Essa semana o Brasil ficou sabendo que tem um novo meteorito. Encontrado em Pernambuco em 2019 e vendido para estrangeiros em 2020, ele agora foi oficializado pelo Meteoritical Bulletin e classificado como um shergottito, um tipo de meteorito vindo do planeta Marte. Mas como a ciência sabe de onde vem cada meteorito?

Meteorito marciano NWA 7034
Meteorito marciano NWA 7034. Créditos: NASA

Infelizmente, os meteoritos não chegam à Terra com uma etiqueta informando o remetente. Então, a identificação de sua origem depende de uma investigação bem mais complicada. Mas a experiência acumulada ao longo de séculos de estudos dessas rochas espaciais facilita bastante esse processo.

publicidade

A primeira pista é a presença ou não dos côndrulos, que são pequenas esferinhas de rocha que se formaram com o derretimento do material da nuvem de poeira que deu origem ao sistema solar. Esse material derretido se aglutinou em gotas que se transformaram em esferas com o resfriamento dessa região do espaço.

Côndrulos visíveis em uma fatia do meteorito NWA 3189
Côndrulos visíveis em uma fatia do meteorito NWA 3189. Foto: James St. John

Aos poucos esses côndrulos foram se aglutinando e formando os asteroides, as luas e os planetas rochosos do nosso Sistema Solar. Só que o calor gerado durante o processo de formação dos grandes corpos, derreteu novamente esse material, e criou o chamado processo de diferenciação, onde os materiais mais densos como os metais se concentraram no núcleo e os mais leves, como as rochas, na crosta do objeto.

Dessa forma, se o meteorito for um acondrito, ou seja, que não apresenta côndrulos, já podemos deduzir que ele se formou em um dos grandes corpos do Sistema Solar, e isso já reduz bastante as possibilidades. Daí pra frente, análises químicas e petrográficas ajudam a identificar características comuns aos seus corpos parentais.

Imagem por microscópio com luz polarizada de uma lâmina do meteorito Tissint, um shergotito. Cada cor representa um mineral diferente
Imagem por microscópio com luz polarizada de uma lâmina do meteorito Tissint, um shergotito. Cada cor representa um mineral diferente.
Fonte: Meteorite Times Magazine

Uma pequena parte dos acondritos ainda não tem origem confirmada, mas a grande maioria deles foi formada em Vesta, Lua ou Marte. E no caso dos marcianos, há uma característica decisiva: no interior dos meteoritos vindos de lá, é possível encontrar bolhas de ar, que foram formadas durante o impacto que lançou essas rochas ao espaço. Só que essas bolhas só seriam possíveis em um planeta com atmosfera. E ao analisar o ar no interior dessas bolhas, encontramos a mesma composição da atmosfera marciana. Bingo!

Leia mais:

Mas não espere encontrar geólogos caçando bolhas em meteoritos para identificar sua origem. Como já conhecemos as características comuns dos meteoritos marcianos, uma simples análise petrográfica já é suficiente para determinar de onde ele veio.

A confirmação química pode ser feita a partir da medição da proporção de isótopos de oxigênio presentes na rocha. Esses isótopos apresentam diferentes concentrações na Terra, Lua, Vesta e Marte.

Proporção dos isótopos de oxigênio encontrados em meteoritos de Vesta e Marte, em comparação às proporções encontradas na Terra e na Lua
Proporção dos isótopos de oxigênio encontrados em meteoritos de Vesta e Marte, em comparação às proporções encontradas na Terra e na Lua. Gráfico: PSRD

Outra característica comum nos meteoritos marcianos é a presença de estruturas de choque, cicatrizes formadas pelo violento impacto que foi capaz de arrancar essas rochas de Marte

Ainda existem os meteoritos carbonáceos, formados na nuvem de poeira que deu origem ao Sistema Solar; os metálicos que são provavelmente fragmentos de núcleos planetários destruídos por grandes impactos e outras tantas classes de meteoritos que ainda não conseguimos identificar ou confirmar sua origem.

Mas quando um meteorito é identificado como vindo da Lua, Vesta ou Marte, o grau de certeza de sua origem é tão alto, que é como se ele tivesse chegado pelos Correios, com uma etiqueta de remetente e um código de rastreio.

Já assistiu aos novos vídeos no YouTube do Olhar Digital? Inscreva-se no canal!