2021 foi um ano intenso para os fãs da exploração espacial. Ao longo dos últimos 12 meses tivemos nada menos que 132 lançamentos de foguetes, sendo 50 destes realizados pela China, 48 pelos EUA, 15 pela Rússia, 15 pelo consórcio europeu Arianespace, 3 pelo Japão e 1 pela Índia.

O ano até que começou “devagar”, com apenas 7 lançamentos em janeiro, mas o ritmo acelerou e em dezembro tivemos nada menos do que 18 lançamentos. No geral ouve um aumento de mais de 25% em relação ao ano anterior, 2020, quando foram feitos 104 lançamentos.

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Entretanto, entre vários Falcon 9, Soyuz, Ariane 5 e Longa Marcha 7, só para citar alguns, não tivemos um lançamento sequer de uma nova geração de “super foguetes” atualmente em desenvolvimento, que prometem aumentar consideravelmente a capacidade de envio de carga para a órbita terrestre e reduzir o custo dos lançamentos. Com isso, eles abrirão caminho para projetos ambiciosos como o retorno à Lua, a colonização de Marte ou a construção de novas estações espaciais.

Isso pode mudar em breve. Nada menos do que cinco novas “máquinas” tem lançamento previsto, ou estimado, para 2022. Mas antes de falar sobre elas, cabe o aviso: o desenvolvimento de um foguete de grande porte é… bem, é “ciência de foguetes”, ou seja, algo extremamente complexo.

Atrasos de alguns anos (até mesmo décadas) no cronograma são bastante comuns, e muitas vezes as datas são mais uma “estimativa” do que um compromisso no papel, especialmente no início do desenvolvimento. Assim, não estranhe se alguns dos foguetes desta lista acabarem ficando para 2023. Um dia eles sobem, tenha fé.

Super Heavy, da SpaceX

Capaz de levar até 150 toneladas para uma órbita baixa ao redor da Terra (LEO, Low Earth Orbit), o Super Heavy é a “cara metade” da Starship, espaçonave em desenvolvimento pela SpaceX que, um dia, poderá levar astronautas à Lua ou dar o pontapé para a colonização de Marte.

Tivemos vários testes de lançamento da Starship durante 2021, muitos deles com resultados, digamos, “espetaculares“. Mas todos foram testes de baixa altitude e nenhum deles envolveu um Super Heavy. O foguete será necessário nos lançamentos orbitais, já que seus 33 (sim, trinta e três) propulsores Raptor serão os responsáveis por fornecer a maior parte do impulso necessário para levar uma Starship à órbita terrestre, ou além dela.

Imagem mostra o foguete Super Heavy montado em sua base de lançamento
Super Heavy e Starship (a parte preta) empilhados durante teste na base da SpaceX em Boca Chica, Texas, EUA. Imagem: SpaceX/Divulgação

Ao longo deste ano a SpaceX montou o primeiro protótipo de um Super Heavy e chegou a empilhar uma Starship sobre ele, mas não testou o foguete além de rápidos disparos estáticos, quando os propulsores são acionados por apenas alguns segundos com o foguete preso ao chão.

A estimativa atual da SpaceX é que o primeiro teste “para valer” do Super Heavy aconteça em janeiro ou fevereiro deste ano. Mas tenha em mente que a empresa já furou o prazo algumas vezes: no início de 2021 ela estimava que o primeiro teste orbital de uma Starship + Super Heavy aconteceria até julho, data que depois foi alterada para “até o fim do ano”. 

Space Launch System, da Nasa

O Space Launch System (SLS) será o foguete usado pela Nasa nas primeiras missões do programa Artemis, que pretende levar astronautas de volta à Lua nos próximos anos. Capaz de transportar 95 toneladas para LEO, ele chegou a passar por um teste estático (sem decolagem) em março deste ano.

Na época, a estimativa era de que o primeiro lançamento “para valer”, na missão Artemis I, seria feito em novembro de 2021, levando uma cápsula Orion para uma viagem não tripulada ao redor da Lua. Mas no decorrer do ano a missão foi adiada, inicialmente para fevereiro de 2022 e mais recentemente para “março ou abril” devido a uma falha no computador que controla um dos quatro motores RS-25. 

O SLS será usado nas primeiras missões do programa Artemis para retorno à Lua. Imagem: Nasa/Divulgação

Na verdade todo o cronograma do programa Artemis foi ajustado, não só por causa dos atrasos no SLS. O primeiro pouso tripulado na Lua, que originalmente estava estimado para 2024, agora vai ocorrer “não antes de 2025“, e pode demorar mais ainda.

De qualquer forma, o SLS terá vida curta. Ao longo do programa Artemis a Nasa espera substituí-lo pela dupla Super Heavy + Starship da SpaceX, usando a Starship como veículo de pouso para levar astronautas diretamente à superfície lunar.

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Ariane 6, da Arianespace

Comparado ao Super Heavy e ao SLS, o Ariane 6 é “fraquinho” e pode levar apenas 22 toneladas para LEO, o que o torna um concorrente direto do Falcon 9 “Full Thrust” (a versão mais poderosa).

Entretanto, o foguete é crucial para a sobrevivência da Arianespace, que no passado era um participante importante no mercado de lançamentos, mas vem perdendo espaço para a SpaceX, mais ágil e com menor custo.

Foguete Ariane 5 carregando o Telescópio Espacial James Webb numa plataforma de lançamento em Kourou, Guiana Francesa, em 23 de dezembro de 2021. (Crédito da imagem: ESA – S. Corvaja)

O desenvolvimento do Ariane 6 vem sendo marcado por atrasos, com um voo inagural originalmente previsto para 2020 e agora programado para o segundo semestre de 2022. Isso se tudo correr bem.

Mas o CEO da Arianespace, Stéphane Israël, está confiante. Durante um painel na Euroconsult World Satellite Business Week, evento realizado em Paris em meados de dezembro, ele afirmou que “não haverá atraso no Ariane 6 porque agora estamos na reta final do lançamento”. Será?

Vulcan Centaur, da United Launch Alliance (ULA)

Com capacidade de 27 toneladas para LEO, o Vulcan Centaur é outro concorrente do Falcon 9 que tem um processo de desenvolvimento “enrolado”. Desta vez a culpa é da Blue Origin, que ainda não entregou à ULA os propulsores BE-4 que serão usados no foguete.

O problema é que isso não deve acontecer antes da primavera (no hemisfério norte, outono por aqui) de 2022, o que deixa à ULA pouquíssimo tempo para integrá-os ao foguete e fazer um teste ainda em meados do ano, como programado. 

Mockup do lançamento de um Vulcan Centaur, da United Launch Alliance (ULA). Imagem: United Launch Alliance
Mockup do lançamento de um Vulcan Centaur, da United Launch Alliance (ULA). Imagem: United Launch Alliance

O atraso resultou em uma bem-humorada troca de farpas entre Tory Bruno, CEO da ULA, e Elon Musk, da SpaceX. Musk perguntou ao concorrente “quando os motores vão chegar”, e Bruno respondeu oferecendo um passeio pelas instalações da empresa. “Em breve. Quer uma tour quando eles chegarem?”.

Ao que Musk respondeu: “Devo levar alguns motores extras?”. Bruno não deixou a bola cair: “Não, obrigado. Ouvi dizer que seu foguete voa com muitos e não gostaria de deixá-lo sem”, em referência às dezenas de motores do Super Heavy.

New Glenn, da Blue Origin

E falando na Blue Origin, terminamos a lista com o New Glenn. Quando pronto, o foguete será capaz de colocar uma carga de 45 toneladas em órbita baixa ao redor da Terra, o dobro das 22 toneladas de um Falcon 9 “Full Thrust”, mas menos que as 65 toneladas de um Falcon Heavy.

Ênfase no “quando pronto”. O primeiro teste do foguete, que também usa os propulsores BE-4, estava originalmente programado para o final de 2021, mas em fevereiro foi adiado para um incerto “quarto trimestre de 2022”. Oficialmente, um dos motivos para a mudança foi o fato de que o New Glenn não foi selecionado para um contrato com a Força Espacial dos EUA para o lançamento de “missões de segurança nacional”.

O contrato se iniciaria no começo de 2022, por isso havia pressão para concluir o desenvolvimento e testes antes disso. Mas sem ele, o cronograma foi ajustado para “se adequar à demanda” dos clientes comerciais da Blue Origin.

Ilustração de um foguete New Glenn, da Blue Origin, na plataforma de lançamento
Ilustração de um foguete New Glenn, da Blue Origin, na plataforma de lançamento. Imagem: Blue Origin

O New Glenn não deve ser confundido com o New Shepard, que já está em operação. Este é um foguete de pequeno porte construído para voos turísticos suborbitais, ou seja, que não entram em órbita de nosso planeta.

Eles tem duração de pouco mais de 10 minutos, com o foguete subindo em ascensão direta até uma altitude de pouco mais de 100 km, antes da cápsula com os passageiros se separar e retornar à Terra com a ajuda de paraquedas. O foguete pousa verticalmente como os Falcon 9 da SpaceX, o que permite sua reutilização.

Até o momento a Blue Origin já fez 19 lançamentos do New Shepard, quatro deles tripulados, todos concluídos com sucesso.

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