Se hoje Vênus pode ser considerado uma espécie de “gêmeo mau” da Terra, estudos apontam que pode nem sempre ter sido assim. O planeta, hoje totalmente hostil, com uma atmosfera altamente carregada de CO2 espesso, além de temperatura e pressão extremas na superfície e nuvens de ácido sulfúrico, antes poderia ter um ambiente totalmente diferente, contando até com oceanos de água líquida.

Conforme salienta o site Phys, as semelhanças com o nosso planeta limitam-se à massa e tamanho próximos, à superfície rochosa e ao fato de ter uma atmosfera, diferentemente de outros.

publicidade
Condições atmosféricas de Vênus, bem como sua temperatura extrema, não são favoráveis à retenção de água líquida. Diversos estudos querem saber se sempre foi assim. Imagem: Limbitech – Shutterstock

Diversos estudos já sugeriram que Vênus pode ter sido um lugar muito mais hospitaleiro no passado. No entanto, uma equipe de astrofísicos liderada pela Universidade de Genebra (UNIGE) e pelo Centro Nacional de Competência em Pesquisa (NCCR) PlanetS, na Suíça, investigou se ele realmente já teve períodos mais amenos. Os resultados, que foram publicados em um artigo na revista Nature, sugerem que não.

Missões de exploração espacial em Vênus são fundamentais para conclusão dos estudos

Vênus se tornou recentemente um importante tópico de pesquisa para astrofísicos. A ESA e a Nasa decidiram este ano enviar nada menos do que três missões de exploração espacial ao longo da próxima década para o segundo planeta mais próximo do Sol. Uma das principais questões que essas missões visam responder é se Vênus já hospedou ou não oceanos primitivos. 

A pesquisa conduzida por astrofísicos liderados por Martin Turbet, pesquisador do Departamento de Astronomia da Faculdade de Ciências da UNIGE e membro do NCCR PlanetS, tentou responder a essa pergunta com as ferramentas disponíveis na Terra.

“Simulamos o clima da Terra e de Vênus no início de sua evolução, há mais de quatro bilhões de anos, quando a superfície dos planetas ainda estava derretida”, explica Turbet. “As altas temperaturas associadas significavam que qualquer água estaria presente na forma de vapor, como em uma gigantesca panela de pressão”.

Usando sofisticados modelos tridimensionais da atmosfera, semelhantes aos que os cientistas usam para simular o clima atual da Terra e a evolução futura, a equipe estudou como as atmosferas dos dois planetas evoluíram ao longo do tempo e se os oceanos poderiam se formar no processo.

Leia mais:

“Graças às nossas simulações, pudemos mostrar que as condições climáticas não permitiam que o vapor d’água se condensasse na atmosfera de Vênus”, disse Turbet.

Isso significa que as temperaturas nunca foram baixas o suficiente para que a água em sua atmosfera formasse gotas de chuva que pudessem cair em sua superfície. Em vez disso, a água permaneceu como um gás na atmosfera, e os oceanos nunca se formaram. 

“Uma das principais razões para isso são as nuvens que se formam preferencialmente no lado noturno do planeta. Essas nuvens causam um efeito estufa muito poderoso que impediu Vênus de esfriar tão rápido quanto se pensava”, diz o pesquisador.

Terra poderia ter tido outro destino

Surpreendentemente, as simulações dos astrofísicos também revelam que a Terra poderia facilmente ter sofrido o mesmo destino de Vênus. Se o nosso planeta estivesse um pouco mais perto do Sol, ou se nossa estrela brilhasse tão intensamente em sua ‘juventude’ como faz hoje, tudo seria muito diferente. Ou seja, é provável que a radiação relativamente fraca do jovem Sol é que tenha permitido que a Terra esfriasse o suficiente para condensar a água que forma nossos oceanos. 

Para Emeline Bolmont, professora da UNIGE, membro do PlaneS e coautora do estudo, “esta é uma reversão completa na forma como olhamos para o que há muito tempo é chamado de Paradoxo do Sol Jovem Fraco”.

Se a radiação do sol fosse muito mais fraca do que hoje, teria transformado a Terra em uma bola de gelo hostil à vida. “Mas acontece que, para a Terra jovem e muito quente, esse Sol fraco pode ter sido, na verdade, uma oportunidade inesperada”, continua o pesquisador.

“Nossos resultados são baseados em modelos teóricos e são um alicerce importante para responder à questão da história de Vênus”, diz o coautor do estudo David Ehrenreich, professor do Departamento de Astronomia da UNIGE e membro do NCCR PlanetS. 

“Mas, não poderemos decidir sobre o assunto definitivamente em nossos computadores. As observações das três futuras missões espaciais venusianas serão essenciais para confirmar – ou refutar – nosso trabalho”, explicou Ehrenreich.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!