Se você tem o hábito de garimpar brechós e antiquários pelo mundo afora, pode correr o risco de comprar uma peça histórica importante e nem perceber. Foi o que aconteceu com Helen Fioratti, dona de uma galeria de antiguidades europeias no distrito de Manhattan, em Nova York, nos EUA. Ela manteve por anos em sua sala de estar uma mesa de centro cujo tampo era de um estonteante mosaico que ninguém poderia imaginar ser pertencente a um dos mais lendários governantes do Império Romano: Caio Júlio César Augusto Germânico, o Calígula.

Segundo reportagem da CBS, quem descobriu, por mero acaso, que a peça estava sob posse de Helen foi Dario Del Bufalo, um especialista italiano em pedras e mármores antigos. 

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Dario Del Bufalo, autor do livro “Marmorari Magistri Romani”, no qual consta a imagem do mosaico de Calígula que ficou desaparecido por quase 2 milênios. Imagem: 60minutes Overtime – CBS

Registro do mosaico de Calígula nas páginas de um livro foi a primeira pista

Em 2013, Del Bufalo publicou um livro sobre pórfiro –  um tipo de rocha texturizada com cristais que frequentemente era escolhida pelos imperadores romanos para compor os ambientes.

Uma das fotos do livro mostrava um mosaico de 1,4 m2 trabalhado em um rico mármore verde e branco e pórfiro vermelho-púrpura, que fazia parte de um piso marchetado de um dos gigantescos e extravagantes navios encomendados pelo imperador Calígula, um governante descrito pelos historiadores como cruel, depravado e desequilibrado.

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Mosaico feito sobre pórfiro era parte de um dos navios do imperador romano Calígula e tornou-se tampo de uma mesa de centro em Nova York. Imagem: 60minutes Overtime – CBS

Com 70 m de largura por 73 m de comprimento e cascos planos, os navios de madeira de Calígula foram claramente construídos como barcaças destinadas a permanecer em águas plácidas, não para transpor as ondas. 

De acordo com uma edição do The New York Times de 1908, as embarcações eram cobertas com velas de seda e tinham pomares, vinhedos e até banheiros com água corrente. 

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Quando Calígula foi assassinado no início do primeiro século, no ano de 41, após seu curto reinado de quatro anos, seus navios foram afundados exatamente onde estavam, no meio do Lago Nemi, um pequeno lago vulcânico a sudeste de Roma. 

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Museu de Mussolini que continha as relíquias de Calígula pegou fogo

Ao longo dos séculos que se seguiram, várias tentativas foram feitas para retirar os opulentos navios das águas. Em 1895, mergulhadores realizaram um levantamento completo do local e começaram a recuperar as relíquias do fundo lamacento do lago. Foi quando os arqueólogos desenterraram certos ladrilhos de mosaico de pedra colorida.

“O deck deve ter sido algo maravilhoso de se ver, e vai além do poder da imaginação por sua força e elegância”, disse o arqueólogo italiano Rodolfo Lanciani sobre a descoberta em uma edição de The Youth’s Companion, de acordo com um artigo de 1898 no The New York Times. “Por último, vem o pavimento pisado por pés imperiais, feito de discos de pórfiro e serpentina, não mais grossos que um dólar de prata, emoldurados em segmentos e linhas de esmalte, branco e dourado, branco e vermelho, ou branco, vermelho e verde. As cores são perfeitamente brilhantes. Imagine o convés de um iate moderno incrustado em esmalte”.

De acordo com a CBS, o ditador fascista Benito Mussolini era tão fanático por Calígula – que segundo a lenda transformou seu palácio em bordel e nomeou seu cavalo como senador de alto escalão – que ordenou que o lago Nemi fosse parcialmente drenado para que os dois navios pudessem ser erguidos. No início dos anos 1930, Mussolini encomendou um museu próximo ao lago para abrigar os navios e os tesouros que fossem recuperados. 

No entanto, depois de ficar submerso por quase 1.900 anos, os antros flutuantes da libertinagem de Calígula não veriam terra seca por muito tempo. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas usaram o museu como abrigo contra bombas, e os italianos de Nemi alegam que os alemães em retirada atearam fogo no prédio em 1944, destruindo a maioria dos objetos dentro dele. 

É aí que começa o mistério sobre o mosaico que virou tampo de mesa. 

Do deck do navio de orgias para os cafezinhos de uma senhora norte-americana

Segundo Del Bufalo, em uma tarde de autógrafos para lançamento de seu livro na joalheria Bulgari, na 5ª Avenida de Manhattan, ele ouviu uma uma conversa despretensiosa entre um jovem e uma senhora. “Havia uma senhora com um rapaz com um chapéu estranho que veio à mesa. E ele disse a ela: ‘Que livro lindo. Oh, Helen, olhe, esse é o seu mosaico.’ E ela disse: ‘Sim, esse é o meu mosaico’.”

Del Bufalo revelou ter ficado chocado, tanto com o assunto da conversa quanto com a forma quase indiferente com que a peça foi identificada por Helen e o amigo no livro. Ao abordá-los na saída do evento, ele pediu para ver o objeto.

Então, foi levado por Helen até seu apartamento na Park Avenue, quando avistou a peça sobre uma base de quatro pés no centro da sala: era realmente o piso de mosaico colorido de Calígula, embora não apresentasse evidências dos danos causados ​​pelo fogo – o que sugere que ele foi retirado do museu antes do incêndio ou estava em mãos privadas desde que foi extraído do lago.

Helen Constantino Fioratti, dona do L’Antiquaire and The Connoissuer, adquiriu a peça junto com o marido na década de 1960, sem imaginar do que se tratava. Imagem: Manhattan Sideways

Segundo Helen Fioratti relatou ao Times em 2017, ela e seu marido, Nereo Fioratti, um jornalista que trabalhava para o periódico italiano Il Tempo, compraram o artigo de boa fé de uma família nobre da Itália na década de 1960. Helen disse que eles não tinham motivos para suspeitar que eles não eram os legítimos proprietários do mosaico.

“Foi uma compra inocente”, disse Fioratti à publicação, contando que ela e o marido tinham muita estima pela peça, que foi transformada em tampo de mesa assim que eles retornaram para Nova York. “Era nossa coisa favorita, e a tivemos por 45 anos”.

Segundo a promotoria distrital de Manhattan, as evidências sugerem que o mosaico foi roubado do museu Nemi. Em setembro de 2017, eles apreenderam a peça e a devolveram ao governo italiano. 

Helen não ficará sem seu tampo de mesa

Del Bufalo, que simpatizou com Helen, revelou ter ficado em uma situação difícil. “Tive muita pena dela, mas não poderia fazer nada diferente, sabendo que no museu em Nemi está faltando a melhor parte que passou através dos séculos, através da guerra, através de um incêndio, e depois através de um negociante de arte italiano, e finalmente poderia voltar ao museu”, disse ele. “Essa é a única coisa que eu senti que deveria ter feito”.

Depois de receber uma limpeza completa para remover todos os vestígios de sua antiga vida como apoio de cafés, chás e vasos de flores, o mosaico foi colocado em exibição no Museu dos Navios Romanos de Nemi em março deste ano. 

Nesse meio tempo, Del Bufalo havia criado uma réplica convincente do mosaico, que pretende presentear Helen, para que ela possa voltar a decorar a sala de seu apartamento. “Acho que minha alma se sentiria um pouco melhor”, declarou o escritor.

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