Adaptar qualquer obra para as telonas já é uma tarefa difícil por si só, porém quando games entram em cena, é um cenário ainda mais difuso. Salvo os ótimos ‘Sonic: O Filme‘ e ‘Detetive Pikachu’ – este último, curiosamente, também estrelado por Ryan Reynolds -, é difícil citar um filme ou série baseado em jogos que, bem, deram certo. Felizmente, isso não acontece com ‘Free Guy: Assumindo o Controle’. Não só por conta do carisma acima da média do protagonista ou pelas referências acertadas e sem exagero algum em relação ao meio multiplayer on-line, mas sim pela entrega de um roteiro coeso capaz de trazer uma história dos dias atuais com aspectos morais cotidianos: a rotina, o amor, os perigos da tecnologia e, acima de tudo, a importância de persistir e correr atrás de seus sonhos.

A competência de Shawn Levy na direção é vista, obviamente, nas referências e easter eggs – reitero, sem exagero e sim “na medida” para arrancar boas gargalhadas sem soar repetitivo. Desde o começo da produção é possível observar que a mente por trás de ‘Stranger Things‘ teve carta branca da 20th Century Fox (*cough*, Disney, *cough*) para explorar o que há de melhor no mundo gamer atual e aliar a elementos da cultura pop e à atuação de Reynolds. Veja, ‘Free Guy’ tem como base a famosa e famigerada “jornada do herói”, todavia soa como uma “gameplay nos cinemas” pela forma tão bem explorada na construção de um jogo – começo, meio e fim que fazem o público se adequar e aproveitar o enredo. Palmas também para o roteiro de Matt Lieberman e Zak Penn por deixar tudo “amarradinho”.

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Ryan Reynolds é um NPC que “ganha vida” em ‘Free Guy’. Imagem: 20th Century Studios/Divulgação

E, claro, além de quem está asstindo ao filme, quem se diverte um bocado com todo o trabalho feito é Reynolds, que interpreta um personagem não-jogável (NPC) que, de repente, tem a chance de virar o protagonista da própria vida (mesmo que dentro de umgame on-line). Em 115 minutos, o ator prova que é mais versátil do que apenas Deadpool e traz o melhor do que ele já fez em toda a carreira: ação, romance e muita comédia. O protagonista, Guy, tem um ótimo desenvolvimento ao equilibrar inocência e agradabilidade, seja com o personagem tentando entender o que é uma skin ou nas interações apaixonantes com Jodie Comer. Sério, eu não via um papel tão gostoso de assistir feito por ele nesse sentido desde ‘A Proposta’ (com Sandra Bullock) ou ‘Três Vezes Amor’ (com Isla Fisher).

Falando na atriz premiada por ‘Killing Eve’, é um “diferente legal” ver ela saindo de uma pegada mais dramática e aderindo a uma personagem mais piegas, porém bem construída e dinâmica. A “MolotovGirl” dentro do jogo e a desenvolvedora Millie na “vida real” faz boa parceria com Reynolds e conquista com simpatia tanto Guy quanto o público. Joe Keery é competente como o amigo da personagem, Walter “Keys”, contudo parece muito o mesmo personagem que faz em ‘Stranger Things’, Steve – o que torna a atuação dele bacana, mas esquecível. Taika Waiti encontra no exagero melodramático a fórmula para um vilão não tão ameaçador quanto ele imagina ser, mas que cumpre o papel da melhor e mais divertida forma. Destaque também para Lil Rel Howery, que não para de atuar desde ‘Corra’ (2017) e sempre consegue trazer um alívio cômico eficaz – mesmo que o filme já seja uma comédia.

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Jodie Comer e Ryan Reynolds em cena de ‘Free Guy’. Imagem: 20th Century Studios/Divulgação

História mescla o que há de melhor no meio gamer, mas é para todos os públicos

O maior acerto da produção é o fato de não ser baseada em uma trama já vista em jogos e sim ser quase um game dentro da tela de cinema. A história possui vários easter eggs de títulos famosos de videogames, presença de streamers famosos como Ninja, Jacksepticeye, DanTDM, Lazarbeam e Pokimane e uma gigante metalinguagem em parece que estamos dentro de Free City ajudando Guy durante as missões. Porém, calma: não é só porque ‘Free Guy’ é um longa repleto de referências ao meio gamer que não seja um “filme para todos”, pois, de fato, é.

Afinal, o “Cara da Camisa Azul” é uma grande metáfora da maior parte da vida das pessoas no mundo real – presas a um cotidiano muitas vezes tedioso, monótono e sem se perguntar o que existe mais para si. Como um NPC, ele é programado para repetir sempre as mesmas coisas: acordar, dar bom dia para seu peixinho dourado, comprar café com leite e açúcar na cafeteria onde encontra sempre as mesmas pessoas, e ir ao trabalho no banco com seu amigo Buddy (Lil Rel Howery), onde eles são assaltados pelo menos duas vezes ao dia. Você não precisa ser um gamer para se sentir um personagem não-jogável e se identificar logo de cara com Guy.

Guy é um personagem de videogame que todos poderão se identificar. Imagem: 20th Century Studios/Divulgação

E tal identificação leva a um momento engraçado para os jogadores mais experientes, porém metafórico a todos: a revolução dos NPCs. Sem spoilers, claro, mas a libertação e “criação de consciência” vinda de Guy e de outros personagens em certo ponto do filme (afinal, o nome do longa é ‘Free Guy’) é um ponto-chave sobre humanidade e civilidade que merece ser abordado com enfâse. Afinal, Eça de Queiroz já dizia “que civilização é um sentimento, não uma construção”. Então, Levy e os roteiristas trabalham de forma bem dinâmica ao longo da produção a ideia de que a própria criação do ser humano é mais humana do que o ser em carne e osso.

À essa altura, você provavelmente quer saber como Guy “quebra” a própria programação. Felizmente, o roteiro escrito por Lieberman e Penn alinha de forma interessante a premissa de tecnologia criando vida – mesmo com os argumentos para a explosão de capacidade do personagem sejam levemente forçados (sério, ele se torna quase um ‘Ex Machina’ em certos momento. De qualquer forma ‘Free Guy’ traz à tona o debate sobre direitos de inteligências artificiais e o quão real é a vida de um ser digital, ao mesmo tempo que explora relacionamentos com humanos.

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NPCs, inteligência artificial e “tecnologia viva” são destaques em ‘Free Guy’. Imagem: 20th Century Studios/Divulgação

‘Free Guy’ é o melhor filme de videogame já feito?

“Não tenha um bom dia. Tenha um ótimo dia” é a frase de impacto do protagonista interpretado por Reynolds e algo que define ‘Free Guy: Assumindo o Controle’. Em Free City, o público irá se divertir e sorrir do início ao fim com uma trama emocionante e repleta de cenas coloridas, efeitos especiais e músicas animadas, tal qual um bom jogo de videogame.

Por fim, é interessante analisar como Levy, Reynolds e toda a produção trouxeram os elementos gamers para o cinema com carinho, observando até os mínimos detalhes como compra de itens, skins extravagantes e “a queda do servidor”. O esforço da equipe em entender o meio aqui representado já seria algo digno de aplausos, porém a produção triunfa no fato de não adaptar um game em si, mas a experiência de jogar – algo simples, curioso e, pasmem, inovador se levado em conta os blockbusters hollywoodianos com base em jogos.

É como se ‘Free Guy’ tivesse passado por várias fases – adiamentos por conta da pandemia de covid-19, compra da Fox pela Disney e etc. – para, enfim, chegar na fase final em que quem estiver assistindo terá prazer em “zerar” o melhor filme de videogame já feito…

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‘Free Guy’ é o melhor filme de videogame já feito. Imagem: 20th Century Studios/Divulgação

Quer assistir ao filme? Saiba que ‘Free Guy: Assumindo o Controle‘, estrelado por Ryan Reynolds, estreia no dia 19 de agosto. O elenco também conta com Jodie Comer, Lil Rel Howery, Joe Keery, Channing Tatum e Taika Waititi. Confira abaixo mais detalhes da produção do 20th Century Studios com trailer e sinopse oficial:

“Em ‘Free Guy: Assumindo o Controle’, um caixa de banco preso a uma entediante rotina tem sua vida virada de cabeça para baixo quando ele descobre que é personagem em um brutalmente realista vídeo game de mundo aberto. Agora ele precisa aceitar sua realidade e lidar com o fato de que é o único que pode salvar o mundo.”

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