Ciência e Espaço

Turismo espacial: o guia completo sobre o assunto!

Por Flavia Correia, editado por Layse Ventura
03/11/21 10h12
turismo espacial; astronauta; selfie no espaço

Imagem de destaque. Crédito: NikoNomad - Shutterstock

Nos últimos tempos, mais precisamente de 16 anos para cá, muito se tem falado sobre turismo espacial. A possibilidade de viajar para além deste mundo, observar nosso planeta de longe, flutuar em microgravidade e se sentir quase como um verdadeiro astronauta já é uma realidade.

Turismo espacial já é uma realidade, coisa que nossas gerações passadas jamais poderiam imaginar. Imagem: Alones – Shutterstock

Embora a questão financeira seja um empecilho para a maioria dos meros mortais, o fato de pessoas comuns, sem capacitação profissional nem propósito científico, poderem contemplar o azul da Terra (e constatarem que, sim, ela é redonda – ou quase isso), é de extrema relevância para a nossa evolução em geral. É como proferiu Neil Armstrong ao pisar na Lua: um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade!

Se você quer saber o que é turismo espacial, conhecer a história de algumas pessoas que já fizeram uma viagem espacial a turismo, qual é o preço de uma aventura como essa, quais são as empresas de turismo espacial e outros detalhes, está no lugar certo.

Convido você a embarcar comigo e descobrir tudo sobre o assunto neste verdadeiro guia de turismo espacial. Uma viagem completa e bem informativa – e sem sair do lugar (pelo menos, por enquanto)!

O que é turismo espacial? 

Até bem pouco tempo atrás, a exploração espacial era restrita a organizações governamentais, tais como a agência espacial norte-americana (cujo nome formal é Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, em tradução livre), mais conhecida como Nasa, a Roscosmos (da Rússia) e a Agência Espacial Europeia (ESA), por exemplo.

Companhias privadas, como a Boeing, Northrop-Grumann e Lockeed Martin, também atuavam neste ramo como apoio a missões técnicas e científicas dessas agências, mas sem capacidade própria de lançamento. No entanto, o turismo no espaço passou a figurar como desejo de bilionários, o que gerou uma oportunidade de negócios e levou ao surgimento de empresas como a Virgin Galactic e a Blue Origin.

Isso motivou uma disputa acirrada, principalmente entre as duas mencionadas, além da SpaceX (que não nasceu com esse propósito, mas entrou na “briga”), para serem os grandes destaques no ramo de viagem espacial a turismo. Mas, afinal de contas, o que exatamente é o turismo espacial?

Basicamente, é a possibilidade de cidadãos comuns de qualquer lugar do planeta Terra embarcarem em uma cápsula acoplada a um foguete e serem disparados para além da nossa atmosfera (geralmente, o lançamento é assim).

Seja para passar apenas alguns minutos ou dias, seja para conhecer a Estação Espacial Internacional (ISS) ou, eventualmente, até pisar em solo lunar, o fato é que a era do turismo no espaço parece ter chegado de vez. No ano de 2021, as três principais empresas privadas do mercado aeroespacial fizeram viagens com civis entre seus tripulantes, e nada menos do que 18 pessoas foram “passear” no espaço.

Antes de entender como funciona o turismo no espaço, é importante saber onde exatamente começa o tal espaço. Afinal de contas, uma viagem a qualquer destino que seja só é caracterizada como um passeio em tal local se você, de fato, chegou lá. 

Não se pode conhecer o Cristo Redentor de perto se você não for ao Rio de Janeiro. Da mesma forma que você só se banhará no mar de Salvador se colocar seus pés na capital baiana. Só poderá fazer a tradicional foto turística com o dedinho na ponta da Torre Eiffel, se viajar a Paris. Ou seja, chegar apenas “nas redondezas” não vale.

Para os padrões da Nasa, da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) e das Forças Armadas do país, o início do espaço sideral começa em 80 km acima da superfície. A linha de 80 km também tem outros apoiadores, incluindo Jonathan McDowell, um astrofísico e rastreador de satélites baseado no Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, que defendeu sua adoção em um artigo de 2018.

No entanto, existe uma fronteira diferente estabelecida em convenção internacional, que é o marco aceito pela Federação Aeronáutica Internacional (FAI). Essa fronteira, chamada Linha de Kármán, fica a 100 km de altitude e foi definida pelo físico húngaro-americano Theodore von Kármán, usando como parâmetro a região onde as forças da dinâmica orbital excedem as da aerodinâmica.

De qualquer forma, a definição de espaço sideral não é apenas um debate filosófico. Isso tem implicações financeiras no mundo real, tendo em vista que algumas empresas de turismo espacial podem vender assentos em voos que tecnicamente não atingem o espaço, dependendo de onde realmente esteja esse limite. 

Assim, alguns privilegiados que tiverem como pagar por um assento desses podem “comprar gato por lebre” e vir a contar para seus filhos, netos e bisnetos no futuro sobre um passeio que, tecnicamente, não fizeram (mesmo pagando uma pequena fortuna por isso).

Estando isso claro, vamos descobrir agora como funciona o turismo espacial, quando ele começou e, se esse for um sonho para você, quanto precisaria desembolsar para realizá-lo.

Turismo espacial: como funciona? 

Para fazer uma viagem espacial a turismo, os procedimentos dependem de cada empresa. A Blue Origin, por exemplo, tem uma lista de espera. Para o primeiro voo espacial tripulado da empresa, que aconteceu em 20 de julho deste ano e teve seu proprietário e CEO Jeff Bezos a bordo, apenas um assento foi comercializado, por meio de um leilão.

Curiosamente, o vencedor, que arrematou a vaga por US$28 milhões, não embarcou, devido a um conflito de agendas. Assim, o estudante Oliver Daemen garantiu seu ingresso, adquirido por seu pai, Joes Daemen, um alto executivo holandês. 

Os demais assentos foram ocupados por Bezos e dois convidados: seu irmão Mark e a octogenária Wally Funk, uma aviadora da década de 1960, que participou do grupo “Mercury 13”, e acabou se tornando, por pouco tempo, a pessoa mais velha a voar ao espaço.

Bezos revelou que o leilão por meio do qual Daemen obteve sua passagem angariou mais de US$100 milhões (cerca de R$550 milhões), e que mais de 7,6 mil interessados, de 159 países diferentes, se inscreveram para participar. O valor arrecadado foi integralmente revertido para a ONG Club for the Future, mantida pela Blue Origin, que tem como objetivo inspirar as futuras gerações a perseguir carreiras em STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e “ajudar a inventar o futuro da vida no espaço”.

Richard Branson, CEO do Virgin Group, esteve no voo inaugural da Virgin Galactic, que entrou para a história como a primeira empresa privada a levar turistas ao espaço. Imagem: Captura de tela YouTube Virgin Galactic

Já a Virgin Galactic, que foi a primeira empresa privada da história a levar turistas a um voo suborbital, – e aí cabe a discussão se eles podem ou não ser considerados turistas espaciais, já que não ultrapassaram a Linha de Kármán – oferece três opções de passeio.

Segundo a empresa, o consumidor pode escolher entre comprar um assento único, adquirir um pacote com vários assentos ou o fretamento de um voo completo para até seis pessoas.

Outra que também trabalha com voos de turismo espacial é a SpaceX. A empresa de Elon Musk realizou neste ano o primeiro voo totalmente civil da história: a missão Inspiration4, financiada e comandada pelo bilionário Jared Isaacman. 

Além de Isaacman, os demais três tripulantes também eram turistas espaciais. Eles receberam as asas de astronauta da SpaceX, um broche simbólico, mas não são oficialmente reconhecidos como astronautas. Esta designação só é concedida pela Nasa, e existem exigências para isso, que você pode conferir aqui.

Basta ter dinheiro sobrando, comprar seu ingresso e aproveitar a aventura? Não. Existem pré-requisitos para isso, que também variam de empresa para empresa. Para voar pela Blue Origin, por exemplo, a idade mínima é 18 anos. O interessado deve ter mais de 1,50 m e menos de 1,92 m. Também há limites mínimo e máximo quanto ao peso: de 50 kg a 101 kg.

Além dessas exigências, há uma série de outras, merecendo destaque as quatro a seguir: 

  • Capacidade de escalar a torre de lançamento da nave New Shepard (o equivalente a sete lances de escadas) em 90 segundos e de andar em superfícies ligeiramente desniveladas;
  • Prender-se e soltar-se do cinto de segurança no tempo máximo de 15 segundos;
  • Ser capaz de suportar uma força de até três vezes a aceleração da gravidade (3 Gs), por cerca de dois minutos (sendo essa uma das sensações na decolagem – durante o voo, essa força pode chegar a quase 6 vezes durante alguns segundos);
  • Escutar e compreender instruções em inglês de membros da tripulação ou de comunicadores de rádio, em um ambiente em que o volume do som pode chegar a 100 dB.

Quanto aos treinamentos, eles duram em torno de 14 horas, num único dia. Neles, os potenciais tripulantes fazem ensaios de missões, recebem instruções de segurança, realizam atividades análogas, além de procedimentos operacionais em geral. Nessas preparações para o voo, eles também recebem orientações sobre a microgravidade.

A Virgin Galactic é menos exigente quanto aos pré-requisitos. Basta estar em boa forma física e partir para a etapa de treinamentos, que acontecem durante três dias no Spaceport America (Espaçoporto América), localizado no Novo México, EUA.

Esses treinamentos envolvem ensaios de microgravidade, recomendações de segurança (especialmente para os momentos de alta aceleração) e instruções sobre os equipamentos de proteção individual (EPI) a serem utilizados no voo. Além disso, os futuros tripulantes contam com uma equipe médica especializada, que os acompanha até o momento da decolagem, garantindo sua integridade física e mental durante todo o processo.

Já a SpaceX ainda não formalizou suas diretrizes de lançamento de turistas ao espaço, apenas garantiu que oferecerá os passeios a preços melhores do que as concorrentes (falaremos disso mais adiante). Entretanto, sabe-se que os passageiros da Inspiration4 passaram pelo mesmo treinamento que os astronautas da Nasa recebem antes de voar em uma Crew Dragon, incluindo testes físicos (como a temida centrífuga), aulas de mecânica orbital e treinamento básico sobre o funcionamento e operação da cápsula.

Quando começaram as viagens espaciais? 

Antes de chegarmos a essa fase, um longo caminho foi percorrido para que, hoje, pudesse ser tão “simples” assim dar uma voltinha entre as estrelas. 

Depois do lançamento do macaco Albert II, em 1949, e da cachorrinha Laika, em 1957, ambos com o triste destino de morrerem sozinhos e carbonizados no retorno à Terra, o primeiro voo tripulado com retorno bem-sucedido de seus ocupantes aconteceu em 1960. Os cãezinhos Belka e Strelka voltaram sãos e salvos, o que aumentou as esperanças de um voo espacial com humanos.

Isso veio a acontecer um ano depois, quando o astronauta soviético Yuri Gagarin tornou-se a primeira pessoa a ir para o espaço. Ele pilotou a espaçonave Vostok I, do programa espacial da então União Soviética.

Face de Yuri Gagarin, primeiro homem a ir ao espaço, projetada na fachada de um prédio em Moscow, em 2018. Imagem: Natalja Nikolaeva – Shutterstock

E o turismo espacial? 

Se o intervalo entre os voos dos primeiros animais sobreviventes e da primeira pessoa a ir ao espaço foi de apenas um ano, o hiato entre o primeiro voo humano e a viagem de estreia do turismo espacial foi bem maior: 40 anos separam Yuri Gagarin do engenheiro multimilionário norte-americano Dennis Anthony Tito. Ele entrou para a história como a primeira pessoa a pagar por esse privilégio. 

15 pessoas que já foram ao espaço a passeio

Conheça 15 pessoas que já viajaram como turistas espaciais, começando, claro, por quem inaugurou a categoria.

Dennis Tito

O engenheiro e empreendedor norte-americano Dennis Anthony Tito foi o pioneiro no turismo espacial. Ele desembolsou nada menos do que US$20 milhões (o equivalente a R$113,19 milhões na cotação atual) para embarcar na nave russa Soyuz TM-32 rumo à Estação Espacial Internacional (ISS), em 28 de abril de 2001. 

Foram oito dias em órbita a bordo da ISS, como membro da missão ISS EP-1, ao lado do cosmonauta russo Yuri Baturin e do astronauta canadense Chris Hadfield.

Mark Shuttleworth 

Depois de Tito, foi a vez de Mark Shuttleworth, fundador da Canonical, empresa responsável pelo desenvolvimento de uma das distribuições Linux mais populares na atualidade, o Ubuntu. Em 2002, ele se tornou o primeiro sul-africano a ir ao espaço, lançado na nave russa Soyuz TM-34. 

Shuttleworth também pagou US$20 milhões de dólares pelo passeio e passou 10 dias na ISS, onde realizou algumas experiências científicas com um rato vivo e células de ovelhas. Ele viajou junto com o cosmonauta russo Yuri Gidzenko e o italiano Roberto Vittori.

Gregory Olsen

Fundador de uma empresa de desenvolvimento de material óptico-eletrônico e de câmeras de infravermelho fornecedora da Nasa, o milionário norte-americano Gregory Hammond “Greg” Olsen voou a bordo da nave Soyuz TMA-7, acompanhado do cosmonauta russo Valeri Tokarev e do astronauta americano William McArthur, em 2005. Olsen pagou o mesmo valor que Tito e Shuttleworth.

Anousheh Ansari 

Em 2006, foi a vez da primeira turista espacial do sexo feminino, a iraniana Anousheh Ansari, pagar a mesma quantia para subir ao espaço a bordo da nave Soyuz TMA-9, junto com o cosmonauta russo Mikhail Tyurin e o espanhol naturalizado norte-americano Michael López-Alegría, para uma estadia de nove dias na ISS. 

Ela havia patrocinado, dois anos antes, o Ansari X Prize, uma competição que ofereceu um prêmio de US$10 milhões para uma empresa não governamental fazer o primeiro voo espacial humano com fundos privados. Quem venceu foi a Scaled Composities, responsável pela nave SpaceShipOne, da qual a SpaceShipTwo, da Virgin Galactic, é descendente direta.

Charles Simonyi 

Charles Simonyi é um dos mais antigos programadores da Microsoft, e é responsável por criar a divisão de aplicações da empresa, que deu origem ao Microsoft Office. O norte-americano de origem húngara desembolsou US$25 milhões para fazer parte do primeiro voo turístico da empresa Space Adventures, em 2007. Simonyi, inclusive, repetiu o feito em 2009.

Na primeira vez, ele fez parte da missão Soyuz TMA-10, ao lado dos cosmonautas russos Oleg Kotov e Fyodor Yurchikhin. Ele permaneceu 13 dias na ISS, como parte da Expedição 15.

Já na segunda vez, quando fez parte da Expedição 19, Simonyi pagou US$10 milhões a mais do que na primeira, voando junto com o cosmonauta russo Gennady Padalka e do astronauta norte-americano Michael Barratt e passando 12 dias no laboratório orbital.

Richard Garriott 

Richard Garriott é fundador da desenvolvedora de jogos Origin Systems, responsável pela série de RPGs “Ultima”, e é mais conhecido pelo nome de seu personagem no jogo, “Lord British”.  Ele foi inspirado pelo pai, o astronauta norte-americano Owen Garriott, que, em 1973, passou 60 dias em órbita a bordo da primeira estação espacial dos EUA, a Skylab.

Garriott (o Lord British) pagou cerca de US$30 milhões para ir ao espaço em 2008. Sua estadia na ISS foi de 11 dias e ele voou a bordo da nave Soyuz TMA-13, tendo como companheiros de viagem o cosmonauta russo Yuri Lonchakov e o norte-americano Michael Fincke.

Enquanto esteve na ISS, Garriott fez uma “travessura” que só confessou muitos anos depois. Escondeu, em algum lugar atrás dos painéis que revestem o interior da estação, uma porção das cinzas do corpo do ator James Doohan, o “Scotty” da série Star Trek.

Guy Laliberté 

Em 2009, foi a vez do criador, CEO e diretor-executivo do Cirque du Soleil, o canadense Guy Laliberté, pagar US$35 milhões para fazer turismo espacial. Ele fez parte da tripulação da nave Soyuz TMA-16, junto com o cosmonauta russo Maxim Victorovich Surayev e o astronauta norte-americano Jeffrey Williams.

Entre as atividades realizadas durante sua estadia de 10 dias em órbita, ele dirigiu, do espaço, o espetáculo “Da Terra às Estrelas pela Água”.

Jared Isaacman

Fundador e CEO da empresa norte-americana de processamento de pagamentos Shift4Payments, Jared Isaacman foi o idealizador da Inspiration4, que além de ter sido primeira missão 100% civil da história, teve caráter filantrópico ao apoiar o St. Jude Children’s Research Hospital, centro de tratamento pediátrico e pesquisa voltado ao câncer infantil.

Hayley Arceneaux

Como visto, a maioria dos turistas espaciais investem uma grana bastante alta para realizar seu sonho. Mas, alguns deles têm a sorte de serem convidados, como foi o caso de Wally Funk e do ator William Shatner, que voaram pela Blue Origin, por exemplo. 

Hayley Arceneaux, médica assistente do St. Jude Hospital, entidade beneficiada pela missão filantrópica Inspiration4, fez parte da tripulação a convite de Jared Isaacman, idealizador do projeto. Ela, que aos 10 anos recebeu tratamento para um câncer nos ossos no mesmo hospital, entrou para a história como a primeira pessoa usuária de prótese a ir ao espaço.

Sian Proctor

Outro marco do voo Inspiration4 foi o de ter a primeira mulher negra não só como turista espacial mas, principalmente, como piloto: a geocientista, comunicadora científica e artista Sian Proctor, que levou consigo ao passeio um autógrafo de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua, obtido por seu pai.

Chris Sembroski

Veterano da Força Aérea dos EUA que trabalha na divisão aeroespacial da Lockheed Martin, Chris Sembroski passou três dias em órbita, a bordo da nave SpaceX Crew Dragon Resilience, junto com Isaacman, Arceneaux e Proctor, na missão Inspiration4.

Um dado curioso: Sembroski, que não tinha nenhuma aptidão musical até então, fez aulas de violão com o músico, compositor e produtor musical A.J. Smith para divertir a tripulação tocando ukulelê durante a viagem – promovendo um verdadeiro “luau no espaço”.

Richard Branson

Richard Charles Nicholas Branson é um empresário britânico, fundador do Grupo Virgin, do qual a Virgin Galactic faz parte. Aos 71 anos, Branson foi membro da tripulação do primeiro voo espacial turístico de sua própria empresa – e primeiro da história das empresas privadas.

Conhecido por ser aventureiro e gostar de viver fortes emoções, Branson sobreviveu a um naufrágio no México quando era jovem, já despencou em um desfiladeiro, caiu de um balão movido a ar quente, esteve a bordo de um outro que pegou fogo em pleno voo, fez sua entrada de noivo em seu casamento pendurado em um helicóptero… ufa! Pensa que acabou? O bilionário já desafiou a morte, pelo menos 15 vezes.

Jeff e Mark Bezos

A Blue Origin entrou para o Guinness com seu primeiro voo espacial turístico por alguns motivos, entre eles: levar ao espaço a pessoa mais velha (Wally Funk, aos 82 anos, que logo perdeu o título para William Shatner, como dito) e a pessoa mais nova (Oliver Daemen, aos 18) e também por ter sido a primeira a transportar dois irmãos, ao mesmo tempo:  Jeff Bezos e seu irmão mais novo, Mark.

“Desde os cinco anos de idade, sonho em viajar para o espaço. No dia 20 de julho, farei essa viagem com meu irmão. A maior aventura, com meu melhor amigo”, escreveu Jeff no Instagram alguns dias antes do embarque.

William Shatner

“Espaço, a fronteira final”. Com essa frase, o ator canadense William Shatner encantou gerações no papel do “Capitão James T. Kirk”, comandante da icônica USS Enterprise na franquia Star Trek. Naquela época, ele nem poderia imaginar que, 55 anos depois, voaria ao espaço de verdade.

Convidado por Jeff Bezos, Shatner fez parte da tripulação da missão missão NS-18 da Blue Origin, no segundo voo turístico da empresa, que aconteceu no dia 13 de outubro. Junto com ele estava a executiva da Blue Origin Audrey Powers, além de Chris Boshuizen, cofundador e CTO da PlanetLabs – empresa que mantém uma frota de satélites de observação terrestre – e Glen de Vries, executivo da Medidata – empresa responsável pela plataforma de testes clínicos mais usada no mundo.

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Principais empresas que têm se destacado no turismo espacial 

Das empresas privadas que oferecem o serviço de turismo espacial, merecem destaque as três já anteriormente citadas: SpaceX, Blue Origin e Virgin Galactic. 

Existem também algumas que prometem passeios de balão até a estratosfera, que estão bem longe dos 100 km que demarcam o limite entre a Terra e o espaço. Mas, claro, não deixa de ser um passeio emocionante, que oferece visões incríveis e promete ser uma viagem inesquecível. Nesse ramo, temos como opções a Space Perspective e a World View Enterprises.

Spacex, de Elon Musk 

A Space Exploration Technologies Corporation, razão social da SpaceX, é uma fabricante norte-americana de sistemas aeroespaciais, transporte espacial e comunicações, com sede em Hawthorne, na Califórnia. 

Espaçonave SpaceX Dragon no hangar do Complexo de Lançamento 39A do Centro Espacial Kennedy da Nasa. A SpaceX não nasceu como empresa turística e é uma das maiores parceiras comerciais da Nasa. Imagem: SpaceX

Detentora de contratos bilionários com a Nasa, dos quais se destaca o acordo para a construção de um novo módulo de pouso lunar, como parte do chamado Projeto Artemis, a empresa de Elon Musk também atua no ramo de telecomunicações por meio do projeto Starlink, uma plataforma de satélites de baixo custo e alto desempenho usada para oferecer acesso à internet em banda larga a qualquer lugar do planeta.

Responsável pela condução da missão Inspiration4, a SpaceX já tem muitos clientes interessados em fazer turismo espacial a bordo de suas espaçonaves Crew Dragon. Entretanto, a empresa não se posiciona ativamente como uma “operadora de turismo”, sendo esta apenas mais uma de suas atividades.

Diferentemente de Jeff Bezos, da Blue Origin, e Richard Branson, da Virgin Galactic, Musk ainda não foi, ele mesmo, um turista espacial.

Blue Origin, de Jeff Bezos

Conforme já mencionado, a Blue Origin, empresa de astronáutica e serviços de voo espacial suborbital com sede na cidade de Kent, Washington, foi fundada pelo criador da Amazon, Jeff Bezos. A companhia já realizou dois voos de turismo espacial, ambos em 2021. No primeiro deles, Jeff Bezos estava a bordo. 

Jeff Bezos, dono da Blue Origin, esteve no primeiro voo espacial turístico da empresa. Créditos: Divulgação/Blue Origin

Uma das principais rivais da SpaceX, a Blue Origin moveu um processo contra a Nasa, junto com a empresa Dynetics, de David King, em razão do contrato firmado com Elon Musk para construção do módulo de pouso na Lua. Bezos e King alegam que a seleção não seguiu os procedimentos normais de licitação. Eles perderam a causa.

Virgin Galactic, de Richard Branson 

Fundada em 2004, a Virgin Galactic é uma empresa de voos espaciais de capital aberto do Grupo Virgin, que pertence ao bilionário britânico Richard Branson, o primeiro a voar para o espaço neste ano (embora o título seja contestável, em razão do voo de Branson ter atingido apenas 80 km de altitude). 

Voo suborbital da VSS Unity, da Virgin Galactic, foi o primeiro entre os voos turísticos proporcionados por empresas privadas. Imagem: Virgin Galactic

Um problema técnico ocorrido durante o voo feito por Branson fez com que a Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA abrisse uma investigação contra a empresa e impedisse sua atuação até que a situação fosse avaliada. Concluída a averiguação, o órgão liberou a continuidade dos serviços. De qualquer forma, novos voos da Virgin estão previstos somente para o segundo semestre de 2022.

A NASA oferece turismo espacial? 

Como uma das administradoras da ISS, a Nasa é a responsável por permitir que as empresas privadas levem turistas até lá, mas ela mesma não realiza as viagens. É a agência espacial norte-americana que estabelece as datas de lançamentos e por quanto tempo os turistas podem permanecer no laboratório orbital, bem como as funções que, porventura, eles irão exercer por lá.

De acordo com a agência, o dinheiro pago pelos viajantes tem uma parte revertida para financiar programas espaciais do governo americano, como o Projeto Artemis, por exemplo, que levará o ser humano de volta à Lua.

Qualquer pessoa pode fazer turismo espacial? A que passo está a possibilidade dessas viagens?

Ir para o espaço não é o mesmo do que ir para a cidade vizinha, ou outro estado, nem mesmo para outro país ou continente do nosso planeta. Além de ser uma viagem cara, seja para circundar a Terra, como fizeram os tripulantes da missão Inspiration4, ou para conhecer a ISS, também existem pré-requisitos a serem cumpridos.

Como já foi dito, cada empresa tem suas próprias políticas, mas todas elas têm regras e oferecem treinamentos que podem servir de triagem, de modo que, mesmo que a pessoa tenha todo o dinheiro do mundo, ela não pode viajar caso não se enquadre. 

A proteção dos turistas espaciais está em primeiro lugar, e nada que possa representar uma ameaça à segurança deve passar batido, seja um problema de saúde ou mesmo limites de peso e altura.

Veículos utilizados no turismo espacial 

Os primeiros turistas a irem para o espaço foram lançados em espaçonaves Soyuz, da agência espacial Roscosmos, da Rússia. Esse veículo tem capacidade para transportar uma tripulação formada por três pessoas a cada viagem, e é a nave espacial mais antiga em uso (o primeiro voo tripulado foi em 1967).

Para voar pela Blue Origin, os turistas espaciais embarcam em um foguete New Shepard, que conta com controle acústico e de temperatura na cápsula, telas com informações e um sistema de intercomunicação. Tanto o foguete (alvo de piadas e polêmicas na internet por seu formato fálico) quanto a cápsula são reutilizáveis: eles se separam ainda na subida, antes de atingir a altitude máxima do voo, e retornam separadamente.  

Foguete New Shepard, da Blue Origin. Imagem: Blue Origin

No caso da Virgin Galactic, o voo espacial é feito a bordo da SpaceShipTwo. O primeiro modelo, que levou Richard Branson ao espaço em julho deste ano, foi o VSS Unity. A nave oferece assentos reclináveis e ajustáveis para ficar sob medida para cada passageiro; iluminação automatizada, que se harmoniza com cada fase do voo; telas individuais com dados em tempo real; 16 câmeras, que fornecem imagens e fotos de alta definição e 12 janelas para que os tripulantes possam contemplar a principal atração da viagem: a Terra.

Interior da espaçonave VSS Unity, da Virgin Galactic. Imagem: Virgin Galactic

Aqueles que viajarem pela SpaceX serão lançados em uma cápsula Crew Dragon, assim como aconteceu com os tripulantes da missão Inspiration4. Ela tem capacidade para carregar até sete tripulantes, embora até o momento todas as missões tenham sido limitadas a quatro astronautas. Assim como os foguetes Falcon 9, a cápsula é reutilizável e pousa no oceano com a ajuda de paraquedas.

Cápsula SpaceX Crew Dragon. Imagem: SpaceX/Divulgação

Quais os desafios do turismo espacial? 

Embora viajar para o espaço esteja se tornando algo mais comum do que se podia imaginar de 20 anos para trás, esse tipo de turismo ainda precisa passar por algumas adaptações, que vêm de necessidades geralmente descobertas em pleno voo.

Para citar coisas simples: na missão Inspiration4, por exemplo, uma das refeições era pizza. A tripulação, é claro, nem se importou de comê-la fria. Estavam comendo pizza flutuante no espaço, existe experiência que possa se comparar a isso? Dificilmente. No entanto, esse foi um dos pontos observados por Elon Musk, que acredita ser necessário pensar numa forma de implantar um pequeno forno a bordo dos próximos voos.

Também é de Musk outra observação importante: o banheiro. Sem entrar em detalhes, ele admitiu via Twitter que será preciso um upgrade nas privadas das espaçonaves, confirmando que houve um problema com isso na missão Inspiration4.

Mais um ponto importante a ser pensado em relação aos desafios do turismo espacial é que ele implica na necessidade de aperfeiçoamento das tecnologias de proteção de dados e comunicação à distância. 

É importante lembrar que a infraestrutura espacial envolve sistemas que precisam estar extremamente protegidos para garantia de seu pleno funcionamento, como os foguetes, a robótica, as cápsulas e os sistemas de comunicação entre a tripulação e a base na Terra.

Recentemente, a Roscosmos, agência espacial russa, enviou uma equipe de cinema para rodar cenas de um filme na ISS. O próprio roteiro da obra é um indicativo de um grande desafio a ser enfrentado com o aumento do turismo espacial. 

A atriz Yulia Peresild esteve na Estação Espacial Internacional para gravar cenas de um filme no qual interpreta uma médica. O atendimento médico de tripulantes é um desafio para o turismo espacial? Imagem: Roscosmos/Divulgação

Na história, a atriz Yulia Peresild interpreta uma médica que precisa ir até o laboratório orbital para atender um astronauta que apresenta um problema de saúde grave demais para que ele possa retornar à Terra. E se esse tipo de coisa acontece na vida real com pessoas comuns (sem a intensa preparação pela qual os astronautas passam durante toda a vida profissional)? Quais seriam as medidas adotadas para o caso de um turista espacial necessitar de atendimento médico em plena viagem?

Turismo espacial: preço 

Para aqueles que puderem investir US$50 mil (aproximadamente, R$272,8 mil), as melhores opções são os já mencionados voos de balão, oferecidos por empresas como a Space Perspective e a World View Enterprises. 

Se você não se importa em não chegar ao espaço propriamente dito nem flutuar em microgravidade, ficando satisfeito em contemplar a curvatura da Terra, essa modalidade é significativamente mais em conta do que os voos oferecidos por qualquer outra grande empresa de turismo espacial.

Quem fizer questão de voar mais longe e decidir fazer isso pela Virgin Galactic, o mínimo a se pagar é US$250 mil – o equivalente a cerca de R$1,4 milhões na cotação atual. E, para isso, você ainda terá de pagar US$1 mil (R$5,65 mil) para entrar para a fila de espera, que já conta com grandes nomes, como Lady Gaga, Justin Bieber e até mesmo Elon Musk. 

Já a Blue Origin ainda não divulgou o preço de um assento na New Shepard. Sabemos apenas que o primeiro assento na NS-16 foi leiloado e arrematado por um comprador não identificado por US$ 28 milhões.

A SpaceX está programando realizar a primeira viagem comercial totalmente privada para a ISS ainda no fim deste ano, em parceria com a startup texana Axiom Space. Os três tripulantes serão lançados a bordo de uma cápsula Crew Dragon, impulsionada por um foguete Falcon 9.

Para participar do voo, eles pagaram US$55 milhões cada (cerca de R$ 256,5 milhões), valor no qual está incluso treinamento, lançamento e custos diários para a sobrevivência na ISS por 14 dias. Apesar de ter divulgado o valor desse voo inaugural, a SpaceX ainda não definiu o preço das passagens para voos futuros.

Turismo espacial: expectativas para o futuro

Há muitos anos, era praticamente inconcebível pensar que o telefone celular viraria um item de primeira necessidade, e que os aparelhos seriam tão acessíveis e haveira tanta variedade de ofertas. Antes, celular era “coisa de rico”.

O mesmo se pode dizer sobre viajar de avião. Aeroportos nunca estiveram tão lotados como de 20 anos para cá. O transporte aéreo sempre foi regalia de uma elite financeiramente privilegiada. No entanto, essa situação mudou, e viajar de avião deixou de ser sinal de status social.

Esses são apenas dois exemplos de coisas que evoluíram com o tempo, o que mostra que não é impossível (não se sabe quando) as viagens turísticas espaciais passarem a ser uma realidade cada vez mais próxima dos meros mortais como eu ou você. Ok, talvez com nossos trinetos. Ou os trinetos deles.

Conclusão 

É inegável que a era do turismo espacial, definitivamente, chegou. Não estamos nem na metade do percurso ainda, mas já percorremos um longo caminho até aqui. As opções de trajeto, de empresas, de veículos e de preços são várias, muito embora tudo ainda seja fora da realidade da maioria dos 7,7 bilhões de habitantes desse mundo.

Em um futuro (muito, muito) distante, a Terra pode não mais existir, depois que o Sol morrer ou por qualquer outra causa ainda desconhecida por nós. Até que isso aconteça, as viagens espaciais estarão ainda mais avançadas, a ponto de poderem ser a única forma de salvação para gerações futuras. 

Essa é uma das razões pelas quais o turismo espacial não é apenas uma diversão para bilionários excêntricos que não têm mais o que fazer com suas infindáveis fortunas. Trata-se de uma etapa da evolução humana, como tantas outras pelas quais civilizações antigas e modernas já passaram.

Espero que essa viagem que lhe propus tenha sido confortável, divertida e, principalmente, informativa. E que você continue escolhendo o Olhar Digital como veículo para outras viagens como essa. Teremos sempre muito prazer em ser seu guia! 

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