Ficar tempo demais no espaço – como fazen alguns astronautas a bordo da ISS – pode trazer danos permanentes no cérebro, segundo um novo estudo publicado no JAMA Neurology, publicação médica especializada no estudo da neurologia.

A pesquisa começou com trabalhos de neuroimagem feitos pela Universidade Ludwig Maximilian em Munique, na Alemanha; e colaboração da Universidade de Gotemburgo (Suíça) e cientistas independentes da Rússia, que avaliaram a integridade da estrutura cerebral em astronautas que voltaram do espaço, concluindo que praticamente todos os tecidos relevantes do cérebro são potencialmente afetados.

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Ilustração mostra um cérebro iluminado por várias cores, simbolizando danos causados por viagens ao espaço
Viagens ao espaço podem representar um risco à saúde cerebral dos astronautas, de acordo com novo estudo (Imagem: Yurchanka Siarhei/Shutterstock)

Segundo o estudo, os cientistas usaram marcadores sanguíneos para examinar o tecido cerebral de astronautas que passaram em média 170 dias no espaço, a bordo da Estação Espacial Internacional. Por parâmetro de segurança, um viajante do espaço que vai à estação tem que retirar amostras de sangue antes e depois da viagem, e mais uma amostra três semanas após o retorno.

“Isso nos deu uma janela detalhada e sem precedentes para analisar a saúde estrutural do cérebro por meio desses marcadores”, disse o professor Peter zu Eulenburg, de Gotemburgo. Segundo ele, as análises mostraram um considerável aumento de proteínas específicas do cérebro nas comparações de amostras antes, após e semanas depois da viagem.

Tais proteínas indicam uma lesão das fibras nervosas na chamada “massa branca”, bem como nos seus tecidos de suporte (“glia”), e na referida “massa cinzenta”, uma queda proteica. Um desses aumentos refere-se à proteína beta-amilóide, que durou por todas as três semanas do tempo de estudo. No lado cinzento, a proteína “tau” registrou queda se comparada aos níveis anteriores às missões. Eulenburg argumenta que essa disparidade denuncia reações de todo o cérebro, e não apenas de uma ou outra parte.

“Ao serem agrupados, nossos resultados indicam uma lesão cerebral leve, mas de longa duração e, potencialmente, neurodegeneração acelerada”, disse o especialista. “Todos os tecidos relevantes do cérebro parecem ser afetados”.

“Neurodegeneração” é o nome aplicado por neurologistas ao desgaste – natural ou não – dos neurônios, que vão perdendo capacidade com o passar dos anos. O efeito é natural do ser humano à medida em que ele envelhece, mas alguns distúrbios cerebrais podem acelerar esse processo. A neurodegeneração é um dos principais sintomas em casos como Alzheimer, Parkinson e Huntington.

O problema, segundo especula o estudo, pode residir na microgravidade: os autores afirmam que ela perturba o fluxo de sangue venoso para e da cabeça. Especificamente, os mecanismos que conduzem esse fluxo podem levar a um aumento na pressão exercida sobre as massas branca e cinzenta ao longo do tempo.

“Ainda são necessários maiores estudos sobre formas de combater esses efeitos no cérebro humano, a fim de minimizar riscos inerentes às missões de longa duração – especialmente, antes de planejarmos uma viagem tripulada para Marte”, disse Eulenburg.

A colonização do planeta vermelho não é mencionada casualmente: a própria Nasa admitiu que estima uma viagem com tripulação humana para Marte a partir de 2030, e já existem estudos que simulam as condições de vida por lá aqui na Terra, bem como pesquisas sobre a construção de moradia usando materiais especiais.

Nada disso, porém, deve avançar se nossos astronautas chegarem lá com problemas cerebrais: a pesquisa considerou missões com duração média de 170 dias, mas somente a ida até Marte levaria em torno de 440 dias – 100 dias a mais que o dobro do período estudado. E isso, considerando apenas a viagem, excluindo os possíveis efeitos que a vivência em um planeta diferente pode nos trazer.

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