Ted Sarandos, CEO da Netflix, saiu em defesa do humorista Dave Chappelle após uma fala do comediante no especial de stand-up lançado recentemente na plataforma, ‘The Closer’ (‘Encerramento’, no Brasil – assista o trailer abaixo), ser considerada transfóbica por parte do público e entidades que defendem os direitos LGBTQIA+.

O executivo declarou em um e-mail interno, obtido pela revista Variety, que o último especial do comediante, ‘Sticks & Stones’, também foi considerado “controverso” por parte dos telespectadores, mas que o serviço de streaming trabalha para “apoiar a liberdade criativa” do artista – “ainda que isso signifique que sempre haverá conteúdos na Netflix que algumas pessoas acharão nocivo”.

publicidade

Sarandos ainda afirmou que Chappelle é um dos comediantes mais populares atualmente e que a plataforma tem um acordo de longo prazo com ele. Ele disse que, apesar dos pedidos, não deletará “The Closer” do serviço de streaming.

“Nunca é uma boa sensação quando pessoas estão sofrendo, especialmente os nossos colegas, então eu quis dar a vocês algum contexto adicional”, escreveu o CEO da Netflix. “Vocês devem estar avisados que algum talento pode se unir a terceiros para nos pedir para remover a produção nos próximos dias, o que não faremos”.

“Nós não permitimos que títulos no catálogo da Netflix sejam pensados para para incitar ódio ou violência, e não acreditamos que ‘The Closer’ cruze essa linha. Eu reconheço, entretanto, que distinguir entre comentário e ataque é difícil, especialmente com stand-up comedy, que existe para confrontar limites”, argumentou Sarandos. “Externamente, particularmente em stand-up de comédia, a liberdade artística é obviamente bem diferente do que permitimos internamente, já que os objetivos são diferentes: entreter pessoas contra manter um espaço de trabalho respeitoso e produtivo”.

Especial polêmico de Dave Chappelle: entenda o caso

Lançado na últimate terça-feira (5) pela Netflix, ‘Encerramento’ virou alvo de entidades que defendem os direitos LGBTQIA+. No stand-up gravado para o streaming, Chappelle faz comentários considerados transfóbicos, o que motivou a Coalizão Nacional da Justiça Negra (NBJC) a solicitar que a plataforma tirasse o programa do ar.

Leia mais:

Considerado um dos principais humoristas de stand-up dos Estados Unidos e do mundo, o artista prometeu que ‘Encerramento’ seria o último especial de comédia na carreira. Contudo, na atração, ele foi acusado de rebaixar transexuais ao afirmar que “o gênero é um fato”, decidido no momento em que uma criança nasce.

Chappelle ainda afirma que os órgãos genitais de mulheres trans “não são exatamente o que deveriam ser” e ainda defende a autora J.K. Rowling, escritora da saga ‘Harry Potter’ – que também foi duramente criticada por transfobia após escrever no Twitter que “pessoas que menstruam” só podem ser mulheres, negando assim a existência de homens trans.

Ainda no especial, o humorista se inclui no time das “Terfs” (sigla em inglês para feministas radicais trans-excludentes) e questiona o motivo do rapper DaBaby ter sido “cancelado” pelas redes sociais após fazer comentários homofóbicos, mas não quando havia assassinado outro músico. “No nosso país, você pode atirar e matar um negro, mas é melhor não ofender os sentimentos de um gay”, alfinetou.

A Aliança Gay e Lésbica Contra a Difamação (Glaad, na sigla em inglês) expressou indignação com ‘Encerramento’ por meio das redes sociais. “A marca [de humor] de Dave Chappelle se tornou sinônimo de ridicularização de pessoas trans e outras comunidades marginalizadas. Análises negativas e a opinião de espectadores que condenam seu último especial devem servir de mensagem para a indústria que o público não apoia mais retóricas anti-LGBTQIA+. Nós concordamos”, disse.

Por sua vez, a NBJC enviou uma carta assinada pelo diretor-executivo da entidade, David Johns, solicitando que a plataforma de streaming retire o especial do ar o quanto antes. “É decepcionante que a Netflix tenha permitido que a transfobia e a homofobia hostis e preguiçosas de Dave Chappelle fossem ao ar na plataforma”, afirmou.

“2021 caminha para ser o ano com mais mortes registradas de pessoas transgênero nos EUA, a maioria delas negra, a Netflix deveria ser melhor do que isso. Perpetuar a transfobia perpetua a violência. A plataforma deveria tirar o especial do ar imediatamente e pedir desculpa à comunidade trans”, concluiu.

Netflix teria suspendido funcionária trans por críticas

Em meio à polêmica toda envolvendo Ted Sarandos e Dave Chappelle, uma engenheira de software da Netflix que é transsexual, Terra Field, afirmou no Twitter ter sido suspensa do trabalho após rebater as piadas consideradas preconceituosas do humoristas nas redes sociais.

“Eu trabalho na Netflix. Ontem, lançamos outro especial de Chapelle onde ele ataca a comunidade trans e a validade da identidade trans, tudo enquanto nos tenta colocar contra outros grupos marginalizados. Você vai ouvir muito sobre ‘ofensa’. Nós não estamos ofendidos”, escreveu Field, antes de listar em diversos tweets o nome de diversas vítimas de violência motivada por transfobia.

Em nota enviada ao site The Verge, o serviço de streaming negou veementemente que esse tenha sido o motivo da suspensão, apontando como “razão verdadeira” uma tentativa da engenheira de comparecer a uma reunião reservada apenas a diretores. Além dela, outros dois funcionários também teriam sofrido penalidades.

Fontes: Variety (1 e 2) e The Verge

Já assistiu aos novos vídeos no YouTube do Olhar Digital? Inscreva-se no canal!