Um estudo da revista Nature revela que a superfície de Marte foi amplamente formada por lagos e inundações, que penetraram em diversos pontos e formaram lagos fluviais. Tais lagos criaram vales imensos que perduram até hoje, mesmo após o planeta estar majoritariamente seco.

O efeito é conhecido por cientistas como “erosão fluvial” – quando o movimento contínuo da água desgasta determinadas superfícies, dando-lhes nova forma. No caso do planeta vermelho, isso ocorreu em torno de 3,7 bilhões de anos atrás, quando a presença de água em Marte era abundante.

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Buraco feito pelo rover Perseverance no solo marciano
Buraco feito pelo rover Perseverance no solo marciano. Aspecto desértico da superfície de Marte esconde o fato de que, há bilhões de anos, águas fluviais, correntes de rios em lagos e inundações tiveram papel importante na formação geológica do planeta vermelho. Imagem: Nasa/Divulgação

Como sabemos, a atmosfera fina de Marte não a protegeu de uma eventual “seca” causada, em grande parte, pela radiação solar, dando-lhe o aspecto desértico que conhecemos hoje. Entretanto, diversas observações da Nasa e de outras agências espaciais provaram que não só a superfície do planeta, mas também diversos pontos internos, contaram com corpos de água consideravelmente grandes – a missão do rover Perseverance, por exemplo, é a de examinar uma cratera (Jezero) que já armazenou uma imensa bacia hidrográfica e pode ter resquícios de vida bacteriana antiga.

O estudo da Nature, porém, se concentra na formação da superfície de Marte, uma ciência atribuída à geologia. Timothy Goudge, professor assistente do departamento de ciências geológicas da Universidade de Texas-Austin, liderou um grupo de pesquisadores que examinou imagens de mais de 260 crateras em Marte, e a conclusão imediata foi a de que, de acordo com as observações obtidas, nem todos os rios no planeta vermelho chegavam a lagos, mas sim percorriam a superfície, criando vales fluviais.

“O registro geológico da história primária de Marte preserva evidências de atividade aquática na superfície, que, por meio da erosão, causaram vales fluviais e preencheram bacias hidrográficas – incluindo algumas áreas do tamanho de pequenos mares na Terra”, diz trecho do estudo.

“Nós demonstramos”, continua o texto, “a importância global das inundações de lagos, afirmando que elas foram responsáveis pela erosão de pelo menos 24% do volume de vales penetrados do Marte antigo, ainda que isso represente apenas 3% da extensão total dos vales. Nós concluímos que essas inundações foram um processo geomórfico majoritário que foi responsável pela criação de vales fluviais, o que por sua vez influenciou a formação topográfica de muitos sistemas hidrográficos e da evolução da superfície, sobretudo os planaltos e crateras”.

A grosso modo: os grandes lagos de Marte constituem grandes crateras formadas pelo impacto de asteroides, que deixaram depressões profundas na superfície. Essas depressões acabaram preenchidas pela água corrente de rios próximos. Entretanto, isso não parou por aí, já que, em alguns casos, os lagos transbordaram, gerando novos rios que foram escavando vales ao redor das depressões. Isso explica, por exemplo, porque alguns canyons são imensamente profundos, mas com rachaduras adjacentes mais elevadas.

Diversos esforços para entender o papel dos vales fluviais na formação da superfície de Marte já foram conduzidos no passado, mas o estudo representa o primeiro estudo global do assunto. A expectativa é a de que ele sirva de base para missões presentes e futuras que busquem desvendar mais mistérios sobre o planeta vermelho.

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