Em uma tentativa de aliviar os problemas causados pelo aquecimento global, cientistas de várias instituições estão buscando plantas antigas, que antecedem a cultura agrícola moderna, para criar híbridos de culturas-chave como batatas, milho, café ou arroz que sejam mais resistentes ao aumento da temperatura média da Terra.

A agricultura atual é fruto de milênios de manipulação genética (inicialmente indireta, e mais recentemente direta), a fim de maximizar a produtividade de alimentos em condições específicas de crescimento. Por um lado, isso nos ofereceu a vantagem de selecionar frutas e vegetais e tornar a prática rentável. Por outro, isso os enfraqueceu contra temperaturas extremas – e com o aquecimento global em pleno avanço, as estimativas indicam que boa parte das fazendas e terras cultiváveis podem deixar de existir em alguns anos.

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Imagem de várias sementes de café seguradas por duas mãos. A ideia é simbolizar o impacto do aquecimento global, e como plantas antigas e selvagens podem prevenir a falta de comida
Sementes de café correm risco de severa redução na produtividade decorrente do aquecimento global, mas sementes selvagens que antecedem a agricultura moderna podem guardar respostas para a sua manutenção (Imagem: Moch Ilham Ramadhani/Shutterstock)

“Quando você seleciona ‘apenas as melhores características’ (como maior volume de colheita), você abre mão de alguns tipos de genes”, disse Benjamin Kilian, líder do Projeto Crop Wild Relatives. “Nós perdemos a nossa diversidade genética durante a nossa história de domesticação… por isso, o potencial do cultivo de elite para se adaptar ao futuro — mudanças climáticas e outros desafios — é bem limitado”.

Segundo uma pesquisa do Centro Internacional da Batata, há uma expectativa de queda de 32% na colheita do tubérculo – tanto a batata comum como a batata doce – até 2060, por conta do aquecimento global. Outras estimativas apontam a perda de 50% dos terrenos de cultivo de café antes de 2050.

O cultivo de arroz, por sua vez, é ao mesmo tempo ameaça e ameaçado: por um lado, plantações do grão expelem imensas quantidades de metano, um dos gases que contribuem para a mudança climática junto do gás carbônico. Por outro, o aquecimento global causado por esses gases gera elevação do nível do mar, o que pode aumentar a salinidade da água usada no cultivo futuro de arroz.

A resposta para isso, segundo Kilian, é reintroduzir formas mais antigas de vegetação e plantio, já que, por existirem antes da nossa manipulação genética, elas são em tese mais resistentes a grandes mudanças climáticas.

Por isso, projetos como o Banco do Milênio para Sementes (Millenium Seed Bank Project), nos Jardins Botânicos de Kew, em Londres; ou o Cofre Global de Sementes, em Svalbard, na Noruega, são de extrema importância para esses cientistas: o banco britânico tem mais de 40 mil sementes protegidas – algumas, bem antigas -, enquanto a Noruega resguarda um cofre com capacidade para 45 milhões de sementes (ele foi criado para cenários de fim de mundo, onde a comida já estaria bem escassa).

O Cofre Mundial de Sementes, em Svalbard, na Noruega, pode resguardar milhões de sementes para cenários apocalípticos onde a falta de alimentos e plantio agrícola trazem escassez (Imagem: Borkowska Trippin/Shutterstock)

Kilian, porém, alerta: “nem todos os parentes selvagens das plantas estão nesses bancos”.

“Nós vamos precisar de toda a biodiversidade possível, pois ela reduz riscos e oferece opções”, disse a expert em agricultura Marleni Ramirez do Instituto Biodiversity International.

O problema é que isso constitui uma corrida contra o tempo, onde o nosso desempenho é baseado inteiramente na sorte: Aaron Davis, botanista do Millenium Seed Bank, disse ter encontrado, com seus colegas, um tipo de café selvagem em Serra Leoa que é mais resistente a clima extremo que as sementes que vemos nas plantações comuns.

E segundo o próprio, esse achado foi, como diz a expressão, “aos 45 do segundo tempo”: “se fôssemos a Serra Leoa 10 anos mais tarde, provavelmente [essa semente] estaria extinta”, disse Davis. “De 124 espécies de café, 60% estão ameaçadas de extinção, incluindo aquelas que poderemos usar para criar versões mais resistentes de café”.

Diante disso tudo, é importante relembrar que plantas selvagens não podem ser adaptadas ao volume de plantio e colheita gerado pela agricultura moderna. Se tentássemos algo do tipo, nós estaríamos apenas recriando o mesmo problema. Em outras palavras, nós teremos que nos acostumar com um volume menor de comida disponível em ciclos maiores de plantio.

Isso é especialmente importante: segundo a ONU, ainda que a Terra tenha mais ou menos 50 mil espécies vegetais comestíveis, três delas correspondem a 60% da produção alimentícia por todo o planeta: arroz, milho e trigo. Se o aquecimento global reduzir (ou pior, sumir com) a presença deles, bilhões de pessoas poderão se ver com menos comida, e muitos fazendeiros serão forçados a procurarem novos produtos para produção, adicionando mais peso ao problema.

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