), ‘Louca Obsessão‘ (1990) e ‘O Sexto Sentido‘ (1999) são alguns dos exemplos mais populares.

Também não dá para ignorar outro segmento que ganhou força nesse período – principalmente no fim da década -, o terror adolescente. Menos visceral do que os slashers oitentistas, esses subgênero esteve representado em produções como ‘Jovens Bruxas‘ (1996), ‘Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado‘ (1997) e ‘Comportamento Suspeito‘ (1998).

Franquia de terror ‘Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado’ vai retornar como série da Amazon em 2021. Crédito: Columbia Pictures/Divulgação

Mais amenos na violência e trazendo também elementos do terror psicológico misturados às angústias dos jovens adultos, essa parcela de filmes não raro se mostravam um meio-termo entre ‘Dawson’s Creek’ e ‘Halloween’. Aliás, até mesmo a franquia assombrada por Michael Myers se rendeu um pouco ao formato em ‘Halloween H20’, que bebeu na fonte do terror adolescente para se revitalizar.

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Os piores dos anos 1990

Para não ficarmos no lugar-comum de falar sobre os consagrados filmes de terror da década, listamos três das mais irregulares produções do período. Confira:

‘Brinquedo Assassino 2’ (1990)

Sucesso do inesperado do primeiro filme levou a uma continuação. Isso não seria um problema se ‘Brinquedo Assassino 2’ não revivesse de forma estapafúrdia o boneco Chucky, que morreu carbonizado no longa anterior. Em prol da existência da sequência, também é ignorado o fato de o espírito do assassino Charles Lee Ray, que habita o boneco, não poderia mais buscar um corpo e deveria estar definitivamente aprisionado no brinquedo. Ainda bem que depois a franquia abraça o ridículo e toma outros rumos em filmes futuros.

O Predador 2: a Caçada Continua‘ (1990)

Depois de uma uma uma ótima estreia, ‘Predador’ ganhou uma sequência bem aquém do original. Infelizmente, foi um prenúncio do que a franquia enfrentaria mais adiante, com produções bastante irregulares. Aqui temos o policial Mike Harrigan (Danny Glover) que, no enfrentamento a quadrilhas, percebe que os criminosos estão sendo assassinados por uma criatura alienígena. Salvo por algumas poucas cenas de ação interessantes, é totalmente dispensável.

‘Mangler: o Grito do Terror’ (1995)

Máquina de passar roupa assassina é o grande vilão de ‘Mangler’, inspirado em texto de Stephen King. Crédito: Filmex/Divulgação

Baseado em um conto de Stephen King e dirigido por Tobe Hooper, dos clássicos ‘O Massacre da Serra Elétrica’ e ‘Poltergeist: o Fenômeno’. Com essas credenciais as expectativas podem ficar elevadas, mas o baque é grande. A premissa: uma máquina de passar roupa é possuída por espíritos malignos e faz vítimas em uma lavanderia.

As boas exceções

Se você gosta de terror e acompanhou as produções dos anos 90, muito provavelmente já viu hits como ‘A Bruxa de Blair’ ou ‘Pânico’. Então, separamos alguns outros títulos menos lembrados da época, mas igualmente marcantes e que merecem sua atenção.

‘À Beira da Loucura‘ (1994)

Sam Neill é o protagonista de ‘À Beira da Loucura’, de John Carpenter. Crédito: New Line Cinema/Divulgação

Um pouco subestimado e um tanto desconhecido, ‘À Beira da Loucura’ figura entre um dos mais interessantes trabalhos de John Carpenter. A história é conduzida a partir do investigador John Trent (Sam Neill), contratado para procurar um escritor de livros de terror que desapareceu após terminar sua última obra. Em busca de pistas, o detetive passa a ler os livros do autor e percebe que a leitura tem efeitos perturbadores.

Morte ao Vivo’ (1996)

Filme é o primeiro longa-metragem de Alejandro Amenábar, diretor de ‘Os Outros’. Crédito: Mubi/Divulgação

Clássico cult, ‘Morte ao Vivo’ é o primeiro longa-metragem de Alejandro Amenábar, que anos depois ficaria mais conhecido pelo sucesso ‘Os Outros’, estrelado por Nicole Kidman. Essa estreia é um thriller que tem como protagonista Angela (Ana Torrent), uma estudante de cinema que prepara uma tese sobre a violência no cinema e na TV. Nesse processo, ela acaba tomando conhecimento de uma rede de criminosos que assassina mulheres diante de câmaras de vídeo e comercializa esses filmes.

‘O Mistério de Candyman’ (1992)

Prestes a ganhar uma releitura nos cinemas produzida por Jordan Peele (‘Nós’), ‘O Mistério de Candyman’ é inspirado em um conto de Clive Barker e se utiliza do horror para construir uma história com que aborda questões sociais e raciais. Dirigido por Bernard Rose (‘A Casa dos Sonhos’), o filme acompanha a pesquisadora Helen Lyle (Virginia Mardsen), que estuda lendas urbanas e entra em contato com o mito de Candyman, um assassino que surge ao ter seu nome invocado cinco vezes.