Um trem mais rápido que um avião comercial, viajando quase à velocidade do som (ou bem mais). Esse é o jeito mais simples de explicar o que é um hyperloop. Ainda que Elon Musk e a SpaceX tenham mais visibilidade, foi o Virgin Hyperloop o primeiro a fazer um teste com passageiros com sucesso, em 2020. E, agora, anunciam estarem prontos para a fase comercial com uma demonstração conceitual do sistema de ponta a ponta.

Dois conceitos

O hyperloop une dois conceitos: um maglev e trem pneumático.

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A primeira parte é segura: um maglev é um trem que não encosta nos trilhos, levitado magneticamente a uma pequena distância e movido por motores lineares. É uma tecnologia razoavelmente madura, com o exemplo de maior sucesso sendo o Transrapid do aeroporto de Xangai, que opera já há 17 anos, a 431 km/h, num curso de 19 km. Com um novo maglev chinês, de 600 km/h, prestes a ser implementado.

E a outra parte é a mais complicada: um tubo com vácuo parcial removeria a limitação principal do maglev: a resistência ao ar. O conceito data, incrivelmente, de antes das Guerras Napoleônicas: foi inventado em 1799, pelo engenheiro escocês William Murdoch.

É o famoso tubo pneumático visto em filmes antigos (e usado ainda hoje em hospitais e fábricas). Nele, o vácuo parcial é usado como propulsão: a pressão na frente do tubo é menor que na de trás, e isso move o veículo. A primeira vez que alguém viajou num tubo pneumático foi em 1861, em Londres, e um metrô pneumático chegou a operar em Nova York entre 1870 e 1873. Mas levar gente assim nunca se revelou comercialmente viável.

Virgin Hyperloop: dúvidas

O vídeo mostra que os “trens” do Virgin Hyperloop são, digamos, virtuais. São na verdade “pods”, vagões autônomos que se alinham dentro de um túnel para formar comboios, e podem inclusive se desviar para outra linha quando necessário.

A demonstração pode passar uma impressão errada em alguns trechos: os tubos parecem transparentes em certas partes. Mas isso nem tem como (ou por que) ser. Vidro não é um material viável em túneis gigantes de vácuo, pelo imenso custo para criar vidros resistentes à diferença de pressão nessa escala. Tubos de hyperloop são de concreto, reforçado com aço e fibra de carbono. Como visto em outras partes, os tubos são opacos e os pods não tem janelas.

O vídeo não discute nenhuma dificuldade, mas, no caso do ancestral trem a vácuo, algumas coisas que impediram sua adoção continuam a ser problemas para o hyperloop. A maior delas: manter o vácuo em túneis gigantes.

No vídeo, dá para ver uma grande estação de bombas de ar que seriam necessárias para remover o ar entrando por inevitáveis infiltrações.

Em relação ao trem a vácuo do século 19, o Virgin Hyperloop tem uma vantagem: ele não precisa do vácuo para se mover, já que se move não pela diferença de pressão, mas os motores lineares. Se os túneis se enchessem de ar em um acidente ou para manutenção, em tese poderia seguir seu curso, só mais devagar.

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Mas há algumas questões sobre a viabilidade do hyperloop não respondidas no vídeo. A maior delas: o que acontece se um veículo quebra? Ou, em se tratando de maglev, no qual tração está nos motores lineares fora dos veículos, o que acontece se parte do motor para de funcionar e pods ficam sem tração diante de outros?

Nada indica que há separação de trechos que poderiam ser re-pressurizados no caso de entrada acidental de ar ou para manutenção – isso exigiria isolar completamente um trecho, com comportas físicas fechando as pontas do túnel. Também não aparecem túneis paralelos de manutenção. Também não é explicado se parte do túnel quebra e o ar entra violentamente, como impedir que os pods sejam empurrados na direção oposta.

Mas essas são coisas chatas que não fazem um bom vídeo de divulgação. O Olhar Digital entrou em contato com a Virgin Hyperloop e aguarda resposta. Que podem ser mais interessantes que o vídeo.

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