Fora do olhar crítico de um profissional que tece análises sobre filmes, séries e outros conteúdos audiovisuais, e no que diz respeito à indústria cinematográfica como um todo, eu sou grato que ainda há espaço para mostrarmos o talento e vigor de Clint Eastwood com amor e apreciação que ele tanto merece enquanto ainda está conosco. Há algo sobre ver o aclamado ator de 91 anos com um chapéu de cowboy, sentado em um cavalo, que parece certo, sabe? E ‘Cry Macho: O Caminho para Redenção‘ tem justamente a proposta em questão: exaltar o artista em uma produção delicada e singela sobre relações paternais e redenção, de forma a levar o público a sair da sala de cinema relaxado, tranquilo e com um sorriso no rosto, agradecido por ter comprado o ingresso.

Porém, não espere um longa-metragem do gênero western com ação e movimento. A Warner Bros. e a Malpaso Productions optam por uma narrativa dramática que se assemelha à ‘Gran Torino’, também de Eastwood, mas com uma proposta de desenvolvimento lento e atrelado ao drama dos personagens – algo muito bem feito tal qual o Melhor Filme vencedor do Oscar de 2021, ‘Nomadland’, dirigido por Chloé Zhao. A fotografia de Ben Davis, especialista em meio a filmes cheios de CGI como ‘Vingadores: Era de Ultron’, é bem selecionada, pois respeita toda a paisagem natural do Novo México, nos Estados Unidos (EUA), porém aplica dinamismo. O fator em questão, alinhado ao jogo de câmeras e à edição “direta e reta” permite ao espectador não tirar os olhos da tela durante 100 minutos, mas também avaliar a construção da produção como um todo.

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Foto mostra Eastwood e Eduardo Minett caminhando no meio de uma rua em área urbana. O garoto carrega nos braços um galo.
Cry Macho: O Caminho para Redenção’ é estrelado e dirigido por Clint Eastwood. Imagem: Warner Bros./Divulgação

Todo o trabalho de produção envolto numa trama dramática, mas direta ao ponto a nível mais popular, mostra que Eastwood, como diretor, se afasta dos “longos longas” que a indústria cinematográfica exibe atualmente, e acentua que ele está antenado em como angariar o público para experimentar uma boa história que não precisa de desenvolvimento perpétuo e sequências. ‘Cry Macho’ tem começo, meio e fim bem definidos e com mensagem moral clara para todos, mesmo que não tenham lido à obra original de N. Richard Nash, que inspirou o filme.

A trama, ambientada em 1979, foca em Mike Milo (Eastwood), um ex-astro de rodeios e criador de cavalos do Texas (EUA) que aceita um trabalho do antigo empregador, Howard (Dwight Yoakam): trazer de volta para casa o filho adolescente, Rafo (Eduardo Minett) que está no México. Mesmo em idade avançada, o cowboy encara a empreitada por conta de uma espécie de dívida de honra com o ex-chefe, que o manteve na folha de pagamento mesmo após um acidente e a despeito dos problemas com bebida.

CLINT EASTWOOD em CRY MACHO
Clint Eastwood é Mike Milo em ‘Cry Macho’. Imagem: Claire Folger/Warner Bros. Entertainment

Figuras áridas ao debatível estilo macho como Mike, o protagonista de ‘Cry Macho’, são partes indissociáveis da longeva carreira de Eastwood, que virou símbolo de masculinidade do cinema. Contudo, por mais que ele tente parecer uma figura imponente como um cowboy misterioso, até em cenas mais “quentes” com mulheres latinas, o ator acaba recaindo à imagem do “idoso fofo e agradável” em diversos momentos, o que não é ruim e de modo nenhum tira o vigor e presença de tela do artista.

Porém, o maior destaque do filme é a parceria de Eastwood com Eduardo Minett, que interpreta Rafo. Ao melhor e um pouco famigerado estilo parceria “pai/filho” igual a ‘Logan’ (2017) ou o jogo ‘The Last Of Us’ (2013′), o veterano constrói uma ótima – e em muitas vezes fofa – relação paternal com o jovem, que aproveita da ainda inexperiência como ator para abusar do melodrama e impactar o telespectador em cenas não tão tristes quando a produção aparenta demonstrar, mas que funcionam no enredo.

Mesmo cru e algumas vezes exagerado em tela, Minett impressiona no papel de um adolescente revoltado pela infelicidade com a vida miserável que leva. Quase um “Aladdin mexicano” ao lado de um Abu (que, em ‘Cry Macho’, é um galo que se chama Macho. Pois é), o rapaz foi contemplado pelo roteiro de Nick Schenk (que renova a parceria de anos que tem com Eastwood) com diálogos reflexivos e piadas que caem bem ao longo do filme. Um nome novo e jovem que, com certeza, vale a pena ficar de olho em futuras produções.

EDUARDO MINETT, NATALIA TRAVEN e CLINT EASTWOOD
Eastwood e Minett fazem boa parceria em ‘Cry Macho’; Natalia Traven é destaque do elenco coadjuvante. Imagem: Claire Folger/Warner Bros. Entertainment

O roteiro, no entanto, não dá tanto destaque ao elenco coadjuvante, que mesmo assim não compromete a produção e cumpre bem os papéis atribuídos. Dwight Yoakam como Howard Polk, pai de Rafo, é mais uma peça-chave para compreensão da história do que um personagem de fato relevante, assim como Horacio Garcia Rojas como Aurelio, que “ladra, mas não morde”. É compreensível que o argumento tenta a todo custo destacar o ator de ‘Narcos: México’ como ameaça, porém não funciona. Para ser sincero, se não fosse o personagem de Minett quase gritar ao público que assiste o longa que o ator mexicano é o vilão, ninguém saberia.

Conhecida atriz chilena, Fernanda Urrejola atua de forma segura como Leta, a tóxica mãe de Rafo, mas aparece muito pouco para marcar presença, diferente de Natalia Traven. Como Marta, a atriz (que muitos podem reconhecê-la de ‘Efeito Colateral’, com Arnold Schwarzenegger) esbanja carisma, simpatia e até sensualidade em tela, ajudando os protagonistas sempre que possível e ensinando-os que mulheres também podem ter um comportamento macho.

Aliás, ‘Cry Macho’ tem como pano de fundo a crítica ao machismo – e, parando para pensar, muito do estilo que o próprio Eastwood ajudou a perpetuar ao longo de quase uma década. E é o próprio Mike Milo que ensina ao (público e ao) revoltado Rafo, que quer provar ao longo de todo o filme que é “macho e não teme nada”, que a pose não significa nada fora “das quatro paredes” em que vive, seja o México ou psicologicamente falando.

Foto mostra Clint Eastwood de perfil, usando jaqueta e chapéu, com o horizonte ao fundo em que, aparentemente, o sol se põe
‘Cry Macho’ é o primeiro filme dirigido e estrelado por Eastwood desde ‘A Mula’, de 2018. Imagem: Warner Bros./Divulgação

‘Cry Macho: O Caminho para Redenção’ é um ótimo filme típico de ‘Sessão da Tarde’ – o que não é ruim e não rebaixa Clint Eastwood

Toda a lição moderna e crítica ao machismo é embalada em um filme no melhor estilo fofo e com cenas que podem muito bem, em um futuro próximo, serem compartilhadas nas redes sociais em busca de reações como “like” e “amei”. De qualquer forma, ‘Cry Macho: O Caminho para Redenção’ exalta e renova o vigor de Clint Eastwood como um artista completo na indústria cinematográfica, e serve suavemente como homenagem a praticamente tudo que protagonizou durante a quase centenária carreira no gênero western – onde o cineasta teve maior popularidade e reconhecimento.

road movie ainda traz uma boa metáfora ao tratar a jornada de Mike e Rafo no trajeto entre os EUA e México como forma de redenção e aprendizado para qualquer idade, tanto aos protagonistas quanto ao público. Enfim, caso procure uma história digna e cativante na medida certa com começo, meio e fim bem definidos dentro de um emaranhado de blockusters e sequências, o filme da Warner Bros. vale a pena e é uma boa pedida!

CLINT EASTWOOD e EDUARDO MINETT
Jornada de Mike e Rafo em ‘Cry Macho’ é metáfora reflexiva, tanto aos personagens quanto ao público. Imagem: Claire Folger/Warner Bros. Entertainment

Cry Macho: O Caminho para Redenção‘ estreia nesta quinta-feira (16) nos cinemas de todo o mundo. O filme é estrelado e dirigido por Clint Eastwood e conta no elenco com Dwight Yoakam (‘Adrenalina’), Natalia Traven (‘Efeito Colateral’), Fernanda Urrejola e Horacio Garcia-Rojas (‘Narcos: Mexico’), além do jovem Eduardo Minett, de 15 anos, estreia em frente às telonas. O roteiro da produção da Warner Bros. é de Nick Schenck, que já foi parceiro do protagonista em ‘Gran Torino’ e ‘A Mula’.

Confira abaixo a sinopse oficial e o trailer do longa:

“Um ex-astro do rodeio e criador de cavalos fracassado consegue um emprego para levar o filho de um homem para casa e para longe de sua mãe alcoólatra. Atravessando a zona rural do México em seu caminho de volta para o Texas, a dupla improvável enfrenta uma jornada inesperadamente desafiadora, durante a qual o cavaleiro cansado do mundo pode encontrar seu próprio senso de redenção ensinando ao menino o que significa ser um bom homem.”

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