Mesmo quem não é conhecedor dos instrumentos musicais reconhece o nome “Stradivarius”, uma das principais produtoras de violinos do mundo, e seu som quase que exclusivo frente aos seus concorrentes. Durante anos, essa exclusividade, pensava-se, era objeto de técnicas de construção dos objetos, mas uma nova pesquisa sugere algo mais simples: a química.

Segundo uma teoria proposta há 40 anos por Joseph Nagyvary, professor emérito de bioquímica da Universidade Texas A&M, a madeira usada na construção dos violinos Stradivarius é fortemente tratada com substâncias químicas – especificamente, bórax, zinco, cobre, alume e um pouquinho de água de cal – eram aplicadas pelo próprio Antonio Stradivari, criador da marca, para limpar e proteger a madeira de infestações de vermes.

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A teoria foi colocada à prova pelo próprio Nagyvary e confirmada por um time de cientistas ligados à Sociedade Americana de Química (ACS), a maior instituição de pesquisa do mundo no setor.

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Os violinos Stradivarius sempre foram conhecidos pela qualidade sonora ímpar, mas uma pesquisa recente atribui esse sucesso a fatores químicos, e não apenas à técnica de construção. Imagem: losmandarinas/Shutterstock

“O bórax tem um amplo histórico em uso preservativo, desde o antigo Egito, onde era aplicado em processos de mumificação e, depois, usado como inseticida”, disse Nagyvary. “A presença desses químicos aponta para uma colaboração entre os fabricantes de violinos e as farmácias e farmacêuticos locais à época”. Segundo o cientista, essa química não é vista apenas nos violinos Stradivarius, mas também em outras marcas de primeira grandeza, como Guarneri.

“Esse novo estudo revela que tanto [Antonio] Stradivari como Guarneri [del Gesu] tinham seus próprios métodos de processamento da madeira, ambos com enorme significado” disse Nagyvary. “Eles provavelmente perceberam que sais especiais usados para o tratamento da madeira também traziam o benefício adicional na acústica e resistência”.

O motivo dessa pesquisa vai além do interesse nos instrumentos em si: como na época dos dois criadores, não existiam patentes ou registros de propriedade intelectual, seus métodos foram mantidos em extremo segredo. “Era impossível adivinhar como a madeira era manipulada com químicos apenas pela inspeção visual do produto finalizado”.

No paper, os especialistas revelam que os químicos citados acima foram encontrados não apenas na parte externa do corpo dos violinos, mas também em todas as suas partes internas. O verniz em si era apenas um toque estético, já que ele próprio não trouxe qualquer significado ao resultado sonoro dos produtos.

Stradivari era mais famoso que seu contemporâneo Guarneri, tendo fabricado cerca de 1,2 mil violinos ao longo de sua vida (1644-1737) e os vendido apenas para clientes muito abastados, como nobres e até membros da realeza europeia. Hoje, cerca de 600 exemplares originais ainda existem.

Guarneri não atingiu o mesmo prestígio de seu predecessor na época, e seu sucesso veio apenas de forma póstuma. Hoje, ele é reconhecido como um poderoso concorrente aos Stradivarius – para alguns, ele chega a soar melhor.

“Seus violinos são sem igual no que tange a som e qualidade – e têm sido assim nos últimos 220 anos”, disse Nagyvary, ressaltando que, dependendo do item, um violino Stradivarius pode custar cerca de US$ 10 milhões (R$ 51,70 milhões) – e os Guarneri, mais ainda.

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