O núcleo da Terra, localizado a 5150 km abaixo da superfície, pode ser, ao mesmo tempo, duro e mole, de acordo com nova pesquisa publicada pelo jornal científico Physics of the Earth and Planetary Interiors – desafiando um consenso científico presente desde os anos 1950, que afirma que nosso centro consiste de uma esfera sólida de ferro envolta em metal líquido.

Assim como todo estudo pertinente ao núcleo da Terra, esse também tem caráter de observação, uma vez que, para provar se é “duro”, “mole” ou ambos, precisaríamos descer até lá. A pressão e a temperatura, porém, impossibilitam a viagem para qualquer ser vivo ou mesmo máquina.

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Ilustração simbolizando o núcleo da Terra, que estudo indica ser ao mesmo tempo duro e mole
Segundo o consenso científico, o núcleo da Terra seria feito de uma esfera sólida de ferro, mas um novo estudo desafia essa percepção e sugere que ele tem partes “moles” (Imagem: Johan Swanepoel/Shutterstock)

Não que isso tenha impedido Rhett Butler, geofísico da Universidade do Havaí, de usar ondas de choque causadas por terremotos ocorridos no manto (a “segunda” camada que forma o nosso planeta, depois da crosta e antes do núcleo em si) para fazer a afirmação que permeia o estudo cuja autoria assina:

“[Observações] iluminadas por terremotos na crosta e parte superior do manto, que são observadas por laboratórios sísmicos na superfície da Terra, oferecem o caminho mais direto, hoje, de observar o nosso núcleo interno e seus processos”, disse Butler.

O estudo da sismologia – ou seja, a análise de ondas de choque de terremotos – leva em consideração a mudança na velocidade de propagação dessas ondas, avaliando como elas rebatem ou refratam das superfícies com as quais se chocam. Muito disso é mais voltado ao cálculo médio de distância, mas há aplicações dessa ciência em outras propriedades também.

Neste estudo, Butler, junto de Seiji Tsuboi, cientista da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marítima Terrestre, usaram dados vindos de sismógrafos diametralmente opostos à localização de onde um terremoto foi gerado. Usando um supercomputador de simulação sismográfica, eles estipularam pares de nações com e sem terremotos: Tonga–Argélia, Indonésia-Brasil e outras três análises considerando Chile–China.

“Em evidente contraste ao modelo homogêneo de ligas de ferro da Terra, nosso estudo sugere que há regiões alternadas entre teor duro, macio e líquido ou pastoso nos primeiros 241,5 km do núcleo (de cima para baixo)”, disse Butler. “Isso posiciona novas características no histórico de composição, temperatura e evolução da Terra”.

Em outras palavras, pense na cabeça de um bebê: o topo do crânio ainda é relativamente mole (popularmente, o nome que se dá a isso é “moleira”). A diferença é que a moleira do bebê vai endurecer o núcleo da Terra não.

O estudo traz um peso considerável ao entendimento da dinâmica de funcionamento do nosso núcleo, uma vez que ele é responsável pelo campo magnético do planeta. Se sua composição muda, então talvez o nosso entendimento desse campo também precise ser revisado.

“O conhecimento dessa condição pela sismologia pode nos levar a um modelo preditivo melhor e mais aprofundado do campo geomagnético, o qual protege a vida do nosso planeta”, disse Butler.

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