Segundo um novo paper publicado por cientistas da Nasa, o veículo de exploração terrestre (ou “rover) Curiosity conseguiu identificar moléculas correspondentes à matéria orgânica em Marte, algo inédito em nossos estudos do planeta vermelho. E o melhor: essa descoberta veio quase que por acidente.

O estudo detalha como o rover vinha passando por um problema de funcionamento recentemente: durante seu percurso na região conhecida como “Cordilheira Vera Ridge”, o veículo coletou uma amostra de solo, mas ao invés de largar o material dentro de um recipiente vazio, o Curiosity largou a amostra em um tubo cheio de reagentes químicos.

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Selfie do rover Curiosity, que recentemente encontrou matéria orgânica em Marte
O rover Curiosity segue produzindo ótimos resultados mesmo depois de quase 10 anos em Marte (Imagem: Nasa/Divulgação)

A reação desencadeada em seguida, porém, acabou funcionando a nosso favor, já que os cientistas da Nasa analisaram as moléculas liberadas por ela e descobriram material orgânico que nenhuma outra agência no mundo havia descoberto até agora.

“Esse experimento foi definitivamente um sucesso”, disse Maëva Millan, pesquisadora de pós-doutorado no Centro de Voo Goddard, da Nasa. “Ainda que não tenhamos encontrado o que procuramos – ou seja, assinaturas biológicas -, nós conseguimos mostrar que a técnica usada é verdadeiramente promissora”.

É importante ressaltar que “matéria orgânica” não necessariamente implica em “encontramos sinais de vida”. Compostos orgânicos são aqueles que contém carbono, e podem ser criados de várias formas, não apenas por processos biológicos.

Em outras palavras, a missão compartilhada pelo Curiosity e o outro rover (Perseverance), continua, apesar dos seus parâmetros distintos de busca: enquanto o primeiro vem coletando amostras de solo, o segundo se concentra na busca por núcleos rochosos em pedras sedimentares que são resquícios de um imenso lago que existiu em Marte há bilhões de anos.

Mas voltando ao Curiosity: “no processo normal, quando coletamos alguma amostra com o braço robótico do rover, essa amostra é depositada em um recipiente específico”, explica Millan. “Neste caso, porém, a amostra foi colocada em um tubo cheio de reagentes”.

O acaso favoreceu a Nasa aqui: o Curiosity tem 94 recipientes de amostras em sua barriga – dos quais apenas nove têm reagentes químicos pré-armazenados. A surpresa foi compartilhada pela equipe, que segundo Millan, não esperava que a amostra fosse rica em qualquer material orgânico, considerando que a radiação solar e os raios cósmicos avançam na superfície de Marte quase sem impedimento – a atmosfera fina do planeta oferece praticamente zero proteção, o que contribui para o seu aspecto de deserto.

Mas ao analisar a mistura, a equipe da Nasa identificou ácido benzóico e amônia – dois marcadores moleculares que podem ser indicativos da presença de assinaturas biológicas.

Em termos mais abertos: não é a “vida” que fomos procurar, mas pode ser um caminho até ela.

“Uma das coisas que estamos procurando na busca por moléculas orgânicas é a compreensão da habitabilidade de Marte no passado, por meio de indicadores biológicos”, disse Millan, que explica que o objetivo agora é identificar as origens dessas moléculas (ou “estrutura molecular parental”). “Assim que encontrarmos isso, poderemos dizer de onde tudo se originou. Neste momento, com todas as moléculas que já encontramos em Marte, podemos formular uma hipótese de que elas vêm de algum processo geológico”.

Vale lembrar, que, além dos rovers Perseverance e Curiosity (que já estão em Marte), a Nasa também aguarda o lançamento da missão ExoMars 2022, coordenada e operada pela agência espacial europeia e que vai levar não apenas um rover homônimo, mas também instalará uma plataforma de pouso russa no planeta vermelho.

Todos esses esforços, logo menos, devem nos ajudar a desvendar mais os mistérios pertinentes à evolução de Marte, e se um dia o planeta conseguiu abrigar vida antes de se tornar o deserto gigantesco que conhecemos. 

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