Agora é oficial: o veículo de exploração terrestre (rover) Perseverance está de fato transitando por uma área em Marte que, há bilhões de anos, já teve um enorme lago, bem como o delta de rios, confirmando suposições feitas pela Nasa ao optar pela chamada Cratera Jezero como ponto de pouso e desembarque do robô.

O Perseverance chegou à Cratera Jezero em fevereiro deste ano, com suposições da Nasa falando em um possível grande lago na área. De imediato, o robô, que tem mais ou menos o tamanho de um carro popular, tirou diversas fotos que serviram de base para um novo estudo, que confirmou a teoria da agência espacial americana.

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Imagem mostra o "Kodiak", uma formação rochosa fotografada pelo rover Perseverance em Marte, onde um estudo comprovou já ter existido um lago há bilhões de anos
A formação rochosa “Kodiak”, que, segundo estudo, possui sedimentações que só são possíveis de serem depositadas por um rio em um delta (Imagem: NASA/JPL-Caltech/LANL/CNES/CNRS/IRAP/LPG/ASU/MSSS)

“Antes de dirigir para qualquer lugar, o Perseverance conseguiu resolver um dos grandes mistérios de Marte, que era a dúvida de que a região já teve ou não um lago”, disse Benjamin Weiss, professor de ciências planetárias no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e co-autor do estudo. “Até a nossa aterrissagem e confirmação, isso sempre foi uma pergunta constante”.

A conclusão do estudo reforça a credibilidade da missão primária a ser desempenhada pelo Perseverance em Marte: ao atravessar a região do agora confirmado antigo lago, o veículo de exploração terrestre deve coletar diversas amostras de núcleos rochosos “de todas as pedras” interessantes que encontrar em seu caminho. O objetivo é armazenar essas amostras para que, em uma missão futura, a Nasa as recolha e as traga de volta à Terra, analisando-as em busca de sinais de vida antiga.

Como agora a presença de água em Marte é um fato e não mais uma suposição, a possibilidade de vida bacteriana – comum em ambientes líquidos (como um imenso lago, por exemplo) – ganha um reforço mais consistente.

O novo estudo foi publicado hoje (7), no jornal Science. Os pesquisadores do time de Weiss analisaram imagens feitas pelo Perseverance por meio de sua suíte fotográfica Mastcam-Z, bem como o instrumento conhecido como SuperCam. A imagem mostra claramente uma formação triangular – a mesma de um delta de rio -, além de uma colina com topo verticalizado que a Nasa apelidou de “Kodiak”.

A imagem de “Kodiak” foi essencial para a confirmação: nela, os pesquisadores identificaram camadas distintas de sedimentação cujos depósitos só podem ter sido feitos por um rio que corria em direção a um lago. Na marinha, “delta” é o nome dado ao encontro das águas de um rio com uma formação aquática maior, como um lago ou um mar.

“[As observações do Kodiak] mostram sem nenhuma dúvida um depósito de sedimentos de rio com a presença de um delta e de um lago”, disse o co-autor Nicolas Mangold, da Universidade Francesa de Nantes. “Isso nos ajuda a estimar o nível do lago e construir um cenário de formação do delta e atividade aquática ao longo do trajeto do Perseverance, mas também a identificarmos as camadas corretas para analisar suas amostras”.

O Perseverance conseguiu coletar duas amostras de núcleo rochoso de Marte em 2 de setembro, após uma tentativa anterior resultar em falha devido à amostra coletada estar degradada demais e não ter se sustentado até ser colocada no contêiner. A Nasa escolheu o local de pouso após observações feitas pelo seu Orbitador de Reconhecimento, que viu, do espaço, uma cratera com uma forma triangular distinta, que foi corretamente interpretada como um delta de rio.

Uma observação interessante é a de que o antigo lago da Cratera Jezero estaria situado há mais ou menos 100 metros abaixo do que sugeriam os dados capturados pelo orbitador, o que os pesquisadores dizem que “marcou uma fase do delta bem depois do começo de sua formação”. “Nós não podemos extrapolar até o início da evolução de Jezero, antes do depósito de sedimentos vistos no Kodiak, porque as camadas correspondentes estão escondidas ainda mais à frente no delta”, disse Mangold. “Mas o Perseverance pode nos trazer mais resultados sobre isso assim que ele chegar naquela área”.

Como você já sabe, Marte, hoje, é majoritariamente desértico, com algumas tímidas camadas de gelo em seus pólos. A estimativa de especialistas é a de que o planeta vermelho secou por completo há cerca de 3,5 bilhões de anos, quando o seu campo magnético se esgotou inteiramente e sua atmosfera, outrora bem grossa, se afinou e tornou-se vulnerável a ataques diretos de radiação de partículas solares, que passaram a chegar na superfície sem um “filtro”.

No presente momento, o rover Perseverance – bem como todos os outros artefatos humanos (os rovers Curiosity e Zhurong e o mini helicóptero Ingenuity) – estão em uma espécie de “quarentena de comunicações”: pela rotação de Marte, todos eles estão agora no lado oposto ao Sol, em relação à Terra e isso pode corromper as comunicações entre as agências e suas tecnologias distantes. Os trabalhos devem retornar em torno de duas semanas.

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