No último dia 11, a Blue Origin realizou seu terceiro lançamento tripulado da nave New Shepard, desta vez com lotação máxima, ou seja, contando com seis passageiros. A convite de Jeff Bezos, Laura Shepard Churchley, filha do primeiro norte-americano a viajar ao espaço, fez parte da tripulação a bordo do veículo que leva o nome de seu pai.

Segundo a Blue Origin, o voo de 10 minutos estabeleceu Laura como a 605ª pessoa no mundo (e 372ª nos EUA) a voar acima da Terra.

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Laura concedeu uma entrevista ao site collectSPACE na quinta-feira (16), cinco dias depois do lançamento da missão NS-19, como foi batizado o voo do qual ela fez parte. Ela disse ter gostado muito de ser “a primeira verdadeira Shepard” a bordo do New Shepard. 

Laura Shepard Churchley, filha do primeiro norte-americano a viajar ao espaço, voou no último dia 11 para a órbita baixa da Terra com a Blue Origin. Imagem: Blue Origin

Como Laura Shepard foi convidada a voar pela Blue Origin

Questionada pela publicação sobre como aconteceu o convite para viajar ao espaço com a Blue Origin, Laura revelou que tudo começou a partir de um comentário feito por ela mesma em uma festa de aniversário. “Existe uma organização chamada Back To Space, que, em junho deste ano, fez uma celebração pelo 50º aniversário da Apollo 14, a missão de quando o papai pousou na Lua. Foi durante aquela comemoração, que fiz o comentário: ‘Não seria bom se um Shepard de verdade voasse no Novo Shepard?’ e, aparentemente, alguém conhecia Bezos ou tinha alguma ligação com ele”

Ela conta que, três meses depois desse episódio, recebeu um telefonema da Blue Origin. “Eles perguntaram se eu queria estar no próximo lançamento. E eu disse sim”.

Um tempo depois disso, Laura conta que começaram os treinamentos. “Tivemos dois dias e meio de quase oito horas de instruções e foi extremamente informativo. Além disso, temos que entrar no simulador pelo menos 20 vezes e fazer o voo de 10 minutos”, explicou Laura. “Então, quando prendi meu cinto de segurança na manhã de nosso lançamento, eu não podia acreditar que sabia o que iria acontecer antes de acontecer. Foi como fazer outra corrida no simulador. O treinamento foi intenso, mas com certeza valeu a pena”.

Sentir a força da gravidade durante o voo

“Subindo, era como dois G’s [duas vezes a força da gravidade]”, explicou Laura sobre a força da gravidade durante o voo. “Conseguia tirar as mãos do apoio de braço e realmente não o sentia no peito porque, embora não estivéssemos deitados, não estávamos sentados eretos e isso ajudou”.

Ela conta que, na descida, as coisas foram mais intensas. “Descendo, porém, eram 6,5 G’s e eu não conseguia tirar os braços do apoio de braço. Eu podia sentir essa pressão forte, forte no meu peito. Então, respirei o máximo que pude e segurei, porque sabia que só ficaria assim por 30 segundos”.

Em um tocante trecho da entrevista, Laura compara sua experiência de voar ao espaço com a sensação de ver seu pai fazendo isso. “Geralmente, é mais difícil para as pessoas em terra assistir a um lançamento”. 

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Ela narrou como foi o dia em que Alan Shepard sagrou-se o primeiro americano a ir ao espaço. “Eu estava na casa do diretor com o reitor das meninas, o reitor dos meninos, todas as mães da casa, o diretor da escola, o presidente da corporação – todas as pessoas que uma pessoa da oitava série não queria ter que falar muito tempo. Eles me colocaram em um banco de piano em frente a uma pequena TV em preto e branco. E eu me inclinei bem perto da televisão e disse: ‘Papai, por favor, não estrague tudo’, mas eu sabia que ele ficaria bem. Ele conversou conosco durante os dois anos de seu treinamento e eu sabia que a Nasa o traria para casa em segurança, então não havia nada com que me preocupar”.

Laura Shepard Churchley, filha do primeiro norte-americano a viajar ao espaço, foi convidada por Jeff Bezos a voar a bordo da nave que leva o nome de seu pai. Imagem: Blue Origin

“Muito emocionante”, diz Laura sobre seu voo

“O lançamento foi muito emocionante. Você podia sentir a força do foguete decolando. Era tão poderoso”, descreveu Laura. “Isso era algo que eles não podiam simular no treinamento. Isso meio que me lembrou de dirigir com papai no Corvette, quando ele pisava no acelerador e minha cabeça voltava para a cadeira. Foi muito estimulante”.

Segundo ela, a única coisa um “pouco assustadora” é que o veículo é lançado “em ângulo”.

“Não sobe direto”, diz Laura. “E, então, houve cerca de oito segundos em que todos nós ficamos meio hesitantes porque era uma sensação que não tínhamos antes. Não estava indo bem e por isso ficamos um pouco preocupados com isso, mas depois de cerca de oito segundos tudo se endireitou e estava tudo bem”. 

Sobre a separação dos estágios, Laura revela que se surpreendeu. “No treinamento, eles tentaram simular para nós o barulho [da separação], mas era muito mais alto. Estávamos prevendo um barulho, então só porque estava mais alto não nos incomodou. Foi bom. Mas, então, não podíamos sentir se estávamos subindo ou descendo. Era como se estivéssemos apenas parados. Pelo menos é o que parecia. Mas estávamos subindo, então funcionou bem”. 

Sobre a sensação de microgravidade, ela disse que “a ausência de peso foi muito, muito divertida”. “Você podia sentir em seus braços, eles estavam se levantando, então essa foi a primeira sensação”, explicou. “Então [o controle da missão] nos alertou que não teríamos peso, e nos disse para nos prepararmos para sair da cadeira.

“Eu larguei tudo e fui erguida da cadeira. Então, aguentei porque não tinha certeza de quão alto eu iria. Eu tentei fazer uma parada de mão, que tentei praticar [no chão], mas não consegui levantar minhas pernas porque tem apenas 3,7 m de diâmetro”, conta Laura.

“Achei que talvez fosse diferente quando eu não tivesse peso, e foi! Tudo o que fiz foi colocar minhas mãos no apoio de braço e depois minha cabeça no assento – não sei como minhas pernas levantaram no ar, mas levantaram”, descreveu ela, contando que deu algumas “cambalhotas”.

E, então, Laura revela como foi o momento em que viu o espaço pela janela. “Finalmente, achei que deveria olhar pela janela. O preto era simplesmente incrível, fazia com que a Terra parecesse tão pequena. Achei que possivelmente veria estrelas, mas havia muita luz, então não vimos nenhuma estrela. Mas, é espetacular porque é convidativo”.

Com o cabelo flutuando no ambiente sem peso do espaço, Laura Shepard Churchley olha por uma das grandes janelas da cápsula New Shepard da Blue Origin durante o voo suborbital NS-19. Imagem: Blue Origin

Segundo Laura, ela pensou que a experiência seria mais longa. “Pareceu muito curto. Muito curto. Parecia que ficávamos no simulador mais tempo, mas era só porque íamos entrar e sair dele para praticar diferentes atividades. Achei que seria um voo mais longo, mas foram os 10 minutos mais rápidos que já passei”.

De qualquer forma, foi algo altamente construtivo na vida de Laura, que relata o que mais marcou para ela. “Nossa equipe, a maneira como crescemos juntos como uma equipe é uma coisa só. A decolagem do lançamento foi a parte mais emocionante. Imponderabilidade. Ah, existem tantos fatores. É uma coisa que, se eu olhar para trás, posso dizer em uma conversa: ‘Bem, quer saber? A única coisa que eu fiz na minha vida que eu realmente gostei foi ir para o espaço’.”

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