O governo da China anunciou o objetivo de construir uma estação espacial com o objetivo de capturar e retransmitir energia solar até 2030, como parte da meta de zerar a emissão de carbono do país até 2060. O projeto deve aproveitar um parque de células fotovoltaicas cuja construção começou em meados de 2018, eventualmente paralisada em meio a debates sobre seu custo, e retomada em junho deste ano.

A China é constantemente criticada pelo seu alto volume de poluição, advindo de uma enorme estrutura de fábricas e indústria pesada que permeia o país — diversas empresas do ramo tecnológico empregam mão de obra fabril chinesa na montagem de seus eletrônicos, o que, apesar de medidas de filtragem e redução de emissões implementadas nos últimos anos, ainda faz com que o país seja um dos mais poluentes do mundo — em média, produzindo 38,84 microgramas de partículas nocivas por metro cúbico de ar, segundo o Statista.

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Imagem ilustra mostra engenheiros da China interagindo com uma estação de energia solar
Projeto ambicioso da China quer estação de captura de energia solar no espaço, para transmissão direta à centro de distribuição na Terra, mas há alguns percalços a serem superados. Imagem: Jenson/Shutterstock

O projeto busca posicionar uma estação orbital de 1 megawatt (MW) de capacidade até 2030, para que ela faça a captura dos raios solares e redistribua a energia obtida para a estação solar terrestre em seguida. A segunda parte desse processo — a estação — deve ter sua construção finalizada até o fim deste ano.

Com o conjunto inteiro em pleno funcionamento, o objetivo é o de que, até 2049 — ano que comemora um século da fundação do país —, ele já consiga produzir um 1 gigawatt (GW). Hoje, a China tem esse mesmo volume de energia advindo de seu principal reator nuclear, uma fonte que embora mais limpa aque as usinas a carvão, ainda gera lixo radioativo.

A ideia da China de usar uma estação espacial para a captura da energia solar é uma que remete aos filmes de ficção científica, mas ela traz um fundamento válido: estações terrestres só funcionam durante o dia. E mesmo isso ainda depender de clima favorável.

No caso da China, a poluição que suja o céu e clima frio ou chuvoso pode até interromper o processo energético. Com uma estação orbital, esse problema é resolvido, já que não há nada impedindio o sol de incidir sobre as células fotovoltaicas.

O principal obstáculo é comprovar que a transmissão dessa energia do espaço para a Terra funcionaria de forma plena com uma tecnologia sem fios. O conceito existe há décadas — originalmente proposto por Nikola Tesla —, porém até hoje sua aplicação é limitada a curtas distâncias de transmissão.

Os engenheiros chineses querem minimizar esse problema por meio de sistemas de concentração de distribuição. Onde Tesla errou foi ao permitir a dispersão da energia capturada em várias direções, enquanto a China quer direcionar isso a um ponto específico. Atualmente, o país teve sucesso em experimentos envolvendo balões a 300 metros (m) de altura. Ao fim do ano, eles querem ampliar isso para 20 quilômetros (km), com uma aeronave coletando raios solares da estratosfera, muito acima das nuves e da poluição

Outro problema é a radiação de microondas gerada pelo “feixe” de energia: segundo um estudo conduzido pela Universidade Beijing Jiaotong, a única forma de mitigar esse risco é assegurando que ninguém possa morar a distâncias inferiores a 5 km das estações terrestres de captura. Estimativas indicam que isso pode exigir um forte trabalho de rezoneamento por parte do governo. Mas os percalços não param por aí, já que mesmo trens a 10 km de distância podem passar por problemas como perda de comunicação.

Segundo o professor Ge Changchun, da Academia Chinesa de Ciências, o projeto recebeu amplo apoio do setor energético: “a maior parte das novas fontes de energia, como a eólica e a solar, não são estáveis. E outras opções, como a fusão nuclear, ainda são tecnologicamente incertas. Assim, um sistema de energia solar no espaço pode ser representar uma grande escolha estratégica”.

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