Um projeto altamente experimental vem contando com a ajuda da Amazon para entender se é possível, literalmente, reduzir o brilho do Sol. Por meio da estrutura de cloud computing da Amazon Web Services (AWS), os pesquisadores estão rodando simulações de como seria a Terra em um cenário onde ele fosse menos intenso.

As mentes por trás da ideia pertencem ao National Center for Atmospheric Research (NCAR), uma das muitas entidades que conduzem pesquisas climáticas no intuito de encontrar soluções que reduzam ou eliminem o problema do aquecimento global; em parceria com a ONG SilverLining, que atua em pesquisas voltadas ao que ela chama de “gerenciamento da radiação solar”.

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Ilustração mostra o Sol. Existem projetos dedicados a "escurecer" o Sol, mas ainda não sabemos das vantagens e desvantagens disso
O calor intenso do Sol acaba “preso” na atmosfera da Terra devido ao aquecimento global: “reduzir o brilho” de nossa estrela seria uma solução extrema, mas mais pesquisas são necessárias antes de qualquer ação prática (Imagem: Lukasz Pawel Szczepanski/Shutterstock)

Normalmente, projeções desse tipo são feitas em supercomputadores – estes, armazenados em locais muito específicos, dentro de uma estrutura tecnológica extremamente singular. Modelos climáticos para projetos extremos como esse tendem a exigir uma imensa capacidade de processamento (CPU), e nem todo país tem essa disponibilidade.

O resultado disso é que não há uma democratização das bases de dados para que mais pessoas consigam despejar seus conhecimentos e opiniões para a solução de um problema que afeta a todos nós.

“A computação na nuvem começou a atingir um ponto onde ela pode contemplar o apoio a cargas de trabalho desse tipo”, disse Kelly Wanser, diretora executiva da SilverLining. “Então você tem esse ponto de inflexão onde a tecnologia empregada é suficientemente complexa, o que traz uma questão: é possível quebrar o impasse da adoção [da nuvem] e tentar rodar essas coisas nela? E, se sim, o que acontece quando você faz isso?”

A AWS vem sendo usada para armazenar o Community Earth System Model Version 2 e o Whole Atmosphere Community Climate Model – dois dos modelos climáticos mais abrangentes sob domínio do NCAR. Normalmente, o centro de pesquisa roda ambos no supercomputador conhecido como Cheyenne, que figura entre os 100 primeiros dos 500 mais poderosos supercomputadores do mundo.

“O principal fator desse projeto foi o fato de que nós estávamos financiando um grupo que apoia pesquisadores do hemisfério sul, e eles não conseguiam acesso às bases de dados”, disse Wanser. “E, claro, por causa disso, eles não conseguiam usar os modelos. Então se você está, por exemplo, baseado em países como Toga ou Bangladesh ou qualquer outro lugar com uma rede de internet mais fraca, isso não passa nem perto do necessário para trabalhar com todas essas informações ou rodar os modelos”.

Já na nuvem, ela explicou, você acaba abrindo a capacidade de trabalhar esses dados com um número exponencialmente maior de pesquisadores, ou mesmo pessoas que não são necessariamente cientistas.

Evidentemente, estamos falando de um cenário extremamente especulativo. Nós já sabemos que a redução da incidência da luz do Sol na Terra causa o resfriamento planetário – ao longo de toda a pré-história, tivemos as eras do gelo para provar. Isso também poderia ser atingido de forma natural? Talvez, com erupções de vulcões supermassivos, expelindo material suficiente para que a atmosfera bloqueasse a passagem de luz.

Há, contudo, dois problemas com isso: o primeiro e mais óbvio é o de que nós não temos como prever os efeitos disso acontecendo naturalmente. Qual seria a temperatura ideal? Como chegaríamos até ela? Quando chegássemos, como evitamos esfriar demais e acabar invertendo o problema para outras necessidades de solução?

O segundo tem mais a ver com a natureza humana: o aquecimento global avança assustadoramente, hoje, em grande parte pelo uso de combustíveis fósseis, provenientes de países altamente industrializados e empresas de capacidade global que operam seus negócios usando recursos naturais. Ironicamente, a própria Amazon é culpada disso em muitos aspectos.

Supondo que a humanidade consiga reduzir a incidência do Sol na Terra, o que impede toda essa gente de pensar nisso como um tempo a mais para continuar perfurando o solo, esgotando recursos naturais e continuando a raiz do problema?

Isso sem contar diversos estudos que mostram que a redução do brilho solar não seria exatamente uma solução definitiva. Um estudo de dezembro de 2019, publicado na Earth’s Future, mostra que mesmo essa redução solar não impediria a Groenlândia ou outras massas polares gigantescas de derreterem.

Por essa razão, a condução de modelos climáticos simulados é importante: os dois modelos do NCAR consideram uma Terra entre os anos de 2035 e 2070, e a vida neles é consideravelmente melhor – as massas polares estão mais firmes por mais tempo, a temperatura média da Terra está controlada e estável e as empresas e governos conseguiram cumprir parâmetros ambientais comprometidos em iniciativas como o Acordo de Paris.

Entretanto, há variáveis desconhecidas até mesmo para o pessoal do NCAR, e armazenar tudo isso em supercomputadores garante apenas que poucas pessoas tenham acesso às bases de dados. Eventualmente, as ideias podem acabar ou se repetir.

Nisso, entra a AWS e sua estrutura em cloud computing: ao colocar esses modelos em um ambiente mais aberto, a Amazon assegura que pessoas de outras partes do mundo, outras culturas e outros estudos, consigam analisar os dados e ingressar com opiniões e correções onde elas se fizerem necessárias.

“Nossa colaboração com a iniciativa da SilverLining ajuda a confrontar a necessidade urgente por infraestrutura de suporte e avanço das pesquisas climáticas”, disse um porta-voz da Amazon ao Gizmodo, por e-mail. “Hospedar as bases de dados dentro do nosso programa [AWS Open Data Sponsorship Program] abrirá um novo e poderoso caminho para acelerar a pesquisa do clima, além de democratizar o acesso às ferramentas e informações que vão ajudar a proteger o nosso planeta”.

Vale lembrar que, exceto pelos modelos criados, não há hoje nenhuma aplicação prática dessa iniciativa: um projeto para “escurecer o Sol”, segundo estimativas, pode custar até US$ 10 bilhões (R$ 56,47 bilhões) por ano, mas nós ainda estamos em um momento onde as pesquisas precisam estabelecer o que pode dar errado, antes de pensar em como ele pode dar certo.

Quem sabe se, com mais gente pensando no problema, uma resposta para isso não apareça, antes tarde do que nunca?

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