A história de superação de um ciclista de Ribeirão Preto que foi baleado e passou três meses em coma se tornou uma superprodução brasileira. O documentário, intitulado ‘1538°C – The Iron Human’, irá mostrar a longa trajetória de Sérgio Buonarotti, que teve sua vida marcada numa manhã de sábado de 2011 após ser assaltado e baleado enquanto treinava com um grupo de cliclistas.

Primeira obra produzida pela novata Grattitude Filmes, o longa tem como diretor e roteirista Lucas Bretas e na coordenação executiva, o jornalista Samuel Prisco. A obra remonta por meio de depoimentos, imagens e encenações, o drama vivido pelo player do mercado financeiro e promete emocionar e estimular o público ao exibir desde sua entrada no Hospital das Clínicas, vítima de uma bala que transfixou o tórax, até a disputa da prova de Iron Man, seis anos depois, em Florianópolis – prova que dá nome a produção e é uma das que mais exigem preparo físico.

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Buonarotti passou quatro meses internado, desses, três foram em coma. Realizou 64 cirurgias e precisou lidar não apenas com a recuperação física, mas psicológica. Em entrevista exclusiva ao Olhar Digital, o personagem central da produção contou que, de acordo com especialistas, seu caso foi excepcional e raro e, no início, não queria divulgar a história, mas logo percebeu que se tratava de algo que poderia inspirar e ajudar outras pessoas.

História de quase morte de atleta baleado vira documentário: “É um homem de ferro”. Imagem: Grattitude Films/Divulgação

“Logo que eu saí do hospital, a imprensa me procurou pra que eu contasse a história da minha recuperação e o que tinha se passado. Eu , na verdade, nunca gostei muito disso então até onde eu pude, eu fiquei quietinho, mas um dia, um dos médicos do meu tratamento me convenceu do seguinte: ‘Olha, Sergio, a sua história é uma boa história e você deveria contar, porque é o prêmio maior para todos que te ajudaram e participaram dessa recuperação'”, contou o atleta, salientando a gratidão que sente por toda ajuda que recebeu dos médicos, família e amigos.

Ainda de acordo com o ciclista, mesmo com a gravidade do caso e o longo período de recuperação, tratamentos e fisioterapias, ele não teve nenhuma sequela, mesmo com as diversas perdas de órgãos.

“Não fiquei com sequela nenhuma, apesar de ter perdido o rim esquerdo, o baço, a vesícula, metade do estômago, eu tive algumas lesões intestinais também e perdi um pedaço do pâncreas, mas não fiquei com sequela nenhuma. Tanto que eu consigo participar de provas normalmente, eu as escolho de acordo com a minha conveniência, eu não tenho complicação nenhuma”, contou.

A construção de um título emblemático

De acordo com Samuel Prisco, o título é simbólico e faz alusão a temperatura de fusão do ferro (1538°), um dos componentes sólidos mais resistentes da natureza. Já o ‘Iron Human’ foi uma adaptação da prova Iron Man, onde os produtores conheceram o atleta.

Impossível também não relacionar o nome ao super-herói ‘Homem de Ferro’, representado pelo personagem Tony Stark, empresário, gênio e bilionário que constrói uma armadura de ferro de última geração e passa a resolver crimes e ajudar pessoas.

“O Sergio de verdade é um homem de ferro, né. São 64 cirurgias, não é para qualquer um, a gente brinca que ele corre e nada bem porque ele tem menos peso que os outros, já que tirou o baço, pâncreas, intestino, enfim, ele é, realmente, um ser humano de ferro, então 1538 foi uma alusão a tudo isso”, explicou o produtor.

Prisco também revelou a densidade da construção técnica do documentário, devido à falta de material visual do campeonato ‘Iron Man’, por exemplo. No entanto, a equipe conseguiu “resgatar dos celulares antigos da família” conteúdos para o projeto e o restante ficou por mérito das ideias e improvisos que possibilitaram contar da forma mais completa a trajetória do atleta.

“Nós temos mais de 100 horas de imagens captadas, não só das 23 entrevistas do filme, mas também das externas que fizemos em São Paulo, Florianópolis e Ribeirão Preto. Durante todo o período que o Sergio está em recuperação, nós temos um vácuo porque a família, obviamente, estava preocupada em recuperá-lo, então toda essa parte nós conseguimos fazer a dramatização no Hospital das Clínicas com a ajuda do Sergio e um dublê, muito parecido com ele. Nós conseguimos construir seis anos, desde o tiro até a recuperação total com a ida dele ao Iron Man”, explicou, ressaltando a importância de produzir uma história forte e que mexeu, inclusive, com os profissionais que atuaram na produção.

História de quase morte de atleta baleado vira documentário. Imagem: Grattitude Films/Divulgação (Samuel Prisco à esquerda e Lucas Bretas à direita)

“No meu caso e do Lucas, nós somos pessoas que adoramos esportes. Então a gente tem essa veia esportiva ligada à superação e resiliência. A história do Sergio tem isso como carro-chefe, mas o pano de fundo que me deixa é a gratidão que o Sergio teve com as pessoas que cuidaram dele. Ele fala muito inclusive nas palestras que ele faz que houve um tratamento não só do corpo, mas da alma, e isso deixou a ele uma lição muito grande, a lição da gratidão. isso nos ajudou a terminar o filme, porque diante de todas as dificuldades que o cinema brasileiro oferece, a gente pensou em desistir, mas ao olhar a história do Sergio, se ele não desistiu por que nós desistiríamos?”, refletiu o coordenador.

“O personagem é um exemplo vivo do triunfo sobre as desventuras e nos proporciona a lição de que na vida precisamos ter resiliência para superar o adverso. Sérgio poderia ter padecido caso tivesse se entregado, mas em vez disso, foi determinado a virar o jogo”, acrescentou o diretor, Bretas.

Hoje, exatos 10 anos após o ocorrido, Sergio fala da tragédia como um ponto transformador em sua vida. Para ele, o intuito do documentário não é apenas alcançar pessoas, mas fazer com que elas se vejam, participem e, com isso, possa tirar uma lição.

“Pra mim é um prazer pode dividir a história, mas não a minha história pessoal, a história de uma reunião de pessoas que tinham um objetivo e o atingiram. Com certeza, as pessoas que assistirem, vão lembrar de algum fato, alguma passagem na família ou amigos e vão entrar na nossa história e participar dela”, afirmou.

O ‘1538°C – The Iron Human’ tem lançamento previsto para novembro de 2021. A equipe também se prepara para a participação em festivais pelo país e no exterior.

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A Grattitude Films

A Grattitude Filmes foi projetada e estruturada pela iniciativa de seu diretor, Lucas Bretas e, mais tarde, cresceu em força de trabalho e tamanho com a chegada de seu diretor executivo, Samuel Prisco. 

Experientes na produção jornalística por suas habilidades desempenhadas durante 20 anos em emissoras de TV em diversas partes do Brasil, a dupla costuma dizer que a produtora nasceu das reportagens especiais, que os ensinaram a contar as melhores histórias, com profissionalismo, além da união de bons ideais.

“A criação da Grattitude nos afirmou que pessoas boas podem se juntar para um propósito bom”, admite Bretas. “Saber que nossa ideia inicial se ampliou de um curta para um longa e que passado tanto sofrimento, horas e mais horas longe da nossa família, hoje podemos nos orgulhar de sermos portadores de uma história para contar. Uma história além da própria história.”

Segundo Prisco, o nicho da produtora é contar boas histórias, como a do Sergio, e a equipe já tem no papel novas produções que, no olhar da empresa, precisam ser contadas.

“Boas histórias atraem boas histórias, a gente já tem duas ótimas histórias para contar, uma delas posso adiantar, é da Dona Cotinha de Araraquara, uma senhora que morou mais de 60 anos no hospital da cidade”, adiantou o produtor.

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