Um novo estudo sugere que cometas e outros objetos de outros sistemas estelares podem não ser tão raros quanto nós pensamos, baseando suas conclusões em diversas observações de outros sistemas nos confins da nossa galáxia.

A pesquisa, conduzida pelo Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian (CfA) e publicada no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, altera a percepção que obtivemos graças à passagem do Borisov, até hoje, o primeiro e único registro de um cometa de outro sistema estelar a ser detectado por humanos em nossa vizinhança.

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Segundo as conclusões do estudo, cálculos de observação da Nuvem de Oort – um conjunto de destroços localizado nas partes mais isoladas do sistema solar onde estamos (e tida como a “irmã perdida” do Sol) – revelaram que a presença de objetos interestelares superam o número de objetos naturais do nosso próprio sistema.

“Antes de detectarmos o primeiro cometa interestelar, nós não tínhamos nenhuma ideia de quantos objetos do tipo estavam em nosso sistema solar, mas a teoria da formação de sistemas planetários sugere que deveríamos ter menos ‘visitantes’ do que ‘moradores’”, disse Amir Siraj, co-autor do estudo. “Agora, porém, estamos descobrindo que podemos ter substancialmente mais visitantes”.

A fim de simplificar seus resultados, Siraj os explica de outra forma: “imagine que temos um ferrovia de uma milha de tamanho e, durante nossa observação, apenas um carro a cruza. Com isso, posso afirmar que, naquele dia, o volume observado de carros que cruzam a ferrovia foi de um por dia e por milha”.

“Mas”, ele segue, “se eu tiver razão para acreditar que a observação não tenha sido um evento exclusivo – digamos que a ferrovia tenha um par de cancelas feitas para o cruzamento de carros – então eu posso dar um passo adiante e começar a fazer especulações estatísticas sobre o volume médio de carros que falam esse cruzamento”.

Segundo ele, nós só não vimos mais que dois objetos (além do cometa Borisov, vimos também o asteroide “‘Oumuama”) porque, simplesmente, não temos a tecnologia para isso: a Nuvem de Oort está a uma distância média entre 320 bilhões e 16 trilhões de quilômetros do nosso Sol. Ao contrário de outros sistemas estelares, porém, os objetos da Nuvem não produzem sua própria luz – e esse é um fator decisivo quando o assunto é a observação do espaço.

O caso do cometa Borisov foi uma exceção, não a regra: ele chegou na “ponta” do nosso sistema solar em outubro de 2019, passando pela Terra e pelo Sol em dezembro do mesmo ano. Estimativas feitas por especialistas na época dizem que somente a sua cauda é 14 vezes maior que a Terra. Diante da proximidade e de sua luminosidade, fomos capazes de percebê-lo.

De acordo com Matthew Holman, um ex-diretor do CfA que não está envolvido com o novo estudo, as conclusões podem empolgar a comunidade pois, se a premissa de mais objetos do que podemos observar for verdadeira, então ela também pode valer para objetos interestelares ainda mais próximos que a Nuvem de Oort.

“Esses resultados sugerem que a abundância de objetos interestelares e da Nuvem de Oort é comparavelmente mais próxima do Sol do que Saturno. Isso pode ser testado com pesquisas atuais e futuras do sistema solar”, disse Holman. “Quando olhamos para os dados de asteroides daquela região, a pergunta é: ‘existem asteroides que realmente são interestelares e nós apenas não os reconhecemos antes?”

A expectativa agora é a de que a chegada de tecnologias mais atuais sirva para confirmar o estudo especulativo. entre 2021 e 2022, pelo menos dois objetos de ampla escala serão lançados – o Observatório Vera C. Rubin (2022, assim nomeado em homenagem à mulher que descobriu a matéria escura) e o Projeto TAOS II (sigla em inglês para “Pesquisa de Ocultação Automatizada Transnetuniana”) – trazem o objetivo específico de detectar, com maior profundidade, cometas, asteroides e planetas em pontos distantes.

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