Inspirada na graphic novel de Brian K. Vaughan e Pia Guerra, ‘Y: The Last Man’ conta a história de um mundo pós-apocalíptico no qual um evento cataclísmico dizima todos os seres vivos com cromossomo Y, menos Yorick Brown (Ben Schnetzer), um homem cisgênero e o macaco de estimação dele, Ampersand. Com dez episódios, a série exclusiva do Star+ produzida pelo canal FX acompanha os sobreviventes deste novo mundo enquanto lutam com os esforços para restaurar o que foi perdido e a oportunidade de construir algo melhor.

No serviço de streaming, a produção estreou em 13 de setembro com os três primeiros episódios, e contará com o lançamento de um novo episódio inédito todas as segundas-feiras. O Olhar Digital foi convidado junto a outras veículos de imprensa selecionados para um bate-papo exclusivo com os atores Ben Schnetzer e Ashley Romans, além da showrunner e produtora Eliza Clark, que falaram sobre a adaptação da aclamada HQ, atuação, tecnologia e etc.

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y the last man
Atores Ben Schnetzer e Ashley Romans e produtora Eliza Clark em entrevista ao Olhar Digital. Imagem: Reprodução/Olhar Digital

Aos 31 anos, Schnetzer já marcou presença em filmes e séries bem recebidos pela crítica, como ‘Snowden’, ‘A Minha Vida com John F. Donovan’, ‘Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos’ e o excelente ‘O Trote’, ao lado do cantor e ator Nick Jonas. Questionei ele sobre como é protagonizar uma produção na qual, na maior parte do tempo, é preciso atuar em frente às câmeras imagina que há um animal de verdade ao lado.

“Para nós, como atores, precisamos voltar ao ‘princípio’ nessas situações e brincar de fingir”, explicou o ator, que rasgou elogios à produção de ‘Y: The Last Man’ como um todo e, principalmente, à equipe de VFX (efeitos especiais). “É estranho ser um ator, porque nesse tipo de situação com a tecnologia, você precisa lidar com seriedade, mas ao mesmo tempo você não pode se levar a sério – e esse foi um dos maiores exemplos”.

Porém, Schnetzer admitiu que mesmo com a experiência de monólogos em frente à câmera que teve em ‘Warcraft’, foi difícil atuar sozinho e esperar que os efeitos especiais e a tecnologia entregassem o produto final. “Na série, a relação do meu personagem [com o Ampersand] é, na maioria dos momentos, a base da narrativa, então era apenas eu e meu ponto de vista, eu e minha presença em cena. Fisicamente, tomou certo tempo para estabelecer um diálogo e lembra: ‘hey, aquele espaço vazio é um animal vivo’. Há certo peso em fazer uma atuação digna nesses momentos durante todo o trabalho”, confessa ele, que revelou ter recebido ajuda de cuidadores especialistas em macacos para as gravações.

y the last man entrevista
O protagonista Ben Schnetzer e a showrunner Eliza Clark em entrevista. Imagem: Reprodução/Olhar Digital

“Logo após estabelecermos o diálogo [entre tecnologia e roteiro] e, depois de um tempo, eu ter visto o resultado final, eu fiquei extremamente empolgado, Um abraço e um agradecimento a todos os que estiveram envolvidos com CGI (computer-generated imagery) e efeitos especiais, pois ‘Y: The Last Man’ não teria acontecido sem eles. Estou empolgado para que todos acompanhem o que fizemos”, declarou Schnetzer.

Vale ressaltar que Ampersand, o capuchinho de Yorick, seria interpretado por Katie – a mesma macaca que deu vida ao famoso Marcel da série ‘Friends’. Contudo, a produção anunciou que iria usar CGI nas cenas para não estressar nenhum animal durante as gravações.

‘Y: The Last Man’ e o debate sobre cromossomo e gênero

Além da relação entre Yorick e Ampersand em um mundo apocalíptico, ‘Y: The Last Man’ explora também temas políticos e filosóficos, resultantes do acontecimento cataclísmico. Além da perda drástica da população, os governos também estão em uma grande desordem e se as mulheres e homens trans não encontrarem uma solução, todos os serem humanos irão encontrar a extinção como consequência.

Mesmo com o destaque feminino, a premissa distópica e uma sociedade em colapso já foi abordada na mídia em vários produtos possível. A premissa é bem parecida à da série de quadrinhos lançada nos Estados Unidos (EUA) entre 2001 e 2008, mas como modernizar e deixar a história mais atrativa? A showrunner Clark acredita que uma das principais diferenças está em como o enredo aborda o gênero e como transexuais ganham mais atenção na trama.

Foto mostra personagem utilizando capa e máscara de proteção biológica enquanto caminha por rua escura repleta de corpos pelo chão.
Série ‘Y: The Last Man’ é inspirada em HQ de mesmo nome publicada pela DC Comics. Crédito: Macall Polay/FX

“Parte do meu aceite em estar à frente da produção foi com a ideia de querer atualizar o nosso entendimento sobre a realidade em que estamos vivendo. Gêneros são diversos e não iguais a cromossomos, então, no universo da série, todo mundo com o cromossomo Y morre, o que tragicamente inclui mulheres, homens, pessoas não-binárias e intersexuais. E o mesmo ocorre com as sobreviventes. Isso era algo importante que eu queria atualizar”, declarou Clark, que pediu licença para destacar que a importância de Yorick na história não se deve ao fato dele ser homem cisgênero.

“Ele é especial porque tem o cromossomo Y. Central à minha adaptação estava a ideia esteve sempre o fato de que gênero e cromossomos são duas coisas separadas. E eu queria expandir a diversidade de gênero da produção – e esse debate sempre foi a ideia principal que tive como forma de trazer à história para a realidade atual em que vivemos”, expõe a showrunner. “O debate sobre o que é ser homem e mulher é abordado algumas vezes na série de forma dark, outras de forma engraçada, mas sempre intrigante ao público”.

Protagonismo dos cromossomos XX

Você pode bem deduzir pela premissa de ‘Y: The Last Man’ que, salvo Schnetzer, praticamente todo o elenco é composto por mulheres, homens trans e, enfim, seres humanos com dois cromossomos X. Diane Lane que dá vida à congressista Jennifer Brown, enquanto Olivia Thirlby é Hero. Além delas, há Amber Tamblym, Marin Ireland, Diana Band, Elliot Fletcher e Juliana Canfield.

Porém, o maior destaque da série até então é uma estreante em grandes produções: Ashley Romans como a “Agente 355” que, por muitas vezes, é chamada apenas de Sarah nos episódios (sem spoilers). Ao Olhar Digital, ela falou mais sobre se conectou à personagem, que por muitas vezes é misteriosa, sexy e totalmente badasss – fatores que tanto a atriz quanto Clark resumem em uma “femme fatale moderna“.

“Ela é forte e tem presença, mas a verdade é que ela nunca fez isso antes. Sabemos desde o episódio 1 sobre o passado dela, o que ela fazia de verdade no trabalho. Mas, quando ‘o evento’ acontece, ela já não sabe mais o que fazer. E ela é realmente boa em ‘mascarar’ as verdadeiras emoções (risos)”, brinca Romans, que ainda disserta sobre como a insegurança da personagem a fez ter uma conexão maior com a mesma.

Ashley Romans como “Agente 355”. Imagem: FX/Divulgação

“A insegurança dela e a desorientação num geral são destacadas, mas ao mesmo tempo ela se mantém firme e confiante para os que estão ao redor – e em meio a toda a situação que ocorre. Mas o que mais me fez conectar com ela como mulher é o fato dela entender que está tudo bem em não entender o que está acontecendo e o que está fazendo”, concluiu.

Além do girl power no elenco, todos os episódios da primeira temporada de ‘Y: The Last Man’ são dirigidos por mulheres, além da produção também contar com um time feminino de peso, incluindo as diretoras de fotografia, a designer de produção, a figurinista, a diretora de elenco, as editoras, a coordenadora de dublês/cenas de ação e muito mais.

Tentativas frustradas de adaptação

Ao todo, foram 14 anos e diversas tentativas frustradas para adaptar as HQs de ‘Y: The Last Man’ para o live-action, mas a produção finalmente estreou como série no dia 13 de setembro. Vencedora de três prêmios Eisner (o Oscar dos quadrinhos), a obra foi uma das mais bem-sucedidas nos EUA durante os anos em que foi publicada. Até Stephen King é fã e em várias entrevistas declarou que a publicação foi a “melhor que já leu”.

A história começa em 2007, quando surgiu a primeira tentativa de adaptar os HQS. O estúdio New Line Cinema comprou os direitos da trama e chegou a anunciar um filme com o diretor D. J. Caruso (‘XXX: Reativado’). Depois de trabalhar com Shia LaBeouf em dois projetos (‘Paranóia’ e ‘Controle absoluto’), tudo indicava que o ator assumiria o papel do protagonista, mas discordâncias sobre a realização de uma trilogia, desejo do cineasta, fizeram a produtora sondar outros nomes.

“Eu tive muita sorte de que, quando fui trazida, a FX estava pronta para abrir mão de quaisquer versões anteriores e me deixar meio que começar de novo. Então, não senti como se estivesse chegando em algo que já estava meio pronto”, afirmou Clark, que de forma alguma menosprezou todos os nomes que já estiveram envolvidos no projeto.

Ben Schnetzer como Yorick Brown. Imagem: FX/Divulgação

Dan Trachtenberg (‘Rua Cloverfield, 10’) foi outro diretor que chegou a ser confirmado, mas em 2014 os direitos voltaram aos criadores por causa da demora na produção. O projeto atual também penou para sair do papel, visto que o FX divulgou a adaptação em série ainda em 2015. A ideia inicial era que Michael Green (‘American Gods’) e Aida Mashaka Croal (‘Luke Cage’) dividissem o cargo de showrunners.

Um piloto foi gravado, porém novas diferenças criativas fizeram com que a dupla desse lugar a Clark, em 2019. Junto deles, saíram membros considerados importantes do elenco, como os primeiros Yorick e Agente 355, Barry Keoghan (‘Dunkirk’) e Lashana Lynch (‘Capitã Marvel’).

E, então, novos problemas. Duas semanas para começar a gravar em Toronto, no Canadá, Clark viu a produção de ‘Y: The Last Man’ ser adiada por conta da pandemia de Covid-19. “Estava apavorada que a série não fosse acontecer mais. E eu amo esses quadrinhos há dez anos. Queria que fosse feita”, lembrou ela ao Olhar Digital.

“Acho que o novo coronavírus tornou tudo mais difícil, mas também sou grata pelo que pude viver com o elenco. Quero dizer, estávamos todos presos no Canadá. Não conhecíamos ninguém. Só tínhamos uns aos outros. Então, ficamos incrivelmente próximos. Foi basicamente o ano mais artisticamente e criativamente satisfatório da minha vida”, declarou a showrunner.

Confira abaixo a sinopse e trailer oficiais:

“Baseado na obra homônima de Brian K Vaughan e Pia Guerra, Y: The Last Man acompanha um mundo distópico depois que uma estranha doença dizima quase todos os seres vivos com cromossomo Y. Os únicos sobreviventes do estranho acontecimento são Yorick Brown (Ben Schnetzer) e seu macaco de estimação. No entanto, ser os únicos com o cromossomo Y no mundo irá colocá-los no centro da atenção de toda a humanidade e Yorick terá que encontrar uma forma de viver nesse complicado novo mundo. Enquanto isso, sua mãe, a senadora Jennifer Brown (Diane Lane) precisará tomar as rédeas da situação e controlar o pânico social quando se torna a presidente dos EUA.”

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