No ano de 1181, uma explosão estelar da chamada “Estrela Hóspede Chinesa” ocorreu, sendo um dos cinco episódios do tipo na Via Láctea no último milênio. Entretanto, apesar dos registros históricos e mais de 900 anos de evolução, astrônomos nunca haviam encontrado traços dessa supernova. Até agora.

De acordo com um paper publicado hoje (15), um time internacional de especialistas determinou que uma nuvem de rápida expansão (ou “nebulosa”) chamada Pa30, é o objeto remanescente da supernova milenar chinesa. Cálculos conduzidos pelos astrônomos posicionam essa nuvem – que hoje envolve a Estrela de Parker, uma das mais quentes da Via Láctea – no mesmo ponto onde a explosão teria ocorrido.

publicidade

Leia também

Dada como perdida há 900 anos, supernova chinesa teve seus restos finalmente encontrados na Via Láctea
Supernova ocorrida na Via Láctea há 900 anos teve seus restos finalmente encontrados, após séculos dada como perdida. Imagem: muratart – Shutterstock

Começando a contagem em 1006, apenas cinco eventos de explosão supernova (nome dado à “morte” de uma estrela, quando ela entra em colapso em relação à sua própria massa) na nossa galáxia. Entretanto, quase todos eles foram devidamente catalogados em tempos modernos: a Nebulosa do Caranguejo, próxima à Constelação de Touro, é um exemplo disso.

A “Estrela Hóspede Chinesa” foi a protagonista de uma supernova ocorrida no céu asiático, originalmente documentada por astrônomos do século XII na China e Japão. Entretanto, a ausência da tecnologia moderna naquela época tornou tais registros imprecisos e generalistas, resultando na “perda” do que sobrou da estrela morta há séculos.

Eis que um time liderado pelo astrônomo Albert Zijlstra, da Universidade de Manchester, e com membros de Hong Kong, Reino Unido, Espanha, Hungria e França, conseguiram determinar a velocidade de expansão da Nebulosa Pa30 – cerca de 1,1 mil quilômetros por segundo (ou seja, uma viagem de cinco minutos da Terra à Lua). Nesta velocidade, os cientistas voltaram na linha do tempo e conseguiram determinar que a nuvem é, de fato, o que sobrou da explosão de 900 anos atrás – ou seja, é a supernova perdida.

“Os relatos históricos afirmavam que a estrela hóspede se posicionou entre duas constelações chinesas: Chuanshe e Huagai. A Estrela de Parker está localizada, hoje, nessa mesma posição. Isso significa que tanto a sua idade como a sua localização encaixam no evento de 1181”, disse Zijlstra. A conclusão é a de que a Nebulosa Pa30 e a Estrela de Parker sejam, ambas, resultantes da fusão entre duas estrelas anãs brancas – um tipo de evento raro que dá origem a um tipo diferente de supernova, com brilho mais fraco, chamado de “Supernova Tipo Iax”.

“Só 10% das supernovas correspondem a esse tipo e elas não são muito compreendidas”, continuou Zijlstra. “O fato da supernova de 1181 ser mais fraca em brilho se encaixa nessa descrição. É o único evento onde nós podemos estudar tanto a nebulosa remanescente como a estrela fundida, além de ter uma descrição do próprio evento de explosão”.

A fusão de estrelas anãs brancas e de nêutrons desencadeia poderosas reações nucleares, dando formação a elementos pesados ricos, como ouro e platina. De acordo com Zijlstra, jáse sabe que a supernova de 1181 teve uma duração de 185 dias, o que dá mais certeza às informações do estudo: “Ao combinar toda essa informação de idade, localização, duração já conhecida e até seu brilho, todos os indícios apontam para a Estrela de Parker e a Nebulosa Pa30 serem, ambas, as contrapartes da explosão. Esse é o único tipo de supernova tipo Iax onde os estudos da estrela e da nuvem serão possíveis. É muito bom poder participar da solução de um mistério, ao mesmo tempo, astronômico e histórico”.

Não se esqueça: o Olhar Digital transmitirá ao vivo, a partir das 20h15 desta quarta-feira (15), o lançamento da missão Inspiration4 (I4), pela SpaceX. Assista no nosso YouTube, Facebook, Instagram, Twitter, LinkedIn e TikTok.