Desde meados de 2020, o Pentágono vem falando abertamente sobre episódios de “encontros estranhos” de pilotos da Força Aérea americana com “fenômenos aéreos não identificados” – um novo termo para os populares OVNIs (objetos voadores não identificados) ou UFOs, na sigla em inglês. Entretanto, nenhum relato oficialmente fala em vida extraterrestre ou tecnologia alienígena, limitando-se a dar explicações bem terrenas para ocasiões até então inexplicáveis.

Eis que entra Luis Elizondo, ex-oficial de inteligência do Pentágono e autointitulado “informante” desde que saiu do órgão, contrariando versões oficiais, mas sem dizer muita coisa sobre coisa. Em uma entrevista à reivsta norte-americana GQ, porém, o “especialista” diz que há bem mais do que o governo quer deixar escapar sobre o assunto.

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Imagem mostra Luis Elizondo, que alega ser ex-oficial de inteligência do Pentágono para investigações sobre UFOs
Luiz Daniel Elizondo alega ter sido o líder de um programa do Pentágono sobre investigação de UFOs, mas não há qualquer evidência de que isso seja verdade (Imagem: Max Moszkowicz/YouTube/Reprodução/Creative Commons)

“Eu preciso ter cuidado, não posso falar de nada muito específico, mas imagine que você recebeu um relatório de um piloto que diz ‘Ei, isso é estranho. eu estava voando e me aproximei desse ‘treco’ [sic] e, depois, cheguei em casa e parecia que eu tinha me queimado no Sol. Eu fiquei vermelho por quatro dias ‘”, contou Elizondo à revista.

“Bem”, ele continuou, “isso é sinal de radiação. Não é uma queimadura de Sol, é uma queimadura de radiação”.

Elizondo foi até mais longe. Na entrevista, ele chegou a sugerir até mesmo distorções temporais nas interações de pilotos com UFOs, afirmando ainda que existem muitos outros materiais que os vídeos divulgados publicamente pelo Pentágono. “Quanto mais perto você estiver de um desses objetos, mais você passará a experimentar mudanças de tempo e espaço relativas ao veículo e ao ambiente”, ele disse à GQ.

“Tem vários vídeos lá [com o Pentágono/governo] — tem um com 23 minutos de duração. Outro mostra um objeto a 15 metros do piloto”, disse o ex-oficial, afirmando em seguida que “nós [presumidamente, ele e sua empresa de entretenimento – mais sobre isso abaixo] vamos divulgar materiais que pertencem a outros países, mostrando que uma boa parcela do que os governos ‘escondem’ não pertence necessariamente aos EUA“.

Nessas horas, é importante ressaltar que, apesar de Elizondo jurar que foi parte do programa do Pentágono que analisa encontros entre pilotos e UFOs, o próprio órgão nega que ele tivesse qualquer participação no setor, ou que compartilhasse com ele qualquer responsabilidade sobre o assunto. Mais além, ele mesmo admite que identificou “problemas de segurança nacional” no que tange à investigação desse assunto, mas nunca levou-os à cadeia de comando de seus superiores, preferindo deixar o órgão e se juntar a outros “informantes” na formação de uma empresa de entretenimento para trabalhar em um reality show.

Segundo matéria sobre ele veiculada no The Intercept em 2019, não há qualquer evidência de que Elizondo tenha participado no que diz ter participado. O programa em si existe – confirmado pelo próprio Pentágono e nomeado “AATIP” (sigla em inglês para “Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aeroespaciais”) -, mas, novamente, o órgão nega qualquer participação, independente do nível ou hierarquia, de Elizondo, que deixou o Pentágono em outubro de 2017.

Montagem mostra Tom DeLonge à esquerda e Luis Elisondo à direita
Elizondo (à direita) é próximo de Tom DeLonge (esquerda), ex-guitarrista da banda punk Blink-182 e notório entusiasta de conspirações sobre a ufologia: juntos, eles produziram o reality show “Unidentified“, veiculado pelo History Channel (Imagem: Wikimedia Commons/Reprodução)

Mais além, um e-mail encaminhado pela assessoria de imprensa da To The Stars Academy of Arts & Science – a empresa da qual faz parte Elizondo – a diversos membros da imprensa reforça a história de seu funcionário como alguém de papel importante no programa. Tal e-mail foi encaminhado até mesmo para estudiosos do fenômeno alienígena independentes, mas até mesmo eles duvidam da veracidade das afirmações.

John Greenewald, especialista no assunto, respondeu a este e-mail com questionamentos sobre a exata responsabilidade de Elizondo no programa, recebendo apenas uma resposta genérica sobre o período de trabalho, em anos, sem meses específicos, e nomes de diretores do programa – mas não sobre o papel específico do informante. Pedidos de entrevistas posteriores foram totalmente ignorados.

E não é como se ele estivesse impossibilitado de responder, haja vista que, na mesma época, ele havia concedido entrevistas ao New York Times e a blogueiros ufólogos ou que cobriam a área militar dos EUA. Estranhamente, porém, essas entrevistas falavam especificamente de um show apresentado por Elizondo no History Channel, e não sobre as evidências que ele diz ter.

Mais além, quase nenhuma cobertura jornalística falava sobre a relação entre Elizondo e o entusiasta da ufologia (e amplamente desmentido) Tom DeLonge, que você deve reconhecer como ex-guitarrista da banda de punk rock Blink 182 (ele é o “CEO interino” da empresa). A assessoria de imprensa mencionada acima, aliás, é chefiada por Kari DeLonge, irmã do empresário musicista.

Em meio a toda a cobertura em cima da empresa de Elizondo nos últimos anos, apenas uma pessoa confirma a posição dele no Pentágono. O problema: essa pessoa foi afastada de suas atividades devido a uma investigação onde ela é suspeita de má conduta administrativa. Dana White (não confundir com o presidente do UFC, que compartilha do mesmo nome) trabalhou como porta-voz do Pentágono em meados de 2017 e disse que o AATIP era “coordenado” por Elizondo.

Durante a administração do ex-presidente Donald Trump, porém, White, que trabalhava em “consultoria política indicada” da equipe presidencial, deixou o cargo antes mesmo de Trump deixar o Salão Oval. Christopher Sherwood, que assumiu a posição de porta-voz do órgão militar em 2019, não confirmou as afirmações de White.

A pessoa para quem White deu a declaração, Bryan Bender, era repórter do site Politico.com, mas alguns anos depois de assinar o texto onde a afirmação foi publicada, ele deixou o veículo… para trabalhar no reality show de Elizondo no History Channel.

A comunidade de entusiastas de UFOs é uma bastante aquecida: em uma busca rápida no Facebook, as três primeiras páginas sobre o assunto no Brasil somam quase 150 mil seguidores. Evidentemente, com pouco espaço para conspirações e a maioria dos posts são relacionados a comentários em notícias oficiais e debates bastante saudáveis.

É difícil dizer, neste momento, se Elizondo, DeLonge e outras pessoas envolvidas com a empresa estão de fato falando a verdade. Assim como é difícil acreditar, sem ressalvas, nas negações do Pentágono no que tange a UFOs ou, pelo menos, ao trabalho dos nomes citados até aqui dentro do órgão.

O assunto rende muita discussão, e certamente deve seguir por mais tempo, considerando a exposição midiática que ambos os lados vêm obtendo na imprensa.

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