A busca pela vida no espaço pode passar por um novo obstáculo – os “falsos fósseis” – segundo novo estudo publicado no Journal of Geological Society. Segundo os autores, eles podem representar um acréscimo no volume de “falsos positivos”, ou seja, diagnósticos e classificações erradas, que só serão desmentidas muitos anos depois de suas respectivas descobertas.

O estudo chama a atenção da comunidade científica, considerando a crescente exploração de Marte e a quantidade de rovers que já se encontram lá, ou estão a caminho do planeta vermelho. Atualmente, o Zhurong (China), o Curiosity e o Perseverance (NASA/EUA) desbravam o terreno do nosso vizinho planetário, e a agência espacial europeia (ESA) pretende lançar o Rosalind Franklin para lá em 2022.

publicidade

Leia também

Imagem tirada pelo rover Perseverance após a falha na extração de amostras do solo de Marte, exibindo os buracos perfurados pelo veículo de exploração da Nasa
Perfurações rochosas feitas pelo rover Perseverance, em Marte, podem render em resultados “falsos positivos”? Falsos fósseis previstos em estudo podem atrapalhar identificação da vida extraterrestre (Imagem: NASA/JPL-Caltech/MSSS/Divulgação)

Considere que todos os artefatos enviados a Marte – e até mesmo sondas exploratórias em outras regiões, como as luas de Júpiter – estão em busca de uma coisa bem específica: “bioassinaturas”. Basicamente, são traços de atividade biológica que podem representar vida – bacteriana ou não – em outros planetas. Tais detalhes podem ser representações de um organismo ou de algum efeito ou traço deixado por ele.

Mas segundo Julie Cosmidis, co-autora do novo paper e geobióloga na Universidade de Oxford, há mais com o que nos preocuparmos do que a presença ou ausência desses sinais: “há uma chance real de que, um dia, vamos observar algo em Marte que parece ser extremamente biológico, apenas para percebermos anos mais tarde, após maiores pesquisas, que tal coisa na verdade se formou por processos não-biológicos”.

Sean McMahon, astrobiólogo da Universidade de Edinburgo, na Escócia, e coautor do estudo, concorda: “o problema é que nós nos tornamos tão bons em encontrar a vida, que nós conseguimos vê-la até quando ela não está lá”.

O paper posiciona que o mesmo processo que pode levar a falsos positivos aqui na Terra poderia existir no espaço – mas com consequências bem mais notáveis. Segundo McMahon, o volume de estruturas, materiais e compostos químicos que podem nascer de forma não biológica se mistura com aqueles produzidos de forma biológica. “Alguns fenômenos”, ele comenta, “vêm sendo debatidos há décadas e ainda hoje, não sabemos o que exatamente eles são”.

Ele aponta para um caso específico, em 1996. Um meteorito vindo de Marte apresentou traços de bioassinaturas, com o anúncio da comunidade científica pegando o mundo de surpresa – na época, o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, chegou a dar um discurso elogioso à “primeira prova de vida extraterrestre”. Exames posteriores, porém, mostraram que as assinaturas identificadas eram totalmente “abióticas”, ou seja, não foram produzidas por um ser vivo.

Paleontólogos enfrentam situações parecidas o tempo todo, mas a exploração do planeta vermelho promete ser ainda mais complicada: os objetos recolhidos – falsos fósseis ou não – só poderiam ser testados quando chegassem de volta à Terra – o que leva um tempo considerável de viagem, com muitas variáveis ameaçando a integridade do estudo, mais os anos de pesquisa primária, comprovação – para só então começarem a ser desmentidos.

“O problema é que essas falsas bioassinaturas são normalmente desmentidas após análises posteriores feitas por diferentes cientistas, usando métodos diferentes”, disse Cosmidis. “Mas no caso de Marte, não teremos essa opção até anos depois que as amostras foram coletadas”.

Uma possibilidade já antecipada pelos estudiosos é a identificação de “biomorfos de carbono-enxofre”. Segundo Cosmidis, essas pequenas esferas têm quase o mesmo tamanho que uma bactéria comum, e podem se formar espontaneamente a partir das reações entre carbono e sulfeto. Ambos elementos que podem ter sido abundantes no passado de Marte, e que teriam ótimas fossilizações nas rochas existentes atualmente no planeta.

Mas não são objetos biológicos.

“Se um dia encontrarmos organismos com filamentos orgânicos ou esferas em rochas marcianas, seria uma enorme tentação para nós interpretá-los como bactérias fossilizadas, mas eles poderão muito bem ser biomorfos de carbono-enxofre”, disse Cosmidis.

Em seu estudo, Cosmidis e McMahon decidiram recriar em laboratório a maior parte dos falsos fósseis conhecidos, e criar do zero possíveis combinações que podem existir em Marte. O resultado foi mais de uma dúzia de possibilidades de objetos que podem trazer classificações erradas, caso identificados no planeta vermelho.

O desejo dos cientistas é o de que seu trabalho ajude as agências espaciais do mundo a se prevenirem de descobertas com classificação equivocada, o que traria não somente uma grande decepção, mas também poderia invalidar décadas de pesquisas e trabalho na busca pela vida alienígena.

“Esses erros e suas correções são uma parte normal da ciência”, disse Cosmidis. “Mas em um assunto que vem recebendo tanta atenção pública como é a busca pela ida em Marte, há sempre um risco de que erros assim acabem gerando uma desconfiança no trabalho dos cientistas”.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!