Enquanto Rússia e Cazaquistão brigam pelos restos de um exemplar do ônibus espacial Buran, outros dois países também entram em disputa por uma relíquia. Um museu da Alemanha se recusa a devolver ao Brasil um fóssil de dinossauro que teria sido tirado irregularmente do país.

Ubirajara jubatus, o dinossauro em questão, é datado do período Cretáceo e viveu há cerca de 110 e 115 milhões de anos. Descoberto no Ceará, trata-se da primeira espécie não aviária encontrada com penas preservadas na América Latina.

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Imagem do fóssil publicada na revista científica Cretaceous Research. Imagem: Rodrigo Temp Müller / Divulgação / CP

Segundo relataram à Folha de S. Paulo os autores que descreveram a espécie, o fóssil foi retirado do Brasil em 1995, com autorização do Departamento Nacional de Produção Mineral, órgão que não existe mais e era responsável pelos fósseis.

Para piorar a situação, a Sociedade Brasileira de Paleontologia garante que o documento que autorizou a exportação do fóssil era genérico e teria sido assinado por um funcionário criminoso, condenado por fraudar laudos para extração de esmeraldas. Por essa razão, a entidade questiona a validade do documento.

Brasileiros criam hashtag para pressionar museu alemão, que não desiste

É no Museu de História Natural de Karlsruhe que está exposto o fóssil do Ubirajara jubatus. Por iniciativa de cientistas, brasileiros têm usado a hashtag #UbirajaraBelongstoBR (Ubirajara pertence ao Brasil) nas redes sociais, especialmente em publicações do museu, para pressionar a instituição a devolver o artefato.

No entanto, em nota publicada no Instagram na última sexta-feira (10), os alemães garantiram que o fóssil continuará na Alemanha.

“Depoimento sobre Ubirajara. Nas últimas horas temos recebido muitos comentários sobre o fóssil do dinossauro brasileiro Ubirajara. Neste ponto, gostaríamos de esclarecer quem é o legítimo proprietário. O fóssil do dinossauro brasileiro Ubirajara é propriedade do estado de Baden-Württemberg. Foi adquirido antes da entrada em vigor da ‘Convenção da Unesco sobre Medidas para Proibir e Prevenir a Importação, Exportação e Transferência Inadmissível de Propriedade de Bens Culturais’ e foi introduzido em conformidade com todos os regulamentos alfandegários e de entrada. Ele é preservado para a posteridade no Museu Estadual de História Natural em Karlsruhe e está disponível para a comunidade científica internacional para fins de pesquisa. Pedimos a sua compreensão de que deletaremos comentários sobre Ubirajara de todas as outras postagens que não tenham nada a ver com este tópico. Também desativaremos a função de comentários para nossas postagens mais antigas”.

De acordo com informações da Folha de S. Paulo, a convenção da Unesco citada pelo museu é de 1973, entretanto, a Alemanha estabeleceu uma lei, em 2016, que legaliza todo material levado para o país antes de 26 de abril de 2007.

Apesar da explicação, brasileiros continuam empenhados em mudar a decisão e solicitam medidas da embaixada brasileira na Alemanha para que o fóssil seja repatriado. Há também quem tenha se organizado para rebaixar a nota do museu no Google.

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Artigo científico que relata a descoberta do fóssil brasileiro foi deletado após rumores de retirada irregular

O estudo que detalha a descoberta da espécie, que aconteceu em dezembro de 2020, foi publicado na revista científica Cretaceous Research. Desde então, a comunidade científica brasileira tem se organizado para reaver o artefato. 

Quando apareceram evidências de que o fóssil teria sido levado do Brasil de forma irregular, a revista tirou o artigo do site, conforme relata reportagem da Folha.

Renato Ghilardi, presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia, afirma que houve contato da instituição com o museu que, inicialmente, havia concordado em devolver o Ubirajara jubatus ao Brasil. Após alguns meses, sinalizaram que mudaram de ideia.

Autor do estudo diz que o fóssil de dinossauro teria se perdido no incêndio do Museu Nacional 

Quando o artigo foi descrito, David Martill, paleontólogo britânico e um dos autores do estudo, manifestou-se de forma irônica em um email enviado à Folha de S. Paulo. Segundo Martill, se o fóssil estivesse no Brasil, poderia ter sido perdido no incêndio do Museu Nacional, ocorrido em setembro de 2018.

“Eu ficaria muito feliz de ver todos os fósseis brasileiros ao redor do mundo devolvidos ao país, como eu já disse muitas vezes. Felizmente, isso não aconteceu dois anos atrás, pois agora todos eles estariam reduzidos a cinzas após o trágico fogo que destruiu o maravilhoso Museu Nacional do Rio”.

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