Desde que chegou a Marte, em agosto de 2012, o rover Curiosity vem encontrando sinais de terra e pedras enlameadas ou turvas, o que a Nasa interpretou como evidências de que a região explorada pelo veículo – a cratera Gale – já foi a casa de um imenso lago há bilhões de anos.

Um novo estudo, porém, oferece um ponto de vista diferente, potencialmente refutando essa teoria: segundo Jiacheng Liu, estudante de doutorado em mineralogia pela Universidade de Hong Kong, as pedras podem apenas parecer lacustres (relacionadas a lagos ou corpos de água), mas pertencer a outro tipo de categoria.

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Imagem feita pela câmera lateral do rover Curiosity, que supostamente encontrou uma região de lago em Marte
Durante anos, pensava-se que o Curiosity teria encontrado região de imenso lago antigo em Marte, mas novo estudo afirma que não é bem assim. Imagem: Nasa/Divulgação

“A maior parte da seção estratigráfica corresponde a arenitos ou um corpo híbrido entre arenitos e lamitos, os quais são intensamente afetados pelos efeitos do tempo e clima, mas não necessariamente lacustres em origem”, disse o cientista em seu paper, publicado no jornal Science Advances.

Liu diz que água líquida causou esses efeitos nas rochas, porém essa água não veio de um lago. No cenário proposto por ele e seus colegas de pesquisa, a maior parte dos depósitos sedimentares vistos na cratera Gale vieram pelo vento ou atividades vulcânicas, posteriormente afetados por chuva ácida.

“Isso provavelmente é um caso de desgaste químico causado por precipitação em um ambiente de solo”, disse o co-autor do estudo, Joe Michalski, diretor efetivo do Laboratório de Pesquisa Espacial da Universidade de Hong Kong e orientador de doutorado de Liu.

O orientador diz que os dados coletados pelo Curiosity, que recentemente completou nove anos de missão, são muito mais indicativos da presença de vários bolsões de água, e não de um único imenso lago, ao contrário do que vinha sendo sugerido desde os primeiros relatos do rover, em 2014. “Esses pequenos lagos provavelmente eram transientes, existindo por, no máximo, algumas dezenas de milhares de anos por vez”, ele adicionou.

Em outras palavras: pequenos corpos de água que evaporavam e voltavam com a chuva, de forma cíclica.

As implicações do estudo – caso Liu, Michalski e a co-autora Mei-Fu Zhou estejam certos – são as de que a vida provavelmente teve mais complicações para começar dentro da Cratera Gale: um dos argumentos posicionados pela Nasa para a missão Curiosity é o de que a presença de um suposto lago tornaria a região propícia para o surgimento de formas de vida no planeta vermelho.

Essa mesma linha de pensamento também alavancou a missão Perseverance, que levou o rover homônimo a outra região de Marte – a Cratera Jezero. Ali, entretanto, é confirmado que qualquer água da área seria de fato um enorme lago (há até um delta, uma terminação de um rio quando ele desemboca em um lago).

Entretanto, a possibilidade de que a Cratera Gale nunca tivesse um lago também traz boas notícias: segundo os especialistas, se isso for verdade, então a região é mais representativa de Marte como um todo, estando dentro da média do resto do planeta e nem tanto um caso à parte. “Isso significa que nós podemos ter um entendimento maior do que pensávamos sobre Marte”, disse Michalski.

Michalski acredita que a dúvida será respondida pelo Perseverance, que recentemente recolheu a sua primeira amostra confirmada de solo marciano: “Eu suspeito que os sedimentos ali serão diferentes”, ele disse. “Então poderemos olhar para as duas situações lado a lado e dizer ‘Ok, isso é o que vemos em um lago e isso é o que vimos na [cratera] Gale. E eles não são iguais’”.

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