Localizado entre a Dinamarca e a Noruega, o Reino Unido e a Alemanha, o Mar do Norte guarda em suas profundezas resquícios ocultos das eras glaciais. Um estudo recente, publicado na Geology, divulgou imagens em 3D dessas paisagens de milhares a milhões de anos atrás, com detalhes espetaculares.

Usando uma técnica chamada sismologia de reflexão, uma equipe de cientistas imaginou enormes goivas escavadas por rios subglaciais, enterrados centenas de metros abaixo do fundo do Mar do Norte. 

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Mapa revela a localização de canais enterrados sob o Mar do Norte com uma sobreposição mostrando os limites do manto de gelo há 21 mil anos. Imagem: James Kirkham

Chamados de ‘vales em túnel’, esses recursos podem ajudar a entender como as paisagens congeladas mudam em resposta ao aquecimento do clima.

“A origem desses canais não foi resolvida por mais de um século. Esta descoberta nos ajudará a entender melhor o recuo contínuo das geleiras atuais na Antártica e na Groenlândia”, disse o geofísico James Kirkham do British Antarctic Survey. “Da maneira como podemos deixar pegadas na areia, as geleiras deixam uma marca na terra sobre a qual fluem. Nossos novos dados de ponta nos fornecem importantes marcadores de degelo”.

De acordo com o site Science Alert, a sismologia de reflexão, como o nome sugere, depende de vibrações que se propagam no subsolo para gerar um perfil de densidade até profundidades significativas.

Um dos vales do túnel revelado pelos dados sísmicos do Mar do Norte. Imagem: James Kirkham

É um pouco como podemos usar terremotos para mapear a densidade do interior de todo o nosso planeta, mas direcionados e em escalas menores. Neste caso, os conjuntos de canhões de ar foram rebocados sobre uma seção do Mar do Norte. 

À medida que essas ondas sonoras desses aglomerados se propagavam, os hidrofones captavam os reflexos conforme ricocheteavam em estruturas de diferentes densidades abaixo do fundo do mar.

Então, os pesquisadores analisaram os dados 3D de alta resolução para construir um mapa em camadas da paisagem antiga.

Mesmo enterrado sob até 300 metros de sedimentos, o equipamento é capaz de capturar características tão pequenas quanto se estivesse a 4 metros. Isso quer dizer que os dados obtidos são os mais detalhados até o momento nos vales dos túneis abaixo do Mar do Norte.

Estudo do Mar do Norte pode ajudar a prever o futuro da Groenlândia e da Antártica

Os dados revelaram 19 canais transversais entre 300 e 3 mil metros de largura, com talvegues ondulantes. Com base na morfologia desses canais, os pesquisadores os interpretaram como vales em túnel formados pela água do degelo que escorre por baixo de camadas de gelo antigas.

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Devido ao alto nível de detalhes, esses canais revelam informações sobre como as camadas de gelo interagiram com eles à medida que se formaram. Uma vez que as camadas de gelo encontradas nos pólos da Terra atualmente estão derretendo em resposta ao aquecimento climático, uma melhor compreensão desse processo pode nos ajudar a descobrir o que vai acontecer com a Groenlândia e a Antártica no futuro.

“Embora já soubéssemos dos enormes canais glaciais do Mar do Norte há algum tempo, esta é a primeira vez que visualizamos formas terrestres em escala fina dentro deles”, disse a geofísica Kelly Hogan, do British Antarctic Survey.

“Essas características delicadas nos falam sobre como a água se movia pelos canais (abaixo do gelo) e até mesmo como o gelo simplesmente estagnava e derretia. É muito difícil observar o que se passa por baixo de nossas grandes camadas de gelo hoje, especialmente o modo como a água e os sedimentos se movem está afetando o fluxo de gelo, e sabemos que esses são controles importantes no comportamento do gelo”, acrescentou Hogan.

“Como resultado, usar esses canais antigos para entender como o gelo responderá às mudanças nas condições de um clima que aquece é extremamente relevante e oportuno”, completou.

Pesquisas futuras devem envolver perfuração rasa, para colocar melhores restrições cronológicas nos vales dos túneis, bem como coleta de uma faixa mais ampla de dados sísmicos. Esse detalhe mais granular permitirá aos pesquisadores modelar melhor os sistemas hidrológicos das camadas de gelo antigas e aplicar esse conhecimento à nossa situação atual.

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