Cabras trituram sementes de acácia, pegadas de esquilos e perdizes pontilham o solo, enxames de gafanhotos devoram a folhagem verdejante. Esse é o novo cenário que pode ser visto no Planalto Simiri, no Níger, país da África Ocidental que é porta de entrada para o deserto do Saara e enclave na rota migratória para a Líbia.

Até pouco tempo atrás, o local tinha uma paisagem árida, que em nada se parecia com o paraíso para a fauna e flora que se vê agora.

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Revitalização proporcionada pelo projeto Grande Muralha Verde, em Simiri, a cerca de 100 km da capital Niamey, no Níger, conta com a atuação da população local. Imagem: AFP

“Uma pequena floresta renasceu milagrosamente”, disse o prefeito de Simiri, Moussa Adamou, à agência internacional de notícias France-Presse (AFP).

A transformação faz parte do projeto Grande Muralha Verde da União Africana, que visa restaurar 100 milhões de hectares de terra seca até 2030, ao longo de uma faixa de 8 mil quilômetros que vai do Senegal, no oeste, até Djibouti, no leste do continente.

Animais selvagens da África estão migrando para área reflorestada

Segundo estimativas do Banco Mundial, a população do Níger aumentará dos atuais 23 milhões de habitantes para 30 milhões em 2030. Até 2050, o número pode chegar a 70 milhões, o que destaca a importância vital do projeto ser um sucesso.

Para a revitalização do Níger, a União Africana selecionou, principalmente, árvores de goma branca e Bauhinia rufescens, duas espécies resistentes à seca que podem crescer 12 metros de altura.

“Suas folhas e sementes são ricas em proteínas para o gado”, explicou o agricultor local Garba Moussa. “Cozidos ou secos, também os consumimos como alimento de sobrevivência durante graves carências alimentares”, acrescentou.

Armados com picaretas e pás, os moradores construíram diques de terra que retêm a água da chuva ao redor das mudas por mais tempo, para garantir que cresçam mesmo durante as secas.

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Segundo o prefeito Adamou, animais selvagens e até girafas estão deixando seu habitat remoto ao sul da capital Niamey para saborear as delicadas folhas de acácia desde que o programa de reflorestamento do planalto de Simiri começou, em 2013.

As florestas do sul do Níger perderam um terço de sua área de superfície e agora cobrem entre 1% a 2% do país, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Até 2030, o Níger pretende “esverdear” 3,6 milhões de hectares de terra, o que representa mais de 37,5% do seu território, de acordo com Maisharou Abdou, diretor-geral da Muralha Verde.

Abdou disse que entre 8% e 12% do total já foi alcançado até 2020, mas enfatizou que o projeto é “uma corrida de longa distância”. Para realizar esse sonho, segundo ele, o país – um dos mais pobres do mundo – precisa de mais de 454,6 bilhões de francos centro-africanos (algo em torno de R$4,4 bilhões). O projeto já recebeu doações da União Europeia, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, do Banco Mundial e de outras instituições.

Ameaça jhadista pode atrapalhar o projeto de revitalização

Além de deter a desertificação, a Grande Muralha Verde também se concentra no acesso à água e à energia solar e no desenvolvimento socioeconômico, incluindo hortas comerciais, piscicultura, criação de gado e aviários para fornecer empregos para a população local.

De acordo com Issa Garba, membro da Organização Não Governamental Jovens Voluntários para o Meio Ambiente, algumas ONGs locais também se juntaram à batalha, com planos de reflorestar 100 hectares, cultivar viveiros e cavar poços de água.

No entanto, os ataques jihadistas que afetaram vários países da Grande Muralha Verde podem prejudicar o projeto. Sani Yaou, especialista do projeto no Níger, disse que os agricultores estão com medo de realizar atividades de reflorestamento ou manutenção de árvores devido à ameaça islâmica.

“A vulnerabilidade foi um duro obstáculo para a concretização do projeto. Todos os países estão focados na luta contra a insegurança”, acrescentou Garba. 

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