No Aquário de Shedd, em Chicago, EUA, um crime vinha ocorrendo repetidas vezes: os pesquisadores jogavam na água remédios para os peixes, a fim de garantir que novos animais não entrassem com patógenos selvagens que infectassem os que já estavam em cativeiro. Entretanto, não importava o que eles fizessem, os medicamentos continuamente sumiam antes de fazer efeito.

Desesperados, os pesquisadores acionaram os microbiólogos da Universidade Northwestern e, depois de muita análise, finalmente, a força-tarefa chegou a um suspeito. Ou melhor: vários suspeitos.

publicidade

Leia também:

Imagem mostra o Aquário de Shedd, nos EUA, onde micróbios roubavam os remédios de peixes
O Aquário de Shedd, em Chicago, é a casa de tubarões, lontras, tartarugas, corais, cavalos-marinhos, pinguins e vários outros animais, e todos são tratados com medicação que micróbios estavam roubando dos tanques (Imagem: Shedd Aquarium/Divulgação)

Micróbios. Uma família inteira deles. Especificamente, micróbios que se alimentam de nitrogênio – e eles estavam com bastante fome.

“Carbono, nitrogênio, oxigênio e fósforo são necessidades básicas que tudo e todos precisam para viver”, disse Erica M. Hartmann, microbióloga da universidade, e co-autora do paper. “Neste caso, parece que os micróbios estavam usando os remédios como fonte de nitrogênio. Quando examinamos a forma como as medicações se degradaram, descobrimos que as parte das moléculas contendo nitrogênio haviam sumido. Comparativamente, isso é como comer só o picles de um cheeseburguer e deixar o resto para trás”.

O processo medicinal de tratamento do Aquário de Shedd é rotineiro: sempre que um novo animal é recebido, é necessário um período de quarentena antes de movê-lo à residência permanente. Assim, veterinários observam o novo inquilino, procurando sinais de doenças ou parasitas sem ter que se preocupar com os outros bichos.

Durante essa quarentena, todos os animais recebem fosfato de cloroquina, uma medicação comum para tratar de parasitas (sim, é parente daquela cloroquina que pesquisas demonstram não funcionar contra a Covid-19). O remédio é dissolvido na água como forma de terapia de proteção clínica para os residentes do aquário. Quando a medicação é dissolvida, os pesquisadores testam a sua concentração ao retirar amostras da água.

Foi nessa hora que perceberam o problema.

“Eles precisam manter uma certa concentração para tratar os animais de forma eficaz”, disse Hartmann. “Mas eles perceberam que a cloroquina estava sumindo misteriosamente. Eles dissolviam a quantia correta, mas a medida mostrava uma concentração menor que a esperada – a ponto de o remédio simplesmente não funcionar”.

Após análise de laboratório, Hartmann e sua equipe identificaram 754 tipos diferentes de micróbios. “Obviamente, há micróbios na água, mas também há micróbios que grudam nas superfícies”, comentou Hartmann. “Quem tem um aquário em casa provavelmente já notou aquele ‘limo’ brotando nas laterais e paredes. Normalmente, as pessoas jogam lesmas ou peixes que comem algas para fazer a limpeza disso. Então buscamos estudar o que estava na água que poderia grudar nas paredes”.

Dos 754 micróbios identificados, 21 eram suspeitos do “crime”: todos pertenciam aos filos Actinobacteria, Bacteroidetes, Chloroflexi e Proteobacteria e estavam se proliferando no encanamento que levava aos tanques. A solução, porém, foi mais pesada do que uma simples “descarga”: como os micróbios estavam afixados nas paredes dos encanamentos, foi necessário fechar os encanamentos, transferir os animais para outros tanques, e esfregar – “no braço”, como diz a expressão – os canos infestados.

Ao menos agora está tudo em ordem, os animais estão medicados e a força-tarefa – digna de um episódio do seriado “CSI”, publicou um paper do caso no jornal científico Science of the Total Environment.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!